quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A "desbanalização" do ego e a evolução - Parte I


Muito embora eu não seja do ramo e, portanto, esteja sujeito às críticas dos profissionais da psicologia/psicanálise, minha intenção não é ir a fundo, mas apenas "desbanalizar" a palavra ego, muito utilizada nos dias de hoje, seja como arma de defesa ou de ataque pessoal. A palavra ego é também é muito utilizada para medir a espiritualidade do indivíduo, basicamente avaliando seu nível de tolerância às contraposições pessoais (idéias e concepções) e desprendimento material.



Para que se possa entender melhor a palavra ego, é necessário posicioná-la corretamente entre os conceitos propostos por Freud em relação às distinções entre consciente e inconsciente, conforme o breve resumo abaixo:
  • ID: Constitui o reservatório de energia psíquica, é onde se localizam as pulsões de vida e de morte. As características atribuídas ao sistema inconsciente. É regido pelo princípio do prazer (Psiquê que visa apenas o prazer do indivíduo). 
  • EGO: É o sistema que estabelece o equilíbrio entre as exigências do id, as exigências da realidade e as ordens do superego. A verdadeira personalidade, que decide se acata as decisões do Id ou do Superego
  • SUPEREGO: Origina-se com o complexo do Édipo, apartir da internalização das proibições, dos limites e da autoridade. (É algo além do ego que fica sempre te censurando e dizendo: Isso não está certo, não faça aquilo, não faça isso, ou seja, aquela que dói quando prejudicamos alguém, é o nosso "freio".)
     Fonte: www.psicoloucos.com


Considerando as definições freudianas, o termo ego, diferentemente do que os generalistas sugerem, não pode ser utilizado em seu sentido literal como sinônimo de virtude ou defeito, pois, dependerá de parâmetros estabelecidos por conceitos morais individualmente aceitos ou rejeitados/reprimidos. Como na definição, o ego é um sistema que envolve avaliações.

Já na visão oriental, segundo Osho, ego nada mais é do que o reflexo do que pensam de nós, ou seja, a nossa vaidade resultante dos estímulos cumulativos de outras pessoas. O ego na visão oriental está mais relacionado à divisão "PERSONA" (máscaras) e "SELF (EU maior, essência ou divino) de Carl Jung. A integração harmônica entre os dois ele chama de individuação.

Este primeiro texto tenta apenas "desbanalizar" e separar as visões oriental da ocidental de ego para poderem entender os outros que escreverei a seguir envolvendo evolução e espiritualidade dentro de conceitos próprios, ou seja, na minha maneira de ver e entender.

.|.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Mentimos para proteger o nosso prazer

"A mentira é essencial à humanidade. Ela desempenha porventura um papel tão importante como a procura do prazer, e de resto é comandada por essa mesma procura. Mentimos para proteger o nosso prazer, ou a nossa honra se a divulgação do prazer for contrária à honra. Mentimos ao longo de toda a nossa vida, até, e sobretudo, e talvez apenas, àqueles que nos amam." Marcel Proust em "Em Busca do Tempo Perdido VI - A Fugitiva"

Se nos basearmos nessa reflexão de Proust podemos entender também que - mudando apenas o ponto de vista - que a mentira pode ter duas faces na proteção do prazer, não só para quem mente como também para quem ouve e aceita a mentira sem questionamentos. Como o lado do autor da mentira é mais fácil de se entender, a reflexão sobre o comportamento de quem a ouve e aceita sem questionamentos, é mais sutil e complexa.

Aquele que busca inconscientemente uma razão para manter um prazer doentio que não é aceito por outras pessoas, prefere adotar a mentira de outro e considerá-la verdade, pois, a sua autoestima permanecerá intocável, transferindo a culpa e fortalecendo a credibilidade desse outro. Lutará tão decididamente a favor do mentiroso que o tornará mais forte e mais crível, num processo de (auto)realimentação constante, enquanto os prazeres de ambos estiverem sendo ameaçados. E a terceira pessoa - a que foi diretamente afetada pela mentira - não terá forças nem credibilidade para combater o prazer desses primeiros, fortalecidos pelos seus desejos lastreados nessa mentira que se tornou verdade.

