segunda-feira, 29 de julho de 2013

Simplicidade é sentir não precisar

Cada dia que passa eu me convenço mais de que a simplicidade é o caminho mais curto para a felicidade, ou de prolongar seus momentos. Mas não basta se desfazer de bens ou deixar de consumir. O "não precisar ter" é um sentimento individual que se adquire ao longo da existência, conforme as experiências de vida. Ninguém precisa ser convencido ou impulsionado por dogmas, filosofias ou religiões. É preciso não precisar; é preciso sentir não precisar. Começa-se percebendo que assumimos muitas responsabilidades que não deveríamos ter, simplesmente porque as criamos e nos convencemos de que são responsabilidades nossas. Temos de estar cientes de que seremos cobrados pela família e pela sociedade por nossa aparente "irresponsabilidade", mas se tivermos certeza desses valores que adquirimos, essas cobranças não representarão nenhum risco às nossas certezas. Isto não é uma opção, mas um ajuste sereno e consciente em nossa ordem de valores.
"Põe de lado os estudos e não conhecerás o sofrimento. Põe de lado a erudição, afasta a sabedoria e o povo será cem vezes mais beneficiado. Põe de lado a benevolência e afasta a retidão e o povo te pagará com dever filial e amor fraternal. Põe de lado o artifício, afasta o lucro e não haverá mais bandoleiros e ladrões. Mantém-te na simplicidade, restringe o egoísmo e refreia os desejos." (Lao-Tse)
Recomendo lerem a matéria "Conheça homens e mulheres que optaram por uma vida mais simples"

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domingo, 28 de julho de 2013

O conservadorismo dos religiosos, dos agnósticos e dos ateus.

Falam do conservadorismo da igreja em determinados assuntos, mas qual religião não é conservadora se pensarmos que TODAS se mantém fiéis às suas escrituras dos séculos ou milênios passados? Qual não mantém a imagem de um Deus sentado num trono com o dedo em riste apontado para os pecadores? Que só perdoa quando Lhe é dirigido um pedido de perdão, mesmo que não seja sincero? Como se aceita que um Deus, exemplo de tolerância e bondade, fraterno e piedoso, fechando o Mar Morto sobre os egípcios, matando todos os cavalarianos do seu exército? Por que nunca foi crime matar os "inimigos de Israel"? Por que se usa até hoje a frase "temer a Deus" ao invés da "respeitar a Deus"?" Metáforas e parábolas permitem adequações para os novos tempos. Não se conserva o espírito conservando palavras e interpretações milenares como prova de respeito. A maior prova de respeito a Deus é fazer com que Ele ou o seu significado sejam claramente entendidos. Ao contrário do que muitos pensam, as religiões não são universalmente monoteístas, mas monoteístas apenas dentro de suas próprias religiões, com seu próprio Deus.

Portanto, os humanos ainda são politeístas, como os antigos egípcios antes de Amenófis IV ou Aquenaton. A grande prova disso é que as palavras tolerância, fraternidade e humanismo, embora tenham significados únicos e sejam pregadas por TODAS as religiões, assumem significados diferentes quando são pregadas pela concorrência. Em resumo, paradoxalmente, só o meu Deus é o verdadeiro, só a minha religião tem a verdade; só minha religião pode ser fraterna e humanista. E assim caminha a humanidade, cada vez mais egoísta, mais dividida em castas religiosas e menos universalista.

Não sou católico, sou agnóstico. Ao contrário do que muitos pensam, agnóstico não é sinônimo de ateu. O agnóstico acredita numa energia ou força maior, amórfica e despersonificada. No entanto, mesmo agnóstico, entendi perfeitamente a mensagem do Papa Francisco e a recebi com alegria. Não me preocupa o fato de representar a Igreja Católica, mas sim o que ele quis dizer. Se ele "vendeu" a imagem da Igreja, pouco me importa porque continuarei agnóstico e sem religião. Mas tenho que reconhecer que ele discursou para 110 milhões de brasileiros, 57% da população. Como ignorar a importância desses milhões? Como ignorar a influência de palavras encorajadoras, fraternas e humanistas para mais da metade da população brasileira? Como ignorar a convocação de jovens para derrubarem barreiras de intolerância e ódio e "construírem mundo novo" ou que os jovens "muitas vezes se desiludem com notícias que falam da corrupção...". Pede para que "nunca desanimem, nunca percam a confiança. Não deixem que se apague a esperança, a realidade pode mudar. O homem podem mudar. Procurem ser vocês os primeiros a procurar o bem”.

Eu ouvi o coração do Francisco. Um homem que representa uma religião ainda muito conservadora, mas que tenta fazer o seu papel, inclusive o de melhorar a imagem da própria igreja por meio de exemplos pessoais e ações político-administrativas que buscam deixá-la mais coerente com aquilo que prega. Falta muito, sei que falta. Mas já é um começo e iremos acompanhar.

Vá com Deus, irmão Franciscano, e obrigado! Que venham líderes de TODAS as outras religiões pregando amor e fraternidade em linguagem ecumênica, sem deslizes. Que não aceitem fazer parte de tramas políticas e que não se deixem ser usados, mantendo-se firmes em seu propósito de levar um pouco mais de espiritualidade para um mundo cada vez mais egoísta e materialista. A Casa do PAE não só tem várias moradas, como vários caminhos do bem. Como disse Mahatma Gandhi, "as verdades diferentes na aparência são como inúmeras folhas que parecem diferentes e estão na mesma árvore."

E para as religiões, a frase do escritor e poeta irlandês Jonathan Swift:
"Nós temos religiões suficientes para nos odiarmos, mas não a que baste para nos amarmos uns aos outros."

