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domingo, 7 de janeiro de 2018

SUCESSO TEM RECEITA? E O QUE É SUCESSO?

Outro dia escrevi dois pequenos textos sobre o tema sucesso.

1) "Não devemos nos sentir culpados por sermos FELIZES e outros não. FELICIDADE tem conceito subjetivo e razões efêmeras, portanto, sentir-nos culpados pode nos dar um certo ar de superioridade e arrogância. Não devemos nos sentir culpados por sermos BEM SUCEDIDOS e outros não. SUCESSO tem conceito subjetivo e razões efêmeras, portanto, sentir-nos culpados pode nos dar um certo ar de superioridade e arrogância."
Bem... eu poderia começar discutindo o conceito de sucesso, mas o assunto é tão polêmico e filosófico que certamente me faria perder o foco. Vamos supor que ser bem sucedido seja você ter um trabalho que goste, poder pagar confortavelmente suas contas, ter direito ao lazer e poupar para usufruir de conforto e segurança na velhice.

Existe receita?

Os que planejaram e deu certo acham que sim; os que não planejaram talvez tenham se arrependido de não terem planejado e os que herdaram fortunas não necessariamente se preocuparam muito com isso.

É óbvio que planejar é muito importante, seja para quem está começando a vida, seja para quem acordou mais tarde pra essa necessidade ou até para quem herdou negócios ou fortuna. Com planejamento nem tudo pode ser resolvido, mas tudo pode ser melhorado.

O problema está nas pessoas que não consideram as particularidades da vida de cada um e criticam as que não planejaram ou não foram bem sucedidas como elas foram. Muitas delas tornam-se convencidas e intolerantes com os que erraram, esquecendo-se de que existem outros valores que não podem ser medidos pela sociedade dentro dos padrões - normalmente materiais - que ela estabelece.

O que é obstáculo para uma pessoa pode não ser para outra. Depende da ordem de valores de cada um. A pessoa obstinada simplesmente retira o obstáculo alheio ao seu objetivo e continua em frente. Só consegue enxergar o sucesso do seu projeto de vida e nada mais.

Mas ambas têm algo em comum, mesmo que os valores sejam antagônicos:

2) "Para sentirem-se bem, deixaram algo que achavam menos importante de lado."

sexta-feira, 12 de junho de 2015

A revolução do século XXI


 Como Pablo Picasso retrataria Guernica, trocando espadas, touros e humanos
por computadores, redes sociais e seres virtuais? 


Já estamos tendo, mas teremos mais. Tempos difíceis neste século para o Brasil em todos os sentidos, mais especificamente no sócio-político. O despertar que muitos países tiveram nos séculos passados com guerras, privações e caos social, nosso país terá agora os mesmos traumas numa versão contemporânea. Alguns ainda não entendem o que está por trás de algumas ideologias que tentam raptar o bom senso das mentes para manipulá-las livremente com promessas que a princípio fazem sentido, mas que nunca serão cumpridas. Simplesmente porque, na teoria e na prática, a luta pelo poder caminha num sentido oposto ao da luta pela igualdade e da liberdade.



domingo, 26 de maio de 2013

O poder da palavra

Bem feito! Esta é uma frase que normalmente se diz quando alguém recebe o que "mereceu", segundo o julgamento de quem fala. Como esta frase já está arraigada no vocabulário da sociedade, menciona-se automaticamente quando se vê alguém levando o que chamamos de "troco". É a lei da ação e reação, muitos dizem. Mas esta lei existe apenas para aqueles que não gostamos? Ou será que a partir do momento que dissermos "bem feito", não estaremos também sujeitos à ela? Só os nossos inimigos e desafetos agem e recebem de volta as consequências de suas ações?

A mente humana é complexa e foi muito pouco desvendada pela ciência. Equipamentos especiais conseguem revelar as regiões de atividades mais intensas do cérebro diante de estímulos externos (fatos) e internos (pensamento), podendo até prever reações diante de alguns estímulos já conhecidos, catalogados e estudados, mas não consegue prever muitos de seus efeitos colaterais. Chamo de efeitos colaterais os resultantes do processamento silencioso do nosso inconsciente em relação às nossas atitudes e às frases que mencionamos. Enquanto a nossa razão sabe muito bem o significado desse "bem feito" que falamos, como será que o inconsciente o "entende" e o processa?

Sim, tem um pouco a ver com a lei da atração abordada em "O Segredo", mas será que basta resolver este problema simplesmente negando o que se falou, substituindo a frase por palavras positivas ou de arrependimento no nível da razão? Será que o inconsciente não assume o sentido literal do "bem feito" e o cataloga como exemplo de um "bem que foi feito" e nos leva a atrair esse "bem"?

É óbvio que esses recursos racionais de recusarmos o pensamento de vingança ou praticarmos o Ho'oponopono(*) nos ajudam, mas com isto estaremos definitivamente livres dessa reação inconsciente? Na verdade não há perdão falado sem perdão sinceramente sentido. O falado pode nos ajudar a pensar, mas só uma profunda reflexão poderá nos fazer sentir.

A melhor receita para isto é a de Dalai Lama em sua definição profunda sobre o verdadeiro sentido da palavra compaixão. Só estaremos livres desse sentimento de mágoa e vingança quando procurarmos entender o funcionamento do mecanismo evolutivo. Quando conseguirmos ser verdadeiramente empáticos com os nossos semelhantes que sofrem com os revezes da vida e entendermos que eles buscam a felicidade, assim como nós buscamos. E essa compaixão nada tem a ver com aquela comumente usada pelas religiões no sentido de "dó" ou "pena". É bem mais do que isto!

