Já em 1915, o gênio Fernando Pessoa expunha seus pensamentos sobre convicções. A busca pela eterna coerência é a grande estupidez do ser humano. Há uma grande diferença entre o "ser coerente" com seus pensamentos ATUAIS e o "ser coerente" a vida inteira com um só pensamento, uma só verdade para não se contradizer perante os outros. Esta última postura é a que origina o fanatismo religioso, político ou ideológico. Com o tempo, acaba-se buscando — de forma irracional —, uma verdade que não resistiria nem ao seu próprio raciocínio mais criterioso e menos superficial.
”CRÔNICA DA VIDA QUE PASSA” - "SOBRE CONVICÇÕES"
O Jornal, nº 2. Lisboa: 5-4-1915. Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa.
(…)
"Se há fato estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural."
"A coerência, a convicção, a certeza, são além disso demonstrações evidentes — quantas vezes escusadas — de falta de educação. E uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade."
"Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predileções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária."
"Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm, sobretudo quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variarão, como é de entender, consoante esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, e monárquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, e católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos do anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma invenção de louco quando, ante uma solidão de mar, ele não souber de mais do que da Odisseia."
"Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida."
"Quando é que despertaremos para a justa noção de que a política, religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética — a estética dos que ainda a não podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos da sinceridade e coerência tiver acostumado as suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida."
Mostrando postagens com marcador Fernando Pessoa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fernando Pessoa. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 21 de junho de 2016
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
sábado, 4 de maio de 2013
Sonho: realizar é não realizar.
Escreveu Victor Hugo em "Os Miseráveis" que "Julgar-se-ia bem mais corretamente um homem por aquilo que ele sonha do que por aquilo que ele pensa.”
O sonho vem da essência pura do homem, impulsionando-o a conquistar o que ele imagina ser felicidade. Normalmente esse sonho é simples e objetivo, mas vai ganhando complexidade à medida que começa a ser questionado pelo próprio idealizador, submetendo a ideia original a determinados valores adquiridos muito tempo depois desse sonho ter sido criado. E aos poucos o homem vai se afastando do sonho concebido, criando barreiras que o impedem de realizá-lo.
Li um artigo da professora Monique Faure onde num trecho ela diz: "Como ratinhos colocados dentro de um labirinto, somos caminhantes no mundo, não para achar o final dele, mas para sermos testados na capacidade de formular perguntas validas a desenvolver uma boa metodologia para percorrê-lo."
Mas qual a medida certa? Passaremos a vida inteira questionando nosso sonho porque esta é nossa missão evolutiva? Ou podemos realizar parte dele para podermos respirar, sendo menos exigentes com esse sonho e com nós mesmos? Podemos retomar os questionamentos num outro momento do nosso aprendizado?
Na verdade, os pensamentos não revelam o ser humano que existe por trás deles ou a verdadeira essência de sua alma. Vez ou outra, ele tem que resgatar seu sonho original para poder agir e realizar parte dele através de sua intuição. Só a ação realiza e elimina boa parte dos questionamentos transformando-os em certezas. Em seguida, voltamos a esquecê-lo e virão novamente as perguntas ainda não respondidas para que o sonho se estabeleça racionalmente, sem no entanto realizá-lo integralmente. Como no paradoxo de Fernando Pessoa: "Para realizar um sonho é preciso esquecê-lo, distrair dele a atenção. Por isso realizar é não realizar."
Portanto, não passe a vida inteira questionando sem parar para respirar. Volte atrás se preciso for, refaça as pausas perdidas e os momentos de alegria que foram suprimidos pelo excesso de questionamentos.
Realize, mesmo sem realizar!
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Só se ama condicionalmente
Por que a maioria das pessoas só consegue amar um outro ser vivo? Não consegue amar o que faz e não consegue amar a humanidade, a vida e a natureza com a mesma intensidade que consegue amar um outro ser. O ser humano só consegue amar o que pode ser seu, mesmo que diga para si mesmo e para todos que não quer que seja seu. Ama do seu jeito, mas quer ser amado de um jeito diferente daquele que consegue amar.
Sobre o amor físico, escreveu Fernando Pessoa: "O amor quer a posse, mas não sabe o que é posse. Se eu não sou meu, como serei teu, ou tu, minha? Se não possuo o meu próprio ser, como possuirei um ser alheio? Se sou já diferente daquele de quem sou idêntico, como serei idêntico daquele de quem sou diferente? O amor é um misticismo que quer praticar-se, uma impossibilidade que só é sonhada como devendo ser realizada."
Quem ama liberta, mas só quando sabe que vai voltar.
Na verdade, a gente só ama o que pode voltar.
Mesmo que nunca vá.
Sobre o amor físico, escreveu Fernando Pessoa: "O amor quer a posse, mas não sabe o que é posse. Se eu não sou meu, como serei teu, ou tu, minha? Se não possuo o meu próprio ser, como possuirei um ser alheio? Se sou já diferente daquele de quem sou idêntico, como serei idêntico daquele de quem sou diferente? O amor é um misticismo que quer praticar-se, uma impossibilidade que só é sonhada como devendo ser realizada."
Quem ama liberta, mas só quando sabe que vai voltar.
Na verdade, a gente só ama o que pode voltar.
Mesmo que nunca vá.
Assinar:
Postagens (Atom)