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A inequação da felicidade

Após algumas tentativas infrutíferas, algumas pessoas desistem da felicidade, passando a admiti-la apenas como um evento isolado, não esperado ou aleatório, que dependeria mais de circunstâncias do que de vontade própria. Eu me refiro à felicidade não pontual e não àquela do bem ou do objetivo conquistado que chamamos de alegria. Quando o poeta Carlos Drummond de Andrade disse que "Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade", certamente não quis dizer que só um bobo pode ser feliz, mas que a felicidade é um sentimento que envolve tantas variáveis de plenitude que é impossível relacioná-las e atingi-las uma a uma para só depois então ser feliz. Em resumo a felicidade não permite engenharia reversa ou análise inversa. Felicidade sente-se no momento.

Quem é mais vivido pode perceber isto mais claramente ao rever o seu passado. Notará que em seus melhores momentos de felicidade, certos quesitos que um dia estabeleceu ainda não haviam sido conquistados e, mesmo assim, sentia-se feliz. Por mais que tentasse não conseguiria montar algum tipo de equação com as variáveis daqueles momentos, pois, além daquele emprego ou atividade, além da vida a dois, além do lugar, das pessoas e dos amigos, haviam elementos imponderáveis do sentimento, como as intensidades do desejo, da vontade e da esperança. A felicidade só pode ser maior, menor ou igual à minha própria felicidade.

Na verdade, além de desejarmos muito, não nos preparamos adequadamente nem para o mínimo que desejamos. Não somos vítimas de nada além dos nossos próprios desejos e dos nossos conceitos de felicidade. Vítimas das nossas maiores e menores expectativas. Vitimas de nós mesmos.

"Se analisares a ti mesmo sem parcialidade, serás forçado a admitir que aqueles bens que tens por desejáveis e preciosos te serão inúteis se previamente não te preparares e não isolares o condicionalismo que o acompanha." (Sêneca)

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domingo, 21 de julho de 2013

Direita ou esquerda? Filosofia ou pragmatismo?

Não é uma crítica, mas um desafio aos antigos pensamentos sobre ideologias, direita e esquerda. Vejo que muitos ainda se mantém dentro das visões simplistas de direita e esquerda; de socialismo, de comunismo e outros "ismos". Eu acho que hoje não há mais espaço para o radicalismo se quisermos um país mais igualitário, ou seja, sejamos menos simplistas ou filosóficos e mais pragmáticos. A pergunta não é se devemos estatizar ou privatizar, mas sim O QUE estatizar ou privatizar. Já está mais do que provado que os governos não são bons administradores de nada que vise lucros. Por outro lado, o mundo já se cansou da destruição promovida pelo capitalismo selvagem (digo do selvagem e não do capitalismo em si), o do lucro a qualquer preço social. Os ordeiros e pacíficos que estão saindo às ruas são pragmáticos e não querem nem saber de direitas ou esquerdas. O ser humano e a seriedade no trato do dinheiro público vêm antes da ideologia.

Para quem tem a mente aberta, recomendo a leitura desse texto de Bolívar Lamounier. A matéria saiu numa revista Exame de 1996, mas é atualíssima.

Direita e esquerda
As ideologias ainda têm a sua serventia. Mas já não há lugar para a utopia
(Bolívar Lamounier)

Seja por hábito, seja por razões mais ponderáveis, parece que estamos cada vez mais retornando aos termos esquerda e direita para designar políticos e partidos. Quando pensamos na sucessão, falamos em Maluf pela direita, Fernando Henrique pelo centro, Lula pela esquerda. Os partidos de esquerda de tempo em tempo cogitam se reunir num grande partido... de esquerda. Mas afinal: as ideologias morreram ou não morreram? Direita e esquerda ainda são conceitos válidos, após a queda do Muro de Berlim?

O nunca assaz louvado Norberto Bobbio, grande filósofo italiano, escreveu recentemente que os conceitos de direita e esquerda permanecerão válidos enquanto as sociedades humanas continuarem dilaceradas por conflitos pela redistribuição da renda e da riqueza; ou seja, terão vida longa, se é que não são eternos. Já em 1964, 25 anos antes de Berlim, o antropólogo americano Clifford Geertz havia também escrito um ensaio extraordinário contra a tese do "fim das ideologias". Em síntese, ele dizia que é errado ver as ideologias somente pelo lado negativo, isto é, como visões simplistas, fanatismos ou tapas que os ignorantes utilizam para se sentir confortáveis com sua própria obtusidade. Simplificar elas simplificam, mas o importante, segundo Geertz, é que elas também funcionam como "mapas cognitivos", ou seja, como conjuntos estruturados de interpretações e símbolos sem os quais nenhuma coletividade poderia compreender o seu próprio ambiente, a sua história, os problemas que enfrenta e por que deve ou não deve se contrapor a outras coletividades. Nesse sentido, as ideologias não morrem porque sempre haverá milhões de indivíduos precisando entender as diferenças sociais e a sua própria identidade, isto é, a que parcela pertencem e o que os distingue de outras parcelas.

E aí, como ficamos? O pensar ideológico é bom ou ruim? As ideologias morreram ou não morreram? Não é uma questão simples. Se tivesse de optar, confesso que ficaria um pouco com a tese de Geertz e bem menos com a de Bobbio. Entendidas como referenciais coletivos, as ideologias provavelmente continuarão existindo, e não são necessariamente como um fenômeno negativo, visto que expressam a pluralidade dos interesses e valores da sociedade, e servem como orientação para os diferentes grupos. Já a distinção entre direita e esquerda parece ter perdido praticamente todo o sentido que carregou desde a sua origem (a Revolução Francesa), passando pela formulação das grandes utopias socialistas, durante o século XIX, até encontrar a sua hora da verdade, com o recente colapso das economias planejadas do Leste Europeu.