É o teatro da vida!

Frases & Pensamentos I














Criatividade - Campanha HortiFruti

Tem que tirar o chapéu para esta campanha criativa!
















segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Simulador de enchentes

Jornal da Cidade
Rio de Janeiro lança o simulador de enchentes. Segundo o UOL Notícias: "A ideia é recriar uma situação de alerta vermelho em dias de tempestades, como no dia 25 de abril, quando uma enchente paralisou a cidade na hora do rush."

Toda ação que visa poupar vidas merece apoio e seria o caso de perguntar: "Por que até agora isto também não aconteceu na cidade de Angra dos Reis e região próxima à usina nuclear, principalmente após o acidente do Japão?"


Outro lado curioso da Prefeitura do Rio investir num aviso sonoro e simular abandono de área para evitar tragédias: "O que foi feito até agora pelo governo municipal para minimizar os riscos de enchentes?"; "Quantos projetos o Rio apresentou ao governo federal para requisitar parte da verba de 500 milhões destinados à prevenção de tragédias?




Se a moda pega, daqui a pouco vão criar também um aviso sonoro para abandono de área nos hospitais, postos de saúde e de pronto atendimento do SUS. Só ficarão nas filas (e no chão) os casos mais graves. É o "jeitinho brasileiro" de governar.





Como escreveu Clarice Lispector: "Os fatos são sonoros. O que importa são os silêncios por trás deles."

sábado, 26 de novembro de 2011

Os sistemas hipócritas estão desmoronando

Os beneficiários do podre sistema político-econômico ainda relutam em aceitar o início da queda generalizada das máscaras no mundo inteiro, mas essa cegueira se deve mais aos costumes do que à inteligência inicial que os levou ao poder. Esses donos do mundo se habituaram à inércia da submissão popular e é por isto que ainda os vemos negar realidades, por mais contundente que elas sejam. Os vemos negar imagens gravadas, palavras ditas e outros fatos consumados.

Muitos dizem que a cara-de-pau está aumentando, mas não é bem isto que acontece. A certeza inconsciente da impunidade é que os faz e os fará cometer cada vez mais absurdos, até o momento que perceberem que estão falando sozinhos ou, no máximo, para essa oligarquia de poderosos que representa apenas 1% da população mundial.

A revolta popular que pipoca do mundo árabe às bolsas de Wall Street e que parecem possuir causas independentes, são um reflexo da queda dessas máscaras. Um fato positivo está acontecendo: os poderosos não estão mais conseguindo manipular a verdade dos fatos.

Nessa briga infrutífera desses mascarados agonizantes contra verdades comprovadas, encontramos políticos, banqueiros e organismos internacionais engajados nesse sistema podre e mentiroso que sobrevive às custas do dinheiro sujo, sob os véus opacos da democracia mentirosa.

O desespero desses anteprojetos de seres humanos com a caída de suas máscaras é tão grande que agora desejam calar a imprensa, como se o termômetro fosse responsável pela febre. Por mais leis que sejam criadas e por mais veículos, editores e jornalistas que sejam enviados para os tribunais, os gritos não serão abafados porque esses antes inteligentes, mas hoje emburrecidos pelo poder e pelo dinheiro, se esquecem de que existe uma coisa que se chama INTERNET e que extrapola veículos de comunicação formais, leis e fronteiras.

O que esses estúpidos deveriam fazer é começar a desmontar o circo que montaram, pois, os palhaços daqui a pouco estarão em falta. Se assim fizerem poderão aproveitar um pouco mais os benefícios por eles conquistados por meio da injustiça, dos roubos e das falcatruas que patrocinaram.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A moral dos ressentidos - Nietzsche

O dualismo é falho por não contemplar os estágios intermediários do crescimento intelectual, das adaptações e da mobilidade dos conceitos adquiridos ao longo do tempo com a vivência pessoal e intransferível. É a chamada ordem de valores de cada um, transitória e dinâmica.

É lógico que determinados "bens" e determinados "maus" permanecem a vida inteira conosco e nem sequer são reavaliados, seja  por convicção, medo, religiosidade, preconceito e outros repelentes da reflexão.