"Outras pessoas, assim como eu, buscam a felicidade, não o sofrimento e, mesmo sendo inimigos, têm o direito de superar esse sofrimento. E a partir da compreensão de que eles têm esse direito, desenvolve-se um sentimento de inquietação que é a verdadeira compaixão." (Dalai Lama)

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(*)Ho'oponopono: através desse sistema você pode se livrar das recordações que tocam repetidamente na sua mente (aquela conversa mental interna incessante - principalmente depois de situações estressantes e desagradáveis) e encontrar a Paz. Sem os pensamentos se repetindo, sem crenças limitadoras, sem condicionamentos, sem as lembranças dolorosas, um espaço vazio se abre dentro de você. O Ho’oponopono lhe permite soltar estas recordações dolorosas, que são a causa de tudo que é tipo de desequilíbrios e doenças. Na medida em que a memória é limpa, pensamentos de origem Divina e Inspiração ocupam o vazio dentro de você. A única coisa que devemos fazer é limpar; limpar todas as recordações, com quatro simples frases que abrangem tudo: "Sinto muito, Me perdoe, Te amo e Sou grato" Leia mais em www.hooponopono.ws

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terça-feira, 21 de maio de 2013

Escrevo pra mim

Em primeiro lugar quero dizer que algumas pessoas confundem o que eu escrevo neste blog com aquilo que sou e como ajo na vida real. O que escrevo é o que a minha consciência ou intuição mandam e confesso que nem sempre ajo coerentemente com muitas coisas que procuro dividir com vocês aqui neste espaço. Um blog com o nome "Pura Reflexão" denota uma certa empáfia, dando a entender que eu reflito e dou receitas para que vocês as sigam em suas vidas; que essas receitas já foram testadas por mim e aprovadas pela vida.

Não é nada disso! Na verdade, sou muito mais egoísta do que vocês pensam, pois escrevo pra mim mesmo. Quando resolvo escrever, reflito antes e, principalmente, enquanto escrevo. Às vezes começo com uma ideia, mas ela vai mudando tanto que acabo mudando a própria ideia e o que era principal se transforma em argumento.

Muitas vezes releio meus textos depois de muito tempo, às vezes meses ou anos após tê-los escrito. Mas mesmo percebendo que algumas dúvidas já foram respondidas por novas vivências, eu não os altero e com isso posso refletir mais um pouco e até questionar as próprias respostas que pensava tê-las encontrado.

No entanto é um prazer compartilhar com vocês as minhas reflexões e elas podem até ajudá-los a descobrir suas próprias verdades, mas não tenho e nunca tive a pretensão de mudar nenhuma outra cabeça senão a minha. Em alguns casos, posso indiretamente estar envolvendo pessoas, mas é impossível refletir sobre a vida sem envolver fatos vividos e há sempre um ser humano presente em algum lugar desses 360 graus dos fatos.

Este blog, usando as palavras de Clarice Lispector, é o meu "tédio que pára o tempo", fazendo-me viver intensamente o agora. Um agora que amanhã voltará a ser hoje e novamente um agora. "O tempo não existe. Ou é imutável e nele nos transladamos".

E escrever é o tédio que pára o meu tempo e tenta recompor o pedaço que falta de mim.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Não se liberta o que não se prendeu

Segundo a escritora Sidonie Colette, "quando somos amados não duvidamos de nada; quando amamos, duvidamos de tudo". E basta duvidar para acreditar em mentiras que reforcem as nossas desconfianças, pois, o desejo de ter razão supera e ignora o desejo da própria felicidade, principalmente quando vivemos sob o domínio constante do medo. Medo de perder outras pessoas e o amor maior que tanto preza.

Uma vez escrevi aqui, em um dos meus posts, que a palavra amor é tão complexa que outras espécies de amores deveriam ter nomes diferentes desse que deveria ser único. Amor de mãe, amor de filhos, amor sexual são alguns exemplos. São paradoxos do amor porque exigem análise, reciprocidade específica e prazeres pontuais. Geram disputas e mentiras dos amados e dos desprezados.

Não... não falo do utópico amor incondicional, inalcançável nesta nossa condição de seres encarnados. Falo do amor com aquele algo mais que envolve sincronicidade, admiração, respeito, empatia, liberdade, desprendimento e algumas energias inexplicáveis.

Inexplicáveis como o próprio amor.

sábado, 4 de maio de 2013

Sonho: realizar é não realizar.


Escreveu Victor Hugo em "Os Miseráveis" que "Julgar-se-ia bem mais corretamente um homem por aquilo que ele sonha do que por aquilo que ele pensa.”

O sonho vem da essência pura do homem, impulsionando-o a conquistar o que ele imagina ser felicidade. Normalmente esse sonho é simples e objetivo, mas vai ganhando complexidade à medida que começa a ser questionado pelo próprio idealizador, submetendo a ideia original a determinados valores adquiridos muito tempo depois desse sonho ter sido criado. E aos poucos o homem vai se afastando do sonho concebido, criando barreiras que o impedem de realizá-lo.

Li um artigo da professora Monique Faure onde num trecho ela diz: "Como ratinhos colocados dentro de um labirinto, somos caminhantes no mundo, não para achar o final dele, mas para sermos testados na capacidade de formular perguntas validas a desenvolver uma boa metodologia para percorrê-lo."