Claro, não posso fazer uma afirmação desse tamanho sem oferecer um argumentozinho sequer que a sustente. Meu argumento é que os conceitos de esquerda e direita eram inseparáveis de certa pretensão de conhecer o futuro. Este é que é o busílis. O que desabou junto com o Muro de Berlim não foi apenas o modelo de socialismo engendrado pela revolução soviética de 1917 ou apenas o intervencionismo econômico exacerbado que inventamos na América Latina. Foi sobretudo a filosofia da história subjacente à distinção entre esquerda e direita, isto é, a suposição de que as pessoas (ou os partidos e movimentos políticos) poderiam ser divididas em 2 categorias nitidamente separadas. De um lado, os "progressistas": aqueles que supostamente detinham o conhecimento do futuro; de outro, os "reacionários": aqueles que não tinham acesso a esse conhecimento. De um lado, os que trabalhavam ativamente para apressar o advento de um futuro melhor; de outro, os que não podiam fazer isso, por ignorância ou por interesse. Assim entendida, não há dúvida de que a distinção entre esquerda e direita se tornou vazia, ou francamente mistificadora.

Como fica, então, a sugestão de Geertz, de que certos "mapas cognitivos" sempre existirão e podem ser até muito úteis? Esta seria uma pergunta-chave, se resolvêssemos fazer uma reforma partidária de verdade. Como os termos esquerda e direita hoje dizem muito pouco, quem quiser comunicar efetivamente uma visão do mundo ou uma opção programática terá de ser mais específico: diga, por exemplo, qual deve ser o papel do Estado na economia, fale em preferências e prioridades, seja claro sobre os recursos com os quais pretende financiar os seus projetos.

Use e abuse do direito de especular sobre os destinos do mundo, para consumo próprio, mas seja claro ao exprimir suas opções políticas, se tiver o propósito de convencer os seus concidadãos. Se acredita que o Estado deve conservar um papel empresarial ativo, diga isso; se acha que não deve, diga como devemos fazer para que o mercado funcione de maneira realmente competitiva e traga mais benefícios que malefícios no tocante à pobreza e à distribuição da renda. Se quiser retomar a idéia de socialismo, diga se gostaria de implantá-lo em conjunto com a democracia representativa, ou com alguma forma ainda não inventada de democracia direta, ou sem democracia nenhuma. E assim por diante, caso a sua preferência seja a social-democracia, o social-liberalismo, o liberalismo tout court ou qualquer outro desses adoráveis rótulos. Mas deixe o longuíssimo prazo para os filósofos do século XIX e para os escritores de ficção científica.

sábado, 20 de julho de 2013

O PT quer negociar o que com quem?

Li na UOL: "Para o deputado federal André Vargas (PT-SP), primeiro vice-presidente da Câmara, a relação do governo com o Congresso deverá dominar boa parte das discussões, assim como os desafios do Planalto para dialogar com os movimentos sociais e angariar apoio em torno do pactos propostos pela presidente nas áreas de educação, saúde, mobilidade urbana, reforma política e responsabilidade fiscal."

Essa insistência do PT e do governo de tentar vasculhar e buscar líderes entre o povo das ruas para elegê-los como representantes e poderem dialogar - quando na verdade querem mesmo é barganhar, comprar e aliciar como fizeram com a UNE, alguns sindicatos e outros grupos vendidos - mostra que a ficha deles não caiu MESMO. Em primeiro lugar, deputado André Vargas, não são MOVIMENTOS SOCIAIS que estão nas ruas, mas sim, MOVIMENTO SOCIAL DO INCONSCIENTE COLETIVO. As reivindicações não são setoriais, mas representam anseios gerais do povo brasileiro e vocês sabem muito bem quais são eles, além dos de mais segurança, educação e saúde.

O problema maior que envolve TODAS essas reivindicações é a CORRUPÇÃO em todas as suas nuances. Copa do Mundo, desvio de verbas públicas, favorecimentos, enriquecimento ilícito, mensalões, cuecas e por aí vai.

Mesmo que encontrassem um grupo que fosse aceito pela grande maioria desses que estão saindo às ruas num movimento pacífico - infiltrados não contam -, o que vocês ofereceriam para negociar? Honestidade gradativa com prazo para atingir sua plenitude em 2020? Metas para a redução da CORRUPÇÃO como as que o governo estabelece para a inflação, ano a ano? Limites de tolerância negociados?

O que o povo está pedindo é TOLERÂNCIA ZERO e HONESTIDADE JÁ. E nada de enterrar o passado e ZERAR a dívida. Todos os casos devem ser punidos e só se admite zerar o HOJE EM DIANTE, mesmo assim isto fica na dependência de vocês políticos. No entanto esse dia zerado está longe de acontecer, pois, cada dia que abrimos os jornais aparece um fato novo da velha e já arraigada corrupção no meio político. Só muda o jeitão da doença, mas o câncer caminha firme em sua metástase progressiva, a despeito da quimioterapia das ruas.

