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terça-feira, 23 de abril de 2013

Intelectualidade


Intelectuais! É o título que muitos têm, inclusive do mundo artístico, seja por autodenominação ou concedido pelas sociedades. Eu particularmente não gosto desse termo porque nos transmite uma certa arrogância e superioridade. Além do mais o termo vem do Latim "Intellectus" que a princípio nos induz a crer que a inteligência é fator determinante na condução e na resolução de problemas, inteligência esta adquirida ao longo da vida por meio de estudos e entendimento das explicações (inteligência é a capacidade mental de raciocinar, planejar, resolver problemas, abstrair ideias, compreender ideias, linguagens e aprender).

No entanto, de que vale a intelectualidade sem a inteligência emocional? Você aceitaria uma ordem de valores construída por reconhecidos intelectuais, porém, desprovidos da capacidade de reconhecer os próprios sentimentos e os dos outros? Pessoas que se destacam por terem adquirido mais conhecimento ou por possuírem maior capacidade cognitiva estão automaticamente credenciadas para decidir sobre os destinos da humanidade? Como se enquadraria Hitler, por exemplo, que se emocionava com a Cavalgada das Walkírias de Wagner, tinha uma inteligência superior e paradoxalmente era insensível  às milhões de mortes - inclusive as comandava - nos campos de concentração?

Albert Einstein tinha uma inteligência excepcional, mas era um humanista convicto e até certo ponto ingênuo por acreditar que a essas qualidades eram indissociáveis em todas as pessoas inteligentes como ele. Nesta carta para Sigmund Freud que transcrevo é visível esta sua ingenuidade, acreditaando ser possível unir intelectuais do meio literário, filosófico e científico para exercerem influência sobre países, reduzindo a ganância e os interesses políticos em benefício da humanidade. Einstein era um idealista.

Será que isto seria possível? Eu particularmente não acredito. Os preços de hoje estão muito altos, mas o poder financeiro está nas mãos de poucos. E dentro desse triste cenário, sempre encontraremos alguém disposto a pagar e muitos dispostos a ceder.

Cadê os intelectuais brasileiros que saíam às ruas gritando contra a ditadura e a mordaça nos anos 70? Como eu disse, certamente sempre encontraremos alguém disposto a pagar e muitos dispostos a ceder.


CARTA DE EINSTEIN A SIGMUND FREUD
(extraída do livro Como Vejo o Mundo)

"Muito caro Senhor Freud,"

"Sempre admirei sua paixão para descobrir a verdade. Ela o arrebata acima de tudo. O senhor explica com irresistível clareza o quanto na alma humana os instintos de luta e de aniquilamento estão estreitamente relacionados com os instintos do amor e da afirmação da vida. Ao mesmo tempo, suas exposições rigorosas revelam o desejo profundo e o nobre ideal do homem que quer se libertar completamente da guerra. Por esta profunda paixão se reconhecem todos aqueles que, superando seu tempo e sua nação, foram julgados mestres, espirituais ou morais. Descobrimos o mesmo ideal em Jesus Cristo, em Goethe ou em Kant! Não é bastante significativo ver que estes homens foram reconhecidos universalmente como mestres apesar de terem fracassado em sua vontade de estruturar as relações humanas?"

"Estou persuadido de que os homens excepcionais que ocupam a posição de mestres graças a seus trabalhos (mesmo em círculo bem restrito) participam deste mesmo nobre ideal. Não têm grande influência sobre o mundo político. Em compensação, a sorte das nações depende, ao que parece, inevitavelmente de homens políticos, sem nenhum escrúpulo e sem qualquer senso de responsabilidade. Tais chefes e governos políticos obtêm seu cargo seja pela violência seja por eleições populares. Não podem se apresentar como representantes da parte intelectual e moralmente superior das nações. Quanto à elite intelectual, não exerce influência alguma sobre o destino dos povos. Dispersa demais, não pode nem trabalhar, nem colaborar quando se trata de resolver um problema urgente."

"Sendo assim, não pensa o senhor que uma associação livre de personalidades — garantindo suas capacidades e a sinceridade da vontade por suas ações e criações anteriores — não poderia propor realmente um programa novo? Uma comunidade de estrutura internacional, na qual os membros se obrigariam a ficar em contacto por permanente intercâmbio de suas opiniões, poderia tomar posição na imprensa, mas sempre sob a responsabilidade estrita dos signatários, e exercer influência significativa e moralmente sadia na resolução de um problema político. Evidentemente, tal comunidade se veria a braços com os mesmos inconvenientes que, nas academias de ciência, provocam tantas vezes pesados malogros. São os riscos inerentes, indissoluvelmente ligados à fraqueza da natureza humana. Apesar do que, não seria preciso tentar uma associação deste gênero? Para mim, julgo-a um dever imperioso."

"Se se chegasse a concretizar semelhante associação intelectual, ela teria de procurar educar sistematicamente as organizações religiosas no sentido de se baterem contra a guerra. Daria força moral a muitas personalidades cuja boa vontade se vê esterilizada por penosa resignação. Creio enfim que uma associação com tais membros, inspirando imenso respeito bem justificado por suas obras intelectuais, daria precioso apoio moral às forças da Sociedade das Nações que realmente consagram suas atividades ao nobre ideal dessa instituição."

"Submeto-lhe estas idéias, ao senhor mais do que a qualquer outro, porque o senhor é menos vulnerável do que qualquer um às quimeras e seu espírito crítico se baseia em um sentimento muito profundo da responsabilidade."

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Tempos modernos


Eu não poderia suportar um trabalho rotineiro e sistemático sem a possibilidade de usar a criatividade, nem que ao menos uma vez ao dia. Sem poder trocar idéias com meus clientes e ser estimulado pelos seus problemas, sem captar a essência das suas expectativas.

A culpa do trabalho teatral não é do ser humano que trabalha, mas dos que o avaliam. O dramaturgo Thomas Bernhard e Sigmund Freud resumem como é e como deveria ser trabalhar:

"A maior parte dos trabalhadores e operários julga hoje que basta vestir o uniforme azul, sem fazer seja o que for e faz do trabalho um teatro. Ostenta seu traje enfaticamente durante todo o dia, correndo com ele sem cessar de um lado para o outro e chegando mesmo muitas vezes a suar, mas esse suor é falso, proveniente de trabalho simulado, não real. Mesmo o povo, há muito tempo, já chegou à conclusão de que o trabalho simulado é mais rentável que o realmente feito, ainda que nem de longe seja mais saudável, pelo contrário, só finge trabalho em vez de efetivamente o executar. Vemos os Estados à beira da ruína. Na verdade, hoje só há no mundo atores que do trabalho fazem teatro... não há trabalhadores. Tudo é fingido como no teatro e nada é realmente feito." (Thomas Bernhard)

"Não posso conceber uma vida sem trabalho verdadeiramente agradável; para mim, viver através da imaginação e trabalhar significam a mesma coisa; nada mais me contenta. Seria a receita da felicidade, se não fosse o pensamento horrível de que a produtividade depende totalmente de uma disposição aleatória; que poderemos empreender no transcorrer do dia ou período em que as ideias se recusam a fluir e as palavras não querem alinhar-se? (...) Todo o trabalho sistemático é incompatível com os meus dons e as minhas tendências. Todos os meus estímulos resultam das impressões que recebo quando estou em contato com os meus doentes." (Sigmund Freud)