Mas qual a medida certa? Passaremos a vida inteira questionando nosso sonho porque esta é nossa missão evolutiva? Ou podemos realizar parte dele para podermos respirar, sendo menos exigentes com esse sonho e com nós mesmos? Podemos retomar os questionamentos num outro momento do nosso aprendizado?

Na verdade, os pensamentos não revelam o ser humano que existe por trás deles ou a verdadeira essência de sua alma. Vez ou outra, ele tem que resgatar seu sonho original para poder agir e realizar parte dele através de sua intuição. Só a ação realiza e elimina boa parte dos questionamentos transformando-os em certezas. Em seguida, voltamos a esquecê-lo e virão novamente as perguntas ainda não respondidas para que o sonho se estabeleça racionalmente, sem no entanto realizá-lo integralmente. Como no paradoxo de Fernando Pessoa: "Para realizar um sonho é preciso esquecê-lo, distrair dele a atenção. Por isso realizar é não realizar."

Portanto, não passe a vida inteira questionando sem parar para respirar. Volte atrás se preciso for, refaça as pausas perdidas e os momentos de alegria que foram suprimidos pelo excesso de questionamentos.

Realize, mesmo sem realizar!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Boicote à felicidade

Há uma frase de Tolstoi que diz: "Se quiser ser feliz, seja!" A frase é simples, mas sabemos que na prática as coisas não são tão simples assim. O que Tolstoi sugere é que existem pessoas que passam a vida inteira desejando a felicidade, mas ficam perto do desejo e longe da ação. Sabemos que não existe felicidade plena, mas podemos ampliar nossos momentos de felicidade simplesmente não boicotando (consciente ou inconscientemente) as oportunidades que aparecem. E você me perguntaria: mas como terei certeza se o que aparecer será mesmo uma boa oportunidade?

O processo de identificação de uma oportunidade não é tão difícil. Difícil mesmo é ter a coragem de nos aproximarmos dela para olhá-la um pouco mais de perto e, se for o caso, abraçá-la. No entanto, são tantas as causas que fazem com que não tenhamos coragem que é difícil enumerá-las. São experiências passadas, mágoas, indecisão compulsiva e uma série de outras, mas há uma especialmente complexa: a do boicote inconsciente. Estranho este termo, não? Qual ser humano "normal" (entre aspas) poderia desejar, mesmo que inconscientemente, a infelicidade em detrimento da felicidade?

Na verdade essas pessoas não desejam a infelicidade, mas rejeitam a oportunidade de serem felizes quando esta vai privá-las de um outro bem ou prazer maior, mesmo que mórbido ou qualquer outro patológico. Como este prazer foge das convenções filosóficas ou sociais que definem felicidade, as pessoas o escondem dos outros e de si mesmas, mas mantém inconscientemente o desejo de senti-lo e o medo de perdê-lo. Desta forma, cada chance de felicidade é rejeitada, pois, é muito mais fácil ser exigente com aquilo que ameaça um prazer maior e que já existe (mesmo patológico e inconsciente) do que com um prazer ainda desejado (mesmo que conscientemente desejado).

Por se tratar de um boicote inconsciente, estas pessoas jamais admitirão tal fato, alegando defeitos e incompatibilidades, intensificando tanto suas justificativas ao ponto de desqualificarem a oportunidade e tudo aquilo que estiver ligado a ela. E quando questionada, dirá que encontrou outra oportunidade muito melhor de ser feliz. Isto porque nesta outra, poderá manter oculto seu principal prazer.

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quarta-feira, 24 de abril de 2013

O Karma e o folclore ocidental em torno dele

Há uma imensa confusão no ocidente sobre o verdadeiro significado de karma (karmam). Isto acontece porque algumas religiões o interpretam de forma diferente, adequando o termo às suas doutrinas e filosofias. Embora seja um assunto extremamente complexo e que não domino integralmente, as duas principais confusões dos ocidentais são as de imaginar o karma como uma cruz que deve ser carregada até o fim da vida e que há determinismo nos acontecimentos que o envolvem. No entanto, o karma é negligenciável, mas há de se ter consciência de que essa negligência apenas posterga sua extinção e não nos livra dos padrões de repetição que nos acompanham a vida toda, padrões estes gerados pela força natural e inconsciente de eliminá-lo. Esta força também se integra à lei da ação e reação, portanto, embora inconsciente, promove fatos repetitivos (padrões) tentando nos "lembrar" de sua existência.

O Budismo ensina que Kamma ou Karma significa "ação" e mostra a importância de desenvolvermos atitudes e intenções corretas em nossas vidas. Enquanto tivermos karma estaremos presos à Roda de Samsara (fluxo incessante de renascimentos). Portanto, a principal meta do budismo é a de extinguir o karma.