E como essa maioria consciente das ruas e das redes sociais cresce exponencialmente, chegará o momento em que ela mesmo dará conta dos bandidos e infiltrados que tentam descaracterizá-la, mesmo porque embora não pareça, ainda há mais cidadãos de bem no Brasil do que bandidos como a maioria dos políticos.

domingo, 14 de julho de 2013

Medo da sombra do meu eu

"Como contato praticamente permanente com a lógica surgiu-me um sentimento que nunca antes eu experimentara: o medo de viver, o medo de respirar. Com urgência preciso lutar porque esse medo me amarra mais do que o medo da morte, é um crime contra mim mesmo. Estou com saudade de meu anterior clima de aventura e minha estimulante inquietação. Acho que ainda não caí na monotonia de viver."

(...)

"Quem sabe — quem sabe se o que é certo está exatamente no erro? Se é verdade, quantos "erros" frutíferos eu perdi. Isso contraria tudo o que aprendi e tudo o que a sociedade humana me ensinou. Por medo do erro, eu me abastardei. Para evitar o erro, eu nada de grande ousei. Eu, de pé na rua, faço sombra no chão. A minha sombra é o meu avesso do "certo", a minha sombra é o meu erro — e esta sombra-erro me pertence, só eu a possuo em mim, eu sou a única pessoa no mundo que calhou ser eu. Tem pois o direito adquirido de ser eu? E quero agora meus erros de volta. Reivindico-os."

(Clarice Lispector - Um Sopro de Vida)

COMENTÁRIO

A aventura, sem dúvida, reduz o medo ou ao menos o esconde, mas é impossível se estabelecer limites para a aventura. Ou se parte pra ela de vez ou se permanece no medo, pois a busca por limites é que alimenta a falta de coragem. Clarice fala em lutar contra o que ela chama de crime contra ela mesma. Fala da saudade da coragem de se aventurar. Uma espécie de moto perpétuo do pensamento, em que se tem saudade de sentir vontade. Mas é a recusa de cair na monotonia do viver e de não aceitar essa falsa sensação de segurança na qual a mesmice nos induz a acreditar que nos dá coragem de lutar para evitar esse crime contra nós mesmos. O de nos anularmos.

Por outro lado, a aventura nos expõe ao erro. Mas "quem sabe se o que é certo está exatamente no erro?" O que seria de nós sem os erros que modelam a nossa alma? Quem evita o erro não se aventura e nem ousa; quem não ousa, não erra. E só há aventura lá fora, na luz direta ou translúcida do Sol. "Eu, de pé na rua, faço sombra no chão. A minha sombra é o meu avesso do 'certo', a minha sombra é o meu erro"

Sou um ser único e nenhuma outra sombra pode representar os meus erros; nenhuma outra sombra é igual à minha. Contém os erros que me pertencem e me acompanham na luz do sol, mas que antes se camuflavam na escuridão do meu refúgio. Eu me aventuro e saio da clausura. "E quero agora meus erros de volta. Reivindico-os."

A vitória nas urnas em 2014 será inglória

Nascimento do novo homem pós-guerra - Salvador Dali
Caiu a ficha? Não, a ficha ainda não caiu para os políticos que estão no poder e muito menos para os candidatos de 2014. Os milhões que saíram às ruas desestabilizaram o governo, contaminaram outros cidadãos menos informados da política e se não houvesse uma resposta, pequena que fosse (e foi), este movimento continuaria crescendo assustadoramente aos olhos da nação e do mundo. Não, não é exagero e só considera exagero os acomodados e os políticos que, em pânico, rezaram e rezam para que o brasileiro volte àquela sua condição de esquecido e omisso escrita em quase todas as passagens da história do Brasil, desde os tempos do império. Os andarilhos sem rosto e de causas genéricas voltaram pra casa, mas continuam mobilizados nas redes sociais. Como bem disseram dois professores de ética e direito constitucional numa entrevista na Globo News, a partir dessa primeira manifestação, se esses milhões se irritarem de novo, em algumas horas estarão nas ruas outra vez. E como os políticos já queimaram boa parte da munição estocada (arquivamento da PEC-37, proibição de parentes como suplentes e enterro do plebiscito), desta vez o pânico entre eles será ainda maior.

Dentro desse quadro de crescimento das minorias conscientes, quem ganhar em 2014 levará a taça, mas não a garantia de quatro anos de sossego. Mesmo que o(a) candidato(a) ganhe com 70% dos votos, essa minoria apartidária em franco desenvolvimento continuará aumentando suas fileiras, não só nesses 70 como nos outros 30%. O povo (demo) de minoria consciente é que garantirá a estabilidade do governo (kracia). A democracia desses novos tempos será o governo da maioria quantitativa que vota, garantido por essa minoria qualitativa crescente que sai às ruas. Os discursos de palanque poderão até continuar decisivos numa eleição, mas serão ineficazes durante os quatro anos de governo dos eleitos.

O momento é propício para candidatos ficha-limpa e que representem o desejo de renovação dos eleitores, mas esses candidatos até agora, a pouco mais de um ano das eleições, ainda não apareceram. A chance desses políticos que até agora foram apresentados como candidatos convencerem essa minoria qualitativa é muito pequena porque todos eles, de um jeito ou de outro, estão marcados, seja pela ficha suja ou pelos processos que têm, mesmo que ainda não julgados. Os políticos, além de deverem muito em seus atuais mandatos, estão longe de oferecer novas esperanças para 2014. O que estão nos oferecendo é a mesmice travestida de novo.