Mas se existe uma regra ou uma lei para classificar o bem e o mal? Quem os separa? O bom, o mau ou o contido?

Para refletir e, quem sabe, reavaliar. Por que ter medo de pensar?


A MORAL DOS RESSENTIDOS

"O homem do ressentimento traveste sua impotência em bondade, a baixeza temerosa em humildade, a submissão aos que odeia em obediência, a covardia em paciência, o não poder vingar-se em não querer vingar-se e até perdoar, sua própria miséria em aprendizagem para a beatitude, o desejo de represália em triunfo da justiça divina sobre os ímpios. O reino de Deus aparece como produto do ódio e da vingança dos fracos. Incapaz de enfrentar o que o cerca, o homem do ressentimento inventa, para seu consolo, o outro mundo. Assim também procede o "filisteu da cultura’, que só pode afirmar-se através da negação do que considera seu oposto: a própria cultura. Ou então, o homem da ciência, que a si mesmo opõe um outro: o pesquisador, que pretende comportar-se de maneira impessoal, desinteressada e neutra diante do mundo, para chegar a abordá-lo com objetividade. E ainda o filósofo que, na elaboração de suas idéias, acredita poder desvinculá-las da própria vida, não se reconhecendo como advogado de seus preconceitos." ("Para além de Bem e Mal")

domingo, 20 de novembro de 2011

Do mal, muita coisa boa resultou - Carl Jung

"Mantendo-me calmo, nada reprimindo, permanecendo atento e aceitando a realidade. Vendo as coisas como elas são e não como eu queria que elas fossem.

Ao fazer tudo isso, adquiri um conhecimento incomum, assim como poderes invulgares, de uma amplitude que jamais poderia ter imaginado. Sempre pensara que quando aceitamos as coisas, elas nos sobrepujam de um modo ou de outro. Resulta que isso não é verdade em absoluto. É somente aceitando as coisas que podemos assumir uma atitude em relação a elas.

Por isso, tenciono agora fazer o jogo da vida, ser receptivo a tudo que me chegar, sem julgamentos, bom e mal, luz e sombra alternando-se eternamente; e, desta forma, aceitar também minha própria natureza, com seus aspectos positivos e negativos. Assim, tudo se torna mais vivo para mim.

Que insensato eu fui! Como me esforcei para forçar todas as coisas a harmonizarem-se com o que eu pensava que devia ser..."

(Carl Gustav Jung)

Vamos supor...

Vamos supor que haja vida depois da morte e que a Terra seja apenas uma etapa do processo evolutivo. E já que tudo foi previsto por um suposto Deus ou Força Maior, vamos supor que tudo aquilo que Ele previu esteja certo. Que o bom esteja certo, o mau esteja certo e o indiferente também esteja. Vamos supor que seja lícito odiar, matar, roubar e trair, da mesma forma como amar, salvar, doar-se e ser fiel. Vamos supor que o desprezo e a compaixão sejam frutos da mesma árvore.

Vamos supor que o mundo seja uma grande ilusão e que o que vemos e sentimos não exista. Que o remorso, a mágoa e a tristeza não passem de falsas emoções e sensações. Que a busca pela felicidade seja apenas um passatempo e não há motivos para nos desiludirmos se não encontrarmos essa felicidade.

Não precisa entender; não precisa se esforçar; não precisa crescer.

Você precisa apenas viver.

Mas, viver o que?

A inércia dos seus medos!

Tic-tac ...

Gaiolas e Asas - Rubem Alves

Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram também atacados por eles. Digo “atacados“ porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: “Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas“

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.

Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, dar o programa, fazer avaliações... Ouvindo os seus relatos vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra - e a domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres... Sentir alegria ao sair da casa para ir para escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O seu sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha junto com os tigres.

Nos tempos da minha infância eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca, pisava no poleiro – e era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras, enfiava o bico entre nos vãos, na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensanguetado... Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.

Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas?

Me falarão sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, é preciso que todos tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor.

Mas, eu pergunto: Nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?

O que os burocratas pressupõe sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E para se testar a qualidade da educação se criam mecanismos, provas, avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.

Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Você sabe o que é “dígrafo“? E os usos da partícula “se“? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante“? Qual a utilidade da palavra “mesóclise“? Pobres professoras, também engaioladas... São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: “fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender – e aprender à sua maneira...“

O sujeito da educação é o corpo porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligência, era “ferramenta“ e “brinquedo“ do corpo. Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender “ferramentas“, aprender “brinquedos“. “Ferramentas“ são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia a dia. “Brinquedos“ são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma. No momento em que escrevo estou ouvindo o coral da 9ª sinfonia. Não é ferramenta. Não serve para nada. Mas enche a minha alma de felicidade. Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo educação.

Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo. Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer... Assim todo professor, ao ensinar, teria que perguntar: “Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo?“ Se não for é melhor deixar de lado.

As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há professores que amam o vôo dos seus alunos. Há esperança...

Rubem Alves (biografia)

domingo, 13 de novembro de 2011

O tempo e as jabuticabas - Rubem Alves




O TEMPO E AS JABUTICABAS

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver 
daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela 
menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela 
chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. 
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir 
quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos 
para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem 
para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir
estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.  
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, 
que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões
 de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'. 
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo 
majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas 
não debatem conteúdos, apenas os rótulos'. 
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a 
essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente 
humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta
com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não 
foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, 
e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse

amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.'

O essencial faz a vida valer a pena...
e para mim basta o essencial.


Rubem Alves










sábado, 12 de novembro de 2011

A justiça é cega, mas a injustiça pode ser vista

Enquanto o Brasil estiver gerando números para cumprir determinações ou acordos internacionais, como este da UnCac, não estará provando nada sobre a justiça no país em relação à corrupção. Relatórios e estatísticas tupiniquins isoladas sem a população ser ouvida por meio de pesquisas HONESTAS elaboradas e aplicadas por entidades internacionais imparciais são frios e irreais. E não se delega esse tipo de pesquisa de opinião ao IBOPE ou autarquias (IBGE).


Essa estatística dizendo que "STF supera em 20% nº de julgamentos de corrupção de 2010" não refletem a realidade. As principais estatísticas deveriam considerar:
  1. Quantos POLÍTICOS IMPORTANTES ENVOLVIDOS foram julgados e punidos pelo STF?
  2. Quantas leis que inibem a presença de corruptos na política foram aprovadas?
E as que deveriam ser feitas para o povo num regime democrático seriam:
  1. Você está satisfeito com as penas dadas aos políticos envolvidos PUBLICAMENTE em escândalos?
  2. Você acha que a justiça brasileira é imparcial?
Como eu disse, para mim, esse relatório estatístico não significa ABSOLUTAMENTE NADA e trata-se apenas de ENGANAÇÃO. Não acredito mais na justiça brasileira e ela terá de TRABALHAR MUITO para conseguir melhorar a sua imagem perante o povo, embora eu não acredite que ela esteja muito preocupada com isso. Aprovar a Ficha Limpa (ou Ficha Suja) para 2012 seria apenas um pequeno e ínfimo passo INICIAL, mas pelo visto, mais uma vez ganharão os corruptos com a desculpa esfarrapada, etérea, subjetiva e tecnocrata da inconstitucionalidade.

Fora a indiferença da justiça, as corregedorias estão sendo tolhidas de corrigir os desvios do judiciário, ou seja, DEUSES não cometem erros e ninguém pode julgá-los. Só que esses mortais se esquecem da justiça divina. Esses deuses de mentirinha estão perdendo a grande chance de se notabilizarem e se tornarem reais em meio a este mar de lama que inunda o país da oligarquia política.

Como já escrevi há algum tempo aqui, "Se cair a ficha, que seja a do supremo"


Terra: "STF supera em 20% nº de julgamentos de corrupção de 2010"

"Nos primeiros oito meses deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou 108 processos (ações penais e recursos) relacionados a crimes de lavagem de dinheiro, corrupção e improbidade administrativa. O número supera em 20% o total de julgamentos realizados pela Suprema Corte sobre essas matérias durante todo o ano de 2010 (88 no total). Os dados compõem levantamento divulgado nesta sexta-feira pelo STF e pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).