Para se ter uma ideia da complexidade do tema "Karma" e sua relação com a natureza, os budistas descrevem cinco categorias de "niyama" como fatores de influência:
  1. Utuniyama: a lei da natureza que diz respeito aos objetos físicos e mudanças no ambiente natural, tais como o clima, a forma como as flores desabrocham durante o dia e se fecham à noite, a forma como o solo, água e nutrientes ajudam uma árvore a crescer e a forma como as coisas se desintegram e se decompõem. Esta perspectiva enfatiza as mudanças ocasionadas pelo calor ou temperatura.
  2. Bijaniyama: a lei da natureza que diz respeito à hereditariedade que é melhor descrita com o ditado popular, “como a semente, assim a fruta.”
  3. Cittaniyama: a lei da natureza que diz respeito aos processos mentais, o processo de reconhecimento dos objetos dos sentidos e as reações mentais associadas a eles.
  4. Kammaniyama: a lei da natureza que diz respeito ao comportamento humano, o processo de geração das ações e os seus resultados. Em essência, isto é resumido nas palavras, “Boas ações trazem bons resultados, más ações trazem maus resultados.”
  5. Dhammaniyama: a lei da natureza que governa a relação e interdependência de todas as coisas: a forma como as coisas surgem, existem e depois cessam. Todas os fenômenos estão sujeitos à mudança, estão num estado de aflição e são não-eu: essa é a Lei.
Todos estamos interligados energeticamente, seja por relacionamentos amorosos, de amizade ou inimizade atuais ou já existentes, nesta ou em outras vidas. Não existe forma de decretar o término de sentimentos, sejam eles de amor, consideração, ódio ou mágoa que envolva apenas um dos lados. É por este motivo que não há como também decretar o fim do karma pelo simples desejo de não enfrentar problemas gerados por esses padrões, pois, a dificuldade, segundo a excelente definição da amiga Isabel Romanello, " é o esmeril que modela a alma." Portanto, uma das várias engrenagens que movimentam a Roda de Samsara.




terça-feira, 23 de abril de 2013

Sabemos de que nada sabemos ou apenas gostamos da frase?

Às vezes somos surpreendidos por pessoas - e às vezes por nós mesmos - que se dizem entendidas nos assuntos que envolvem a espiritualidade e a vida, como se pudessem ser representadas por um conjunto de pequenas e únicas verdades. Assim como a vida, a espiritualidade é intangível, portanto, inexplicável enquanto abordada sob pontos de vista ternários. Nem os grandes mestres iluminados como Budha e Jesus arriscavam discursos deterministas e esgotáveis, cientes que eram dos desdobramentos resultantes da inalienável prática do livre arbítrio ou direito de escolha de cada um. Sugeriam e aconselhavam-nos a buscar nossas próprias verdades, mas mantinham-se coesos com a ética universal. Victor Hugo e Gandhi, respectivamente escreveram: "A verdade é como o Sol. Permite-nos ver tudo, mas não deixa que a olhemos" e "Nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos." Quanto mais vivemos e quanto velhos ficamos, o aprendizado - seja da vida terrena ou espiritual - nos leva irremediavelmente à famosa frase de Sócrates: "SÓ SEI QUE NADA SEI"

Alguns sensitivos que não conseguem ir além do astral, ou seja, permanecem dentro de um campo que, embora mais sutil, ainda mantém forte influência do ego (num sentido não pejorativo), muitas vezes se empolgam com o que sentem ou veem ao ponto de tentarem construir verdades únicas baseadas em suas experiências pessoais. Pior ainda é quando o fazem por meio do conhecimento cognitivo, lendo livros e fazendo cursos.

Infelizmente o fenomenismo nos empolga e nos faz sentir fortes, isto porque somos tentados a acreditar - até pelo poder que a magia ou o inexplicável exerce sobre nós desde a infância - que tudo aquilo que vem do "além" é dotado de uma força que tem até o poder de transformar mentiras em verdades. Na transparência da Quarta Dimensão (Mental), sem fenomenismos e sem a influência do ego, pode-se perceber mais claramente que tudo está certo, nada é finito e tudo é possível. Pode-se perceber que há tendências, mas sem determinismos.

Um dos maiores motivos do sucesso de filmes como Harry Potter e O Senhor dos Anéis reside nessa busca pelo mágico e pelo fenomênico de todos nós. Com a possibilidade de usar forças que não seriam comuns aos mortais, esses filmes nada mais são do que espelhos nos quais vemos nos personagens os reflexos da nossa alegria da vitória do bem sobre o mal, de podermos resolver uma infinidade de problemas do cotidiano ou dar sentido às nossas vidas.

Portanto, ajude, mas não resolva; solidarize-se, mas não julgue; tenha compaixão apenas aceitando o direito que cada um tem de buscar, mesmo sofrendo, aquilo que ele chama de felicidade.

"Outras pessoas, assim como eu, buscam a felicidade, não o sofrimento e, mesmo sendo inimigos, têm o direito de superar esse sofrimento. A partir da compreensão de que eles têm esse direito, desenvolve-se um sentimento de inquietação que é a verdadeira compaixão." (DalaiLama)


Intelectualidade


Intelectuais! É o título que muitos têm, inclusive do mundo artístico, seja por autodenominação ou concedido pelas sociedades. Eu particularmente não gosto desse termo porque nos transmite uma certa arrogância e superioridade. Além do mais o termo vem do Latim "Intellectus" que a princípio nos induz a crer que a inteligência é fator determinante na condução e na resolução de problemas, inteligência esta adquirida ao longo da vida por meio de estudos e entendimento das explicações (inteligência é a capacidade mental de raciocinar, planejar, resolver problemas, abstrair ideias, compreender ideias, linguagens e aprender).

No entanto, de que vale a intelectualidade sem a inteligência emocional? Você aceitaria uma ordem de valores construída por reconhecidos intelectuais, porém, desprovidos da capacidade de reconhecer os próprios sentimentos e os dos outros? Pessoas que se destacam por terem adquirido mais conhecimento ou por possuírem maior capacidade cognitiva estão automaticamente credenciadas para decidir sobre os destinos da humanidade? Como se enquadraria Hitler, por exemplo, que se emocionava com a Cavalgada das Walkírias de Wagner, tinha uma inteligência superior e paradoxalmente era insensível  às milhões de mortes - inclusive as comandava - nos campos de concentração?