E aproveitando esse quadro renascentista de contrapartida surreal, coloco algumas pulgas atrás das orelhas desses políticos e analistas que se mantém dentro de suas linhas políticas tradicionalmente históricas:
E se essa minoria qualitativa crescente e apartidária resolver sair às ruas no transcorrer da campanha eleitoral?
Ein?


terça-feira, 9 de julho de 2013

Spy x Spy - a vida imitando os quadrinhos

Spy vs. Spy é uma série de quadrinhos criada em 1961 por Antonio Prohias, um cubano radicado nos Estados Unidos. Publicada na revista Mad. A série satiriza a espionagem da Guerra Fria e depois os filmes e séries do gênero, populares a partir da década de 1960. Os personagens são dois espiões idênticos, apenas com a diferença de que um se veste todo de preto e o outro todo de branco, e que vivem um tentando "eliminar" o outro. Não existe qualquer diferença duradoura entre eles, alternando nas tiras o que se dá bem e o que se dá mal. Numa história um deles pode parecer mais esperto, para na seguinte as características se inverterem. O humor nas tiras é centrado nos elaborados esquemas usados por um para eliminar o outro. É a luta do bem contra o mal, só que nenhum dos dois se dá bem.

A única coisa que sempre superou, supera e sempre vai superar o desejo e as ações de espionagem entre nações é a hipocrisia dos que as promovem. Os quadrinhos do cubano Antonio Prohias já mostravam essa realidade na década de 60. Quem inventou a espionagem? Os americanos, os russos, os alemães, os ingleses, franceses, israelenses ou os chineses? Alguém ainda acredita no velhinho anti-capitalista de barba branca que se intromete na data do nascimento de Cristo pra levar presentes de graça às crianças pobres do mundo?

Essa história de espionagem (interna e internacional) tem várias facetas e só os hipócritas acreditam que entre a (i)legalidade, as razões e a moral, prevaleça apenas uma delas. São aqueles que tentam provar só haver dois personagens nessa trama: o bandido e o mocinho ou o assassino e a vítima. O hipócrita, invariavelmente é dualista, mas o interessante é que ele sempre reserva pra ele o papel de bonzinho nessa luta eterna entre o bem e o mal. Essa revolta exagerada do governo brasileiro tem apenas uma finalidade:  desviar o foco do movimento das ruas dos PROBLEMAS REAIS brasileiros.

Não que eu considere que seja correto espionar, ao contrário, a privacidade é um direito de todo cidadão e o estado tem o dever de garanti-la e mantê-la. Seja um simples cidadão ou um país soberano, ambos têm o direito de espernear, gritar e exigir as mais duras penas da lei para o espião. Os motivos para que o espião defenda a legitimidade de suas ações às escuras só valerão para os interessados e sempre serão questionáveis. Como na frase de Romain Rolland: "Ó liberdade, quantos crimes se praticam em teu nome!"

No entanto, questiona-se a hipocrisia do governo PT e PCdoB - principalmente desse último - que sempre se autodenominou democrata, a favor dos direitos à liberdade de expressão e de imprensa, da igualdade religiosa de direitos para brancos e afrodescendentes, para gays, lésbicas e todas as nuances presentes nas sociedades pluralistas e modernas, mostra contradições mastodonticamente maiores que suas pretensões igualitárias. Apóia incondicionalmente o Irã e seus crimes contra a mulher; a China e seus controles internos sistemáticos contra a liberdade; vai a favor de Cuba e contra Yoani Sánchez, nunca tendo se manifestado contra essas ações que diz lutar a favor no Brasil. É hipocrisia ou não é? Como funcionam os serviços de inteligência brasileiros? Esperam pacientemente a assinatura do juiz antes de bisbilhotarem a vida dos cidadãos? Quais os grandões que já foram penalizados no Brasil por quebra de sigilo e privacidade, como no caso do caseiro Francenildo na era Palocci e outros tantos, incluindo os dos falsos dossiês? Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço?

Acontece que o governo brasileiro nos trata e nos enxerga como ele gostaria que fôssemos: IGNORANTES, PARTIDÁRIOS INCONDICIONAIS, CEGOS, SURDOS e MUDOS, e não como realmente somos. Esse movimento de milhões de apartidários que saíram às ruas e que representam o inconsciente coletivo de uma nação inteira, cansada e desiludida com o governo e com os políticos, continua sendo visto como algo manipulável e que será esquecido. Estão esperando o que? Uma guerra civil dolorosa para todos em prol de uma ideologia MORTA, que já fez muitas vítimas e que ninguém mais aceita, à exceção dos saudosistas e teimosos?


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Adeus às ilusões ou até breve?

Muitos dizem saber diferenciar a realidade da ilusão, mas eu não acredito nisso. Podemos até tentar prever uma desilusão em termos de probabilidades, mas só se descobre mesmo uma ilusão depois de ter acontecido. Na maioria das vezes a esperança nos deixa cegos. Assim como um texto que escrevemos, quanto mais perfeitos nós o considerarmos, mais passaremos por cima dos nossos erros de gramática e concordância. A diferença é que para gramática e concordância existem regras, e pra resolver o problema é só contratar um revisor. Mas como revisar esperanças avaliando erros do passado que podem muito bem não repetir ou então ouvindo argumentos ou conselhos de outras pessoas? Até que ponto uma outra pessoa pode ser empática conosco (colocar-se em nosso lugar), com as mesmas esperanças e imaginações que nos alimentam?

Como disse Marquês de Maricá, "sem as ilusões da nossa imaginação, o capital da felicidade humana seria muito pequeno e limitado", ou seja, que graça teria viver uma vida inteira aplicando nosso capital da felicidade em ações de baixa rentabilidade, sem arriscar nadinha em atitudes mais desafiadoras?

