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segunda-feira, 22 de março de 2021

PÓ

Você pode não acreditar num deus, em reencarnação, em umbral, em céu e inferno, achando que nascemos e tudo acaba aqui ao morrermos e virarmos pó. Nada pode ser provado, porém, nada também pode ser negado, mas tudo depende de fé. Fé significa confiança, certeza ou firmeza de ideia. E essa fé todos têm, seja para acreditar ou para negar.

Se você acredita que tudo acaba aqui, está enganado. Acaba para você, mas seus exemplos permanecerão para sempre na história de sua vida, lembranças que serão herdadas por seus filhos, netos e descendentes, mesmo contra a sua vontade.

Em resumo, você pode não ser fisicamente eterno, mas a energia de suas ideias e sua história permanecerão, mesmo contra a sua vontade; mesmo que manifestado em vida seu desejo de nunca mais ser lembrado. Afinal, ossos ou cinzas não interagem com ninguém. Não negam, não se revoltam, não reivindicam e não interferem em nada. Ficarão ali estáticos e inertes ou transformados em cinzas espalhadas pelo vento.

Sua história só poderá ser mudada em vida. Depois de morto, seu fanatismo, seu negacionismo, sua insensibilidade e indiferença serão apenas lembranças amargas que, mesmo à sua revelia, se eternizarão no tempo.

Fique tranquilo. Ausente, outros sentirão vergonha por você.

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"Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: Quanto é que ele deixou? - O advogado respondeu: Deixou tudo. - Ninguém é mais pobre do que os mortos." (Antonio Lobo Antunes)

sábado, 28 de março de 2020

A TAL DA HIDROXICLOROQUINA

Como tem um monte de gente palpitando como cientista, médico e economista, sinto-me também no direito de dar os meus pitacos.  O errado não está em dar palpites, mas sim em recomendar ou afirmar. Palpites fazem as pessoas pensar, inclusive que não passo de um grande imbecil. 😂

Alguns jornalistas (sempre os mesmos "alguns") estão caindo em cima do Bolsonaro porque ele (presidente-médico-cientista-economista-sociólogo) põe fé na tal da hidroxicloroquina como salvadora da pandemia.

- Libera geral! A cura para os infectados pelo coronavírus foi descoberta!

Calma, "PR", como o chama Sérgio Moro no Twitter pra economizar caracteres. Não há comprovação de que o medicamento cura, mas sim indícios ainda não comprovados. Além do mais a droga não previne a doença e muito menos se trata de vacina.

Por outro lado, esses "alguns jornalistas" radicalizam e metem o pau, dizendo que a droga não deve ser utilizada de jeito nenhum porque não há comprovação científica de sua eficácia, que Bolsonaro é louco e irresponsável.

Nem ao céu nem à Terra. Bolsonaro precisa ser menos impulsivo, "alguns jornalistas" menos militantes e ambos menos vaidosos com coisa séria.

Relaxar o isolamento pensando na cura pela hidroxicloroquina é irresponsabilidade, mas por que não utilizá-la como um dos recursos para a cura na inexistência de outro? Pergunto a esses "alguns jornalistas":

Qual o efeito colateral pior do que a morte?

sexta-feira, 27 de março de 2020

SOBRE O LADO SUTIL DA PANDEMIA



Há uma frase bem conhecida que alguns atribuem pertencer à síntese do pensamento de Russeau e outros a Victor Hugo em "Os Miseráveis":

"De que adianta ser rico numa terra de miseráveis?".

Essa pandemia serviu para muitos refazerem sua ordem de valores. Se eu tenho ou não dinheiro, fujo pra onde? Se eu fiquei imune ao coronavírus sem saber, pra onde eu for o levarei se ele estiver no período de incubação. Vou me safar porque meu sistema imunológico me protegeu. Estou me sentindo bem, mas contaminarei idosos e outros do grupo de risco.

Preciso trabalhar como empregado ou abrir minha loja, minha empresa ou indústria porque estou ficando sem dinheiro. No entanto se eu fizer isso, poderei ter que gastar tudo aquilo que eu ganhar num hospital, seja comigo mesmo ou com alguém da família que for contaminado pelo vírus.

Num mundo cada vez mais desigual em que o dinheiro está nas mãos de poucos, esses poucos não se preocupam muito com os que têm menos do que eles. Se morrerem serão apenas percentuais. Morrem 5%, mas ainda restarão outros 95% para consumir e " fazer girar a economia".

O ser humano hoje é visto assim, em percentuais, e a vida em probabilidades de se morrer ou viver. Os economistas e os investidores das bolsas querem salvar a economia; os cientistas, médicos e humanistas querem salvar vidas. E qual o ponto de equilíbrio? Quantas mortes poderíamos chamar de "um número razoável"?

A reflexão está no poema "A Meditação XVII" de John Donne:

Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo. 
Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; 
A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.