Albert Einstein tinha uma inteligência excepcional, mas era um humanista convicto e até certo ponto ingênuo por acreditar que a essas qualidades eram indissociáveis em todas as pessoas inteligentes como ele. Nesta carta para Sigmund Freud que transcrevo é visível esta sua ingenuidade, acreditaando ser possível unir intelectuais do meio literário, filosófico e científico para exercerem influência sobre países, reduzindo a ganância e os interesses políticos em benefício da humanidade. Einstein era um idealista.

Será que isto seria possível? Eu particularmente não acredito. Os preços de hoje estão muito altos, mas o poder financeiro está nas mãos de poucos. E dentro desse triste cenário, sempre encontraremos alguém disposto a pagar e muitos dispostos a ceder.

Cadê os intelectuais brasileiros que saíam às ruas gritando contra a ditadura e a mordaça nos anos 70? Como eu disse, certamente sempre encontraremos alguém disposto a pagar e muitos dispostos a ceder.


CARTA DE EINSTEIN A SIGMUND FREUD
(extraída do livro Como Vejo o Mundo)

"Muito caro Senhor Freud,"

"Sempre admirei sua paixão para descobrir a verdade. Ela o arrebata acima de tudo. O senhor explica com irresistível clareza o quanto na alma humana os instintos de luta e de aniquilamento estão estreitamente relacionados com os instintos do amor e da afirmação da vida. Ao mesmo tempo, suas exposições rigorosas revelam o desejo profundo e o nobre ideal do homem que quer se libertar completamente da guerra. Por esta profunda paixão se reconhecem todos aqueles que, superando seu tempo e sua nação, foram julgados mestres, espirituais ou morais. Descobrimos o mesmo ideal em Jesus Cristo, em Goethe ou em Kant! Não é bastante significativo ver que estes homens foram reconhecidos universalmente como mestres apesar de terem fracassado em sua vontade de estruturar as relações humanas?"

"Estou persuadido de que os homens excepcionais que ocupam a posição de mestres graças a seus trabalhos (mesmo em círculo bem restrito) participam deste mesmo nobre ideal. Não têm grande influência sobre o mundo político. Em compensação, a sorte das nações depende, ao que parece, inevitavelmente de homens políticos, sem nenhum escrúpulo e sem qualquer senso de responsabilidade. Tais chefes e governos políticos obtêm seu cargo seja pela violência seja por eleições populares. Não podem se apresentar como representantes da parte intelectual e moralmente superior das nações. Quanto à elite intelectual, não exerce influência alguma sobre o destino dos povos. Dispersa demais, não pode nem trabalhar, nem colaborar quando se trata de resolver um problema urgente."

"Sendo assim, não pensa o senhor que uma associação livre de personalidades — garantindo suas capacidades e a sinceridade da vontade por suas ações e criações anteriores — não poderia propor realmente um programa novo? Uma comunidade de estrutura internacional, na qual os membros se obrigariam a ficar em contacto por permanente intercâmbio de suas opiniões, poderia tomar posição na imprensa, mas sempre sob a responsabilidade estrita dos signatários, e exercer influência significativa e moralmente sadia na resolução de um problema político. Evidentemente, tal comunidade se veria a braços com os mesmos inconvenientes que, nas academias de ciência, provocam tantas vezes pesados malogros. São os riscos inerentes, indissoluvelmente ligados à fraqueza da natureza humana. Apesar do que, não seria preciso tentar uma associação deste gênero? Para mim, julgo-a um dever imperioso."

"Se se chegasse a concretizar semelhante associação intelectual, ela teria de procurar educar sistematicamente as organizações religiosas no sentido de se baterem contra a guerra. Daria força moral a muitas personalidades cuja boa vontade se vê esterilizada por penosa resignação. Creio enfim que uma associação com tais membros, inspirando imenso respeito bem justificado por suas obras intelectuais, daria precioso apoio moral às forças da Sociedade das Nações que realmente consagram suas atividades ao nobre ideal dessa instituição."

"Submeto-lhe estas idéias, ao senhor mais do que a qualquer outro, porque o senhor é menos vulnerável do que qualquer um às quimeras e seu espírito crítico se baseia em um sentimento muito profundo da responsabilidade."

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Sincronicidade

A sincronicidade(1) que culmina num relacionamento não é garantia de algo duradouro ou eterno. É um sinal de que há semelhanças significativas em fatos que ocorreram num curto espaço de tempo e podem ser claramente associados. Para mim, há uma intervenção cósmica que resulta nesses eventos, unindo nossas energias com outras mais sutis e ainda desconhecidas. Mas mesmo com essa espécie de empurrão cósmico, é a razão e o coração que juntos definem nossas escolhas. E quando falamos em escolhas é sempre bom lembrar o outro lado da moeda na frase do filósofo francês Henri Bergson: "Escolher é excluir."

Acredito que todas as pessoas com as quais nos relacionamos entrem em nossas vidas para nos ajudar a despertar nossos potenciais latentes, capacidades que esperam novos estímulos para poderem desabrochar. É evidente que se houver amor e ambas estiverem abertas para um relacionamento, a sincronicidade será a grande facilitadora e deverá ser lembrada de tempos em tempos para que a tolerância preencha os vazios e as diferenças, uma da outra.