Dentro desse pensamento eu ousaria discordar em parte desse, como sempre, lindo pensamento de Fernando Pessoa:
"Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstratas, e as abstratas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde."
Será que ele não quis dizer que saber preparar-se para ter desilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos? Oras... se só tomamos conhecimento de uma ilusão quando ela acontece, como não ter ilusões sem antes tê-la provocado na tentativa de realizar os nossos sonhos? Talvez o problema da ilusão seja conceitual. Talvez falte entrar nessa receita a expectativa, não sei. Talvez as variáveis sejam tantas que levaram o poeta a escrever em seu "Livro do Desassossego: "Para realizar um sonho é preciso esquecê-lo, distrair dele a atenção. Por isso realizar é não realizar."

Arrisque... arrisque sempre. Comprometa nem que seja uma pequena parte da sua segurança para aumetar seus momentos de felicidade. Esqueça a vaidade e o orgulho. Sem arriscar perderemos a esperança e sem ela nos tornaremos amargos.

O aprendizado:
Para os que têm medo da desilusão: "Deve-se estabelecer a proposição: só vivemos graças a ilusões - a nossa consciência aflora à superfície." (Nietzsche)
Para os racionais e pragmáticos: "Sentir é estar distraído" (Fernando Pessoa) 
Para os despojados sem culpa: "Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade" (Carlos Drummond de Andrade)




sábado, 6 de julho de 2013

Nós, ratos de laboratório; eles, ratos de porão.

Numa metáfora ou gozação que escreveram num site sobre militares revoltados que desejam depor Dilma e que relembra um passado de repetição nada desejada, encontramos uma boa oportunidade de reflexão. Sem entrar nos méritos dos dois lados da época porque acabaria virando discussão sobre o sexo dos anjos e do passado podemos apenas tirar lições, há algum tempo cheguei à conclusão de que hoje somos vítimas de mágoas mal trabalhadas. Zé Dirceu, Genoíno, Rui Falcão, Inácio Arruda, Dilma e alguns poucos do PMDB - Lula não porque até hoje ele não entende o que aconteceu em 64, nem de um lado e nem do outro - não são fiéis à nenhuma ideologia.

Há uma frase de Jean-Paul Sartre que diz: "Eu era uma criança, esse monstro que os adultos fabricam com as suas mágoas". A democracia-criança do povo brasileiro está sendo vítima da teimosia e desejo de vingança de meia-dúzia de magoados, sobreviventes dos tempos da ditadura, período que não traz boas recordações pra ninguém. Não traz boas recordações para os que têm a liberdade como o bem mais precioso do ser humano, maior do que todas as razões ideológicas do mundo juntas. Estão se vingando de um passado que já se foi com o argumento de que não pode ser repetido. E eu concordo... não pode mesmo! Não pode e nem será, porque só nos testes com a nossa paciência nesses últimos 13 anos vocês já nos levaram ao limite da exaustão!

Fazem a todo instante pesquisas eleitorais e de popularidade do governo, mas agora a bola da vez é o plebiscito. Já experimentaram perguntar ao povo se ele quer novamente uma ditadura? Tirando alguns radicais fanáticos que representam muito pouco, a maioria esmagadora do povo certamente diria que NÃO. Mas será que uma pesquisa dessas interessaria a esses magoados que precisam manter o fantasma da ditadura nos rodeando e nos assombrando o tempo todo? O que eles fariam pra justificar esse ódio represado e desejo de vingança que os mantém vivos lutando sem guerra? Vingam-se no povo que em última análise eles também fazem parte. Mas como escreveu Nietzsche "Em tempo de paz o homem belicoso ataca a si mesmo."

Impõe-se um plebiscito para que uma nação com mais 30 milhões de analfabetos funcionais e um número maior ainda de ignorantes políticos, escolham entre sistemas de votos proporcional, distrital puro ou distrital misto, respondendo SIM ou NÃO. Para que? Para sossegar as ruas e sorrateiramente mudar a nossa já emendada, remendada e humilhada Constituição? Para que consigam ficar mais tempo no poder vingando-se de torturadores mortos e ditaduras que não existem mais? Para provar aos EUA, Inglaterra e outros países que vocês chamam de colonialistas, que se desejarem ficarão no poder o quanto quiserem tentando implantar suas ideologias mortas? Ideologias que fracassaram e destruíram países com raízes culturais muito mais profundas que as nossas?

Por quanto tempo ainda, nós inocentes ratos de seus laboratórios ideológicos, travestidos de crianças, jovens, adultos e idosos apelidados de cidadãos brasileiros, ainda conseguiremos ou teremos de suportar vivos a imagem desses mortos que também são nossos, mas cujos fantasmas só assombram vocês?

sexta-feira, 5 de julho de 2013

PMDB - tragicômico ou melancólico?

Quem leu a história do PMDB jamais imaginaria um fim tão melancólico para um partido que abrigou políticos da estatura de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Teotônio Vilela entre outros. Em seu site, o PMDB fala sobre os seus 47 anos de glória, quando na verdade deveria resumi-la em apenas 14 anos (1980-1994), excluindo o período Sarney e terminando com Itamar Franco em substituição a Fernando Collor. Com um pouco de esforço podemos incluir os melhores 14 anos dessa história, os do antigo MDB (1966-1980), totalizando, no máximo, 28 anos - aí sim - de uma história que vale a pena ser contada e registrada.