Lembro-me de um casal de celebridades que se separou de forma civilizada depois de 15 anos juntos. Um repórter perguntou ao artista porquê eles não eram felizes. Ele respondeu: "E quem disse que não fomos felizes? Foram 15 anos de relacionamento nos quais tivemos muitas alegrias e levarei boas recordações, mas acabou." A resposta parece fria (promocional?) e paradoxal ao conceito que a maioria das pessoas tem sobre o amor. Mas independentemente da sinceridade ou da representação, há algo de muito coerente nessa resposta. Nossas vidas são feitas de encontros e viveres, como bem definiu Victor Hugo com sua visão espiritualista: "A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace."

Momentos bons são vividos e também proporcionados. Momentos que podem ser descritos em prosa ou em verso; romance, história, ficção ou realidade, não importa. O que importa é que foram momentos bem vividos.
A lua cheia iluminava a mata como um sol prateado e projetava sombras difusas sobre a terra umedecida pelo orvalho da noite. Estávamos abraçados e mudos na sacada daquele chalé de madeira rústica da pequena pousada encravada na serra. Sabíamos que qualquer palavra, por mais inspirada que fosse, quebraria a magia da noite. Perguntávamos para nós mesmos se tudo aquilo seria fruto do acaso ou da sincronicidade, mas no fundo não queríamos respostas. Nosso lado racional só faria quebrar a perfeição daquele momento.
"Há momentos... e você chega a esses momentos em que, de repente, o tempo pára e acontece a eternidade." (Dostoievski)


(1)Sincronicidade ou "coincidência significativa" como define Carl Jung, é uma sequência de eventos com significados semelhantes que estão ligados, e esta ligação é percebida (insight) durante ou após um desses acontecimentos sequenciais.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Maioridade penal, mas e o resto?

Tenho que concordar quando dizem que brasileiro não é povo de ação, mas só de reação. A gente só reage diante do fato consumado e reações movidas pela comoção não são eficientes. Há quanto tempo menores de idade matam pessoas como se estivessem esmagando baratas? O primeiro caso foi com o jovem Victor Hugo Deppman, de 19 anos?

Como pai e avô, solidarizo-me com a família desse jovem que foi brutal e covardemente assassinado, mesmo tendo entregue seu celular ao menor sem reagir. A dor da perda de um filho é inimaginável, mesmo para quem tem filhos. No entanto, na minha opinião, justifica-se a comoção, mas não a proposta da reação. Se criminosos agem com frieza, a reação deve ser forte, porém de raciocínio pragmático (termo meio redundante, mas proposital).

Tudo bem... é necessária mesmo a redução da maioridade penal. Coerente porque um jovem de 16 anos poder escolher um presidente da república e não ser considerado responsável por seus atos é um paradoxo. Mas será que apenas reduzir a maioridade penal resolve? Onde esses "novos criminosos" ficarão depois de julgados e condenados? A resposta é: logo-logo voltarão às ruas! Certo estava Lao-Tsé quando disse que "quanto maior o número de leis, tanto maior o número de ladrões."

Não, isto não é um problema só do estado: É UM PROBLEMA PRINCIPALMENTE NOSSO. Por que? Porque somos omissos e aceitamos a forma como utilizam nossos impostos. Porque temos uma das maiores cargas tributárias do Planeta - isto se não for a maior - e também o pior retorno em benefícios para a população, sem contar os assaltos diários e desvios do erário, aceitos passivamente por nós.

O governo federal está gastando nada menos que 28 bilhões de reais, só com a Copa do Mundo de 2014. E essa história de que sairia da iniciativa privada foi o maior papo furado. Mais de 90% desse dinheiro está saindo dos cofres públicos, seja de forma direta ou por meio de financiamentos do BNDES, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, ou seja, NOSSO DINHEIRO. E sabem o que representa esse valor (e olha que nem estou incluindo as Olimpíadas de 2016)?
  • 700 presídios para 1000 detentos cada, ou
  • 57 mil escolas com postos de saúde, ou
  • 1400 hospitais com UTI
E imagine ainda parte desse valor sendo utilizada para acelerar procedimentos judiciais, num país onde se demora tanto para julgar um processo e que a pena acaba prescrevendo? Isto se chama impunidade técnica e que se soma à impunidade gerada por influências políticas e financeiras. Este são os maiores cânceres do país que incentivam a criminalidade.

Quando falo de presídios, não me refiro a direitos humanos não, embora também seja digno e justo tentar recuperar criminosos, nem que seja um a cada mil. Não adianta apenas punir, mas há de se ter garantia do cumprimento da sentença, e em presídios seguros que também ofereçam um mínimo de dignidade humana para os condenados. O problema está na certeza da impunidade que os delituosos têm. 

Já disse o escritor italiano Carlo Dossi:  "O que é a honestidade senão o medo da prisão?"

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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Uma singela reflexão sobre amizade


As verdadeiras amizades requerem doses muito bem medidas de alguns componentes do caráter. É importante deixar bem claro que ao dizer "verdadeira amizade" refiro-me logicamente às minhas verdades.

Como existem várias definições para o termo caráter, vou adotar o da psicologia que diz ser o conjunto de hábitos, virtudes e vícios. Já a personalidade - não menos complexa - é a forma como organizamos esses três componentes e definimos (consciente ou inconscientemente) nossos padrões de conduta diante de determinadas situações.

Deixando agora esse negócio de teorias de lado e para o qual também não tenho competência, vamos ao que interessa. O que é para mim uma verdadeira amizade?

Que tal começar com a falsa amizade, coisa bem diferente da amizade falsa. A falsa amizade é aquela que imaginamos ser verdadeira, mas não resiste às provas que aparecem pela frente. É a amizade Denorex, a que parece, mas não é. A amizade falsa já está definida como tal desde o início, geralmente provocada pelo interesse de uma das partes. Esta última não é muito difícil de perceber se a outra parte estiver atenta ou já for mais vivida.

E quais seriam essas provas de amizade que mencionei.? Não, não é atirar-se debaixo de um trem ou saltar do 10º andar (ou mesmo do primeiro) de um edifício, nem morrer ou ferir-se gravemente pelo amigo. São provas simples, mas porretas, como por exemplo negar a "amizade" (entre aspas) ou afastar-se da pessoa para ficar bem na fita, seja com o chefe ou com uma pessoa influente. Só nesse tipo de prova, não passarão algumas boas dezenas de "amizades". Excluo os bipolares e esquizofrênicos por serem patologias cerebrais.

Outro tipo de falsa amizade é a situacional, ou seja, a que depende da condição sócio-econômica do "amigo". Se você perceber que tem algumas dessas "amizades" que vão e voltam - tipo bumerangue -, perceba também que ela oscila junto com seu status no trabalho, na politica ou na sociedade.

Enrolei muito mas acabei não dizendo o que é para mim, uma amizade verdadeira. Como é um tema discutido há milênios, muito antes de Tales de Mileto no ocidente e da filosofia oriental hindu ou chinesa, não vou discorrer sobre demonstrações e conceitos, mas escolhi algumas frases de grandes pensadores as quais reconheço como profundas e que representam o meu pensamento. E tirem delas suas conclusões sobre o que eu penso ser amizade verdadeira.

  • "É mais vergonhoso desconfiar-se dos amigos do que ser por eles enganado." (François La Rochefoucauld)
  • "A felicidade de um amigo deleita-nos. Enriquece-nos. Não nos tira nada. Caso a amizade sofra com isso, é porque não existe." (Jean Cocteau)
  • "Todo mundo é capaz de sentir os sofrimentos de um amigo. Ver com agrado os seus êxitos exige uma natureza muito delicada." (Oscar Wilde)
  • "Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade." (Confúcio)
  • "Quando o meu amigo está infeliz, vou ao seu encontro; quando está feliz, espero por ele." (Henri Amiel)
  • "A amizade que acaba nunca principiou." (Públio Siro)
  • "A única amizade que vale é a que nasceu sem razão." (Arthur Schendel)
  • "Não tenhas pressa em fazer novos amigos nem em abandonar aqueles que tens." (Sólon)
  • "Entre amigos as frequentes censuras afastam a amizade." (Confúcio)
  • "A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas." (Francis Bacon)
  • "A amizade é simplesmente a amável concordância em todas as questões da vida." (Marcus Cícero)
  • "A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro." (Platão)
  • "A amizade é semelhante a um bom café; uma vez frio, não se aquece sem perder bastante do primeiro sabor." (Immanuel Kant)
  • "Aceita-me tal como eu sou. Só então poderemos descobrir-nos um ao outro." (Federico Fellini)
  • "Aos que me são queridos, deixo as coisas pequenas. As grandes são para todos." (Rabindranath Tagore)


Tempos modernos


Eu não poderia suportar um trabalho rotineiro e sistemático sem a possibilidade de usar a criatividade, nem que ao menos uma vez ao dia. Sem poder trocar idéias com meus clientes e ser estimulado pelos seus problemas, sem captar a essência das suas expectativas.

A culpa do trabalho teatral não é do ser humano que trabalha, mas dos que o avaliam. O dramaturgo Thomas Bernhard e Sigmund Freud resumem como é e como deveria ser trabalhar:

"A maior parte dos trabalhadores e operários julga hoje que basta vestir o uniforme azul, sem fazer seja o que for e faz do trabalho um teatro. Ostenta seu traje enfaticamente durante todo o dia, correndo com ele sem cessar de um lado para o outro e chegando mesmo muitas vezes a suar, mas esse suor é falso, proveniente de trabalho simulado, não real. Mesmo o povo, há muito tempo, já chegou à conclusão de que o trabalho simulado é mais rentável que o realmente feito, ainda que nem de longe seja mais saudável, pelo contrário, só finge trabalho em vez de efetivamente o executar. Vemos os Estados à beira da ruína. Na verdade, hoje só há no mundo atores que do trabalho fazem teatro... não há trabalhadores. Tudo é fingido como no teatro e nada é realmente feito." (Thomas Bernhard)

"Não posso conceber uma vida sem trabalho verdadeiramente agradável; para mim, viver através da imaginação e trabalhar significam a mesma coisa; nada mais me contenta. Seria a receita da felicidade, se não fosse o pensamento horrível de que a produtividade depende totalmente de uma disposição aleatória; que poderemos empreender no transcorrer do dia ou período em que as ideias se recusam a fluir e as palavras não querem alinhar-se? (...) Todo o trabalho sistemático é incompatível com os meus dons e as minhas tendências. Todos os meus estímulos resultam das impressões que recebo quando estou em contato com os meus doentes." (Sigmund Freud)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Só se ama condicionalmente

Por que a maioria das pessoas só consegue amar um outro ser vivo? Não consegue amar o que faz e não consegue amar a humanidade, a vida e a natureza com a mesma intensidade que consegue amar um outro ser.  O ser humano só consegue amar o que pode ser seu, mesmo que diga para si mesmo e para todos que não quer que seja seu. Ama do seu jeito, mas quer ser amado de um jeito diferente daquele que consegue amar.