De Itamar Franco - que assumiu após o impeachment de Collor - para cá, o PMDB passou de protagonista a coadjuvante, optando pelo confortável e rentável subpoder. Podemos louvar o ex-presidente Itamar Franco e seu ministro FHC pelo fim do ciclo de inflação galopante que chegou a atingir a incrível marca de 2000% em 1989, mas de Itamar para cá, o maior partido do Brasil optou morar nos cômodos  - e cabe o duplo sentido - porões do Palácio do Planalto, sem telhado de vidro. Apoiou Fernando Henrique Cardoso em 1994 com seu vice Marco Maciel e permanece até hoje escondido na vice-presidência, detentor dos ministérios e cargos de terceiro escalão mais importantes. É o grande viabilizador deste governo que está ai com 80 deputados (23% da base), 42 senadores (46% da base), além de ser o partido com mais prefeitos eleitos do país (1024 municípios). Com tudo isso, para que ele iria se expor indicando candidato à presidência da república?

No governo PT, o PMDB está conseguindo se superar e não seria necessário ser um profeta ou um gênio da análise política para saber que o PMDB iria se queimar nesse seu ritual macabro de acender uma vela pra Deus e outra pro diabo. Será que o PMDB nunca imaginou que entre essas duas velas ele estaria abrindo ruas e avenidas pra que o povo desfilasse?

E agora, as desencontradas opiniões do PMDB sobre o plebiscito estão contribuindo pra sua melancólica apoteose, desfilando na contra-mão da avenida das ideologias, sob a chuva dos papéis picados de seu estatuto partidário que em seu Artigo 2º diz:
"O PMDB exerce suas atividades políticas visando à realização dos objetivos programáticos que se destinam à construção de uma Nação soberana e à consolidação de um regime democrático, pluralista e socialmente justo, onde a riqueza criada seja instrumento de bem-estar de todos."
Ainda há tempo! Tempo para mudar e continuar representando dignamente aquele partido que se opôs à ditadura e que abrigou políticos ilustres. Que mobilizou milhões de brasileiros em ruas e praças gritando "Diretas Já", resgatando-lhes a autoestima de povo livre, boa índole e pacífico, consciente dos seus direitos de cidadãos. Direitos estes que não podem ser concedidos e muito menos negados, pois, não se dá e nem se nega o que não é e nunca foi seu.

Se você é político ou filiado do PMDB e quiser rever a história de seu partido, clique aqui. E depois diga, sinceramente, se o partido é hoje o que diz nunca ter deixado de ser.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Teimosia e cara de paisagem

Até mesmo os mais insensíveis e os apolíticos conseguiram entender as mensagens das ruas, mas os que deveriam entender até agora ainda não entenderam ou fazem de conta que não. Vamos supor que entenderam, mas não querem largar o osso porque há filé grudado nele, mas aí o problema já passa a ser outro. É um problema de limitação de capacidade cognitiva, ou seja, não conseguem entender o "penso, logo existo" de Descartes e permanecem no "não consigo pensar e logo desisto" do paradoxo do filósofo burro de Jean Buridan. Dilma tenta remediar sua incapacidade de gerenciar a crise empurrando o pepino para o Congresso e, ao contrário do que ela imaginava, a coisa vai complicar mais ainda. Em primeiro lugar porque é muito mais fácil ocorrer o inverso, ou seja, o Congresso boicotá-la para salvar a própria pele. Deputados e senadores já cansaram de provar que nessas horas o corporativismo fala mais alto e é certo que as vozes dos presidentes da Câmara e do Senado serão encobertas pelas vozes dos legisladores. Em segundo lugar, o inconsciente coletivo indignado das ruas exige ações imediatas, pois, inconscientes não raciocinam e apenas obedecem a impulsos. A população vai parar de reivindicar seduzida pela ideia de um plebiscito que nem sabe direito o que é? Vai trocar um basta que estava entalado na garganta e explodiu por um "ajude-me a resolver os sérios problemas que vocês não criaram?" Quem tem a caneta na mão?

Já a falta de representatividade política não foi causada pela forma com que os eleitores escolheram seus candidatos e muito menos pela estrutura e modo de funcionamento do sistema legislativo, mas sim pela prostituição dos partidos, a começar - e principalmente - pelo PMDB que rasgou seu estatuto partidário há muito tempo, traindo seus eleitores e trocando toda sua história de luta por poder e dinheiro. E o mesmo aconteceu com os outros partidos da base de apoio ao governo, pois, afinal aprenderam com o mestre. Tentar discutir se a culpa é do governo ou dos partidos seria como tentar equacionar o problema da corrupção respondendo a simples pergunta de quem é o maior culpado, o corrupto ou o corruptor? Eu responderia dizendo que os dois fazem parte desse mesmo lixo fedorento.

Dilma consegue fazer medidas provisórias para liberar bilhões e facilitar a vida de empreiteiras, da CBF e da FIFA, mas por que não consegue fazê-las para que o BNDES libere os mesmos bilhões para a segurança, saúde e educação? Antes a resposta seria bem mais simples, a de que o circo vale mais. Porém, agora não vale tanto quanto valia e a prova disso está aí nas ruas.

A maioria desses que estão manifestando toda sua revolta, sabe que o plebiscito, além de representar gastos de 500 milhões apenas para tentar jogar água na fogueira, não trará soluções práticas e muito menos a curto prazo. Sem contar a preocupação FUNDAMENTADÍSSIMA  de que ele poderá ser usado para neutralizar alguns preceitos constitucionais garantidores da liberdade de expressão, de imprensa e da alternância de poder. Isto porque não há como fazer perguntas simples para que as respostas não dependam de interpretações do Congresso. Plebiscito dessa complexidade cheira a golpe e como disse o ex-ministro e presidente do STF Ayres Britto, é passar um cheque em branco para esses políticos que estão aí. Plebiscito desse jeito e nesta hora, é arapuca.

O congresso e o senado, mesmo que hipocritamente, resolveram votar projetos que estavam encalhados e que faziam parte das reivindicações, mas o governo até agora ainda não soltou nenhuma medida provisória, hipócrita que fosse, para mostrar que entendeu o que o povo das ruas quer. Respondeu com plebiscito e teimosia, fazendo cara de paisagem.

Paisagem de deserto com dunas, escorpiões e cactus.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Por que referendo e não plebiscito?

Joseph Goebbels

Curto e grosso e sem meias voltas. Porque plebiscito apenas levantaria os desejos da população, mas não garantiria que a reforma fosse traduzida em forma de leis bem intencionadas pelos senhores políticos, esses que estão aí e que já jogaram no lixo há muito tempo seus estatutos partidários numa troca pelo poder eterno. Desses que representam hoje apenas os seus próprios interesses e que não desejam perder as suas boquinhas. Se hoje eles já forçam interpretações e destorcem nossa própria Constituição escrita e promulgada, o que não farão com respostas de um povo composto por 30% de analfabetos funcionais? Se a reforma política for elaborada com base na interpretação desses que se dizem representantes do povo, só teremos a saída às ruas como recurso para evitar que ela seja votada e aprovada. Não... sem essa meus caros - literalmente caros - representantes dessa outra nação que criaram. Golpe travestido de democracia, não mesmo!

No caso de um referendo, estaríamos dizendo SIM ou NÃO para a reforma elaborada pelo Congresso após consulta à população, seja por meio de audiências públicas quando o povo, individualmente e ao mesmo tempo junto às entidades que representam a sociedade, poderiam participar da elaboração. E só depois aprovariam as mudanças avaliando-as e referendando-as (daí o nome referendo).

Sem contar que o custo de um plebiscito é muito alto (previsto em 500 milhões) apenas para servir de respaldo para possíveis más intenções. É um valor  suficiente para construir mais de 1000 escolas com postos de saúde, 20 mil casas populares, 20 presídios ou 22 novos hospitais. No entanto, parece que mais uma vez, a exemplo da Copa do Mundo e Olimpíadas, o circo ocupa lugar de destaque nas opções dos nossos (des)governantes. Há sempre um golpezinho no bolso do colete, pronto para ganhar os microfones dos palanques do poder.

Será que eles ainda não perceberam que O POVO ACORDOU e que hoje a classe mais consciente exerce forte influência nas classes que ontem ainda eram manipuladas por bolsas famílias e discursos populistas? As recentes pesquisas de opinião estão aí para provar isso.

Enfim e graças a Deus, o método Joseph Goebbels não está mais funcionando como antes.

O POVO ACORDOU e vocês ainda dormindo em berço esplêndido?


Leiam as opiniões de gente que conhece:

EX-PRESIDENTE E MINISTRO DO SUPREMO AYRES BRITTO 
Um plebiscito para tratar da reforma política — como foi defendido esta semana pelo Governo Federal — pode fazer com que a população aprove propostas que podem acabar sendo desvirtuadas depois, ao chegarem ao Congresso, alertam juristas e pesquisadores do Direito.
O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Britto afirma que seria como a população dar um “cheque em branco” aos parlamentares. Além disso, na sua ótica, o resultado pode não refletir o desejo da população, se os questionamentos forem muito teóricos. 
“O plebiscito precisa ter perguntas tão claras quanto o sol do Nordeste a meio dia, a pino”, destacou o ex-ministro.

MINISTRO DO SUPREMO GILMAR MENDES 
A reforma política feita por meio de um plebiscito é temerária e de "difícil exequibilidade", diz o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Para ele, a presidente Dilma Rousseff deveria ter se precavido e ouvido previamente mais os chefes dos outros Poderes e os líderes políticos antes de ter lançado a ideia. 
"Acredito até que isso evitasse alguns equívocos na própria abordagem das propostas", afirma Gilmar em entrevista ao "Poder e Política", programa da Folha e do UOL. Um "erro rotundo, extremamente grave" já foi abortado - a proposta de convocar uma Constituinte exclusiva. 
Mas o plebiscito continua com formatação obscura. "Tenho dúvida sobre que perguntas serão dirigidas à população, que terá de decidir sobre temas que têm perfil bastante técnico. Por exemplo: vai se adotar no Brasil o sistema alemão misto distrital e proporcional...? A população saberá distinguir?", indaga Gilmar. 
O passo seguinte também é incerto: "Quando essa resposta vier, o Congresso vai executar como?". Teria sido apropriado se Dilma Rousseff tivesse ouvido previamente mais pessoas. "Talvez fosse o caso de ter chamado o presidente da Câmara, do Senado, do Supremo, do TSE, as lideranças partidárias para dizer: nós precisamos priorizar a reforma política. Nós precisamos fazer uma agenda com esse foco". 
Para o ministro, alguns itens da reforma política podem ser tratados por meio de lei, sem alteração da Constituição. Teria de ser, entretanto, uma reforma gradual. "Quando se diz 'ah! Agora nós vamos reformar o mundo de uma vez por todas', a gente já começa a errar". 
Uma cláusula de desempenho eleitoral para os partidos políticos, regras de democratização interna das siglas e uma lei que comece a valer mais adiante para criar novas agremiações são dispositivos que podem ser feitos a partir de lei e não dependem de plebiscito nem de alteração constitucional. 
Mas o Congresso tem disposição para votar projetos assim? "Falar que o Congresso está em débito tem de ser visto 'cum grano salis' [ponderação]. Muitas vezes, essa omissão decorre da falta de articulação por parte do próprio Executivo --que tem o mais amplo apoio que já se formou nesses últimos anos", responde Gilmar.


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