Sobre o amor físico, escreveu Fernando Pessoa: "O amor quer a posse, mas não sabe o que é posse. Se eu não sou meu, como serei teu, ou tu, minha? Se não possuo o meu próprio ser, como possuirei um ser alheio? Se sou já diferente daquele de quem sou idêntico, como serei idêntico daquele de quem sou diferente? O amor é um misticismo que quer praticar-se, uma impossibilidade que só é sonhada como devendo ser realizada."

Quem ama liberta, mas só quando sabe que vai voltar.

Na verdade, a gente só ama o que pode voltar.

Mesmo que nunca vá.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Arrependimentos e frustrações

"É possível repousar sobre qualquer dor de qualquer desventura, menos sobre o arrependimento. No arrependimento não há descanso nem paz, e por isso é a maior ou a mais amarga de todas as desgraças." (Giacomo Leopardi)

Se você se arrependeu coisas que fez ou deixou de fazer na vida, não adianta vir com aquela historinha de tentar apagar apenas porque as frases de autoajuda mandam a gente fazer. Você não vai conseguir! A memória é como um disco rígido de computador: você pensa que apagou, mas sempre aparece alguém com um programinha que restaura o que foi apagado e a recuperação do arquivo pode ser mais dura que o próprio momento que o gerou. E se formatar o HD, vai também apagar o bom que poderia ser resgatado. O descarte seletivo ainda é a melhor forma de evitar o duplo arrependimento.

Pode haver arrependimento de se ter escolhido ou de não se ter escolhido. É importante saber diferenciar o tipo de frustração. A frustração por não ter escolhido é a mais irreal e ilusória de todas, pois, jamais saberemos o que teria acontecido se tivéssemos feito a escolha e se a fizermos num segundo momento, ela poderá ser ainda mais frustrante que a primeira com o agravante do fator "tempo", caso a decisão não permita uma terceira escolha ou retorno à primeira.

Já a frustração pós-escolha está ligada mais fortemente às nossas expectativas e a fatos REAIS já experimentados, portanto, mais fácil de ser reavaliada por meio de perguntas bem objetivas: "será que eu estava sendo realista com aquilo que esperava?"; "se esperassem o mesmo de mim, será que eu conseguiria preencher as expectativas da(s) outra(s) parte(s)?"; "já que não posso os reajustar valores da outra parte, se eu reajustar os meus à ela, sentirei-me agredido(a)?"

Fácil? Não... não é nada fácil nem simples, mas uma coisa é certa: deixar rolar não ajudará nada. Como disse Confúcio: "Ser ofendido não tem importância nenhuma, a não ser que nos continuemos a lembrar disso."






terça-feira, 19 de março de 2013

Felicidade verdadeira sem humanismo? Impossível!


Viver requer doses de amor, poesia e realidade. Como poderemos ser felizes vivendo apenas de amor e poesia? A realidade incomoda você? Ver pessoas amontoadas em macas pelos corredores dos hospitais, jovens drogados nas ruas, pessoas implorando por comida e um copo d'água são cenas que fazem você infeliz? Melhor permanecer em seu condomínio de muros altos ouvindo Bach? Para você é possível ser feliz fechando os olhos para a realidade?

Não... não estou pedindo para que não sejam positivos e não tenham esperanças de um mundo melhor. Não estou pedindo para que deixem de ler poesia, escutem boa música, curtam frases bonitas, que amem seus amores e seus entes queridos. Não estou pedindo para que não digam boas palavras para os que precisam ouvi-las. Só não podemos deixar que a natureza assuma nossas responsabilidades de cidadãos do mundo. Ela nem pode fazer isto porque ela apenas responde aos estímulos do ser humano incentivado pelo seu livre-arbítrio.

Sim, você é responsável. Responsável por suas escolhas. Não somos responsáveis apenas por aqueles que cativamos. "Todos somos responsáveis de tudo, perante todos", como escreveu Dostoievski.

"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar dos teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano, e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti." (John Donne)



sexta-feira, 15 de março de 2013

Tênis X Frescobol - Rubem Alves


Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele:

Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: "Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?". Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo, eu te amo...". Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada". É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma".

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:

Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: "Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo". A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: "Tens razão, minha querida". A situação está salva e o ódio vai aumentando.

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

(Texto de Rubem Alves)

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quinta-feira, 14 de março de 2013

O Apanhador no Campo de Centeio

"Descobrirás que não és a primeira pessoa a quem o comportamento humano alguma vez perturbou, assustou ou mesmo enojou. Não estás de modo nenhum sozinho nesse ponto, e isso deve servir-te de incitamento e de estímulo. Muitos, muitos homens se sentiram tão perturbados, moralmente e espiritualmente, como tu estás agora. Felizmente, alguns deles deixaram memórias dessa perturbação. Hás-de aprender com eles... se quiseres aprender. Tal como um dia, se tiveres alguma coisa para dar, alguém há-de aprender contigo. É um belo tratado de reciprocidade. E isto não é instrução. É história. É poesia." (Jerome David Salinger em "O Apanhador no Campo de Centeio")

Só poderemos deixar algo para alguém ou para o mundo se abrimos nossas almas. Quem ler, não agirá necessariamente da mesma forma que aquele que deixou seu legado, em prosa ou poesia, não importa. Já disse o poeta Carlos Drummond de Andrade que "ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar." E todas as vidas também são ímpares.

Quem escreve entende; quem lê com humildade e isenção, aprende. Seja com os erros ou com os acertos, não importa... o que importa é o coração aberto. Haverá um momento na vida em que o coração não poderá mais abrir, e se abrir faltará tempo para escrever ou para aprender.