Do total das ações julgadas pelo STF até agosto de 2011, 94 tratavam sobre improbidade administrativa, oito sobre crimes de corrupção e seis sobre lavagem de dinheiro. Nesse mesmo período, 129 processos desse tipo ingressaram na Corte, contra 178 propostos durante todo o ano passado. Nos oito primeiros meses deste ano, 99 ações dessa natureza transitaram em julgado no STF, não cabendo mais recurso para contestar a decisão. O número supera em cerca de 40% o total de processos concluídos em 2010 em relação aos mesmos temas (71 no total).


As informações serviram de subsídio para a apresentação feita pela delegação brasileira ao Grupo de Revisão da Implementação da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção (Uncac), em agosto, durante reunião em Brasília.


Na ocasião, especialistas do México e do Haiti e peritos do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) avaliaram o Brasil com relação ao cumprimento das obrigações estabelecidas na Convenção e analisaram a legislação brasileira e os procedimentos adotados pelos órgãos.


Além das informações sobre o STF, o levantamento inclui dados sobre o julgamento e a tramitação de ações penais e recursos relativos aos crimes de colarinho branco, corrupção e lavagem de dinheiro nos Tribunais Estaduais, Federais e Superiores de todo o País."


Quem só vê números, acha que é verdade!

.o.

domingo, 6 de novembro de 2011

Ora (direis) ouvir estrelas!

Uma vez escrevi num dos posts deste blog sobre uma surdez crônica que me afetou há uns 20 anos. Não foi uma doença propriamente auditiva, mas era a mente que me impedia de escutar coisas fabulosas. Aliás, muitas vezes essa surdez vinha acompanhada de cegueira.

Eu trabalhava em São José dos Campos, mas ia com frequência para São Paulo e ficava hospedado em hotéis na região da Paulista/Augusta. Já estava cansado de não dormir direito e ouvir aquele barulho matinal do trânsito caótico paulistano... e estou dizendo 20 anos atrás... imaginem hoje!

Há dois dias postei um texto de Rubem Alves - Violinos velhos Tocam Música - e o primeiro parágrafo me fez lembrar um pouco sobre essa surdez e cegueira seletivas. Rubem escreve:

"Jesus era sábio. Conhecia os segredos do coração humano. Psicanalista insuperável. Disse: “O homem bom tira coisas boas do seu tesouro. O homem mau tira coisas más do seu tesouro.“ Ou seja: a gente sempre encontra aquilo que está procurando. (...)"

Nessa época eu participava de um grupo espiritualista às segundas-feiras. Era uma reunião solta e envolvia também conversas descontraídas. Quando comentei sobre as minhas estadias em São Paulo, do barulho e do cinza intenso da paisagem de concreto, meu "guru" da época, amigo Jonathan - o qual agradeço muito até hoje pelos ensinamentos que me proporcionou - disse:

- Experimente abrir a janela e tente ouvir o canto dos pássaros e enxergar o verde, por mais sutil que seja entre os edifícios.

E perguntei a ele brincando:
- Puxa... com essa idade nunca foi pra São Paulo? 
Ele riu, mas insistiu:
- Experimente!
Fui várias vezes depois desse dia para São Paulo e confesso que nunca me lembrei do que ele falou, mas um dia eu acordei e o diálogo que tivemos me veio à cabeça. Sirene do caminhão de resgate, ambulância, ônibus... realmente aquela manhã estava "caprichada"! Abri a janela e pensei "vamos então procurar o verde e tentar ouvir o canto dos pássaros".

A princípio me imaginei um louco tentando ouvir pássaros como no soneto Via Láctea de Olavo Bilac:
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender estrelas"
E não é que, no meu "pálido espanto", consegui ouvir pássaros em meio à multidão, ao trânsito e às sirenes? E  ainda poupei trabalho, pois eles estavam cantando e piando numa raquítica, mas vitoriosa "Pau de Ferro" florida com seu tronco protegido por ripas de madeira. O mais  interessante é que depois de localizados, consegui filtrar os sons e imagens que eu não desejava naquele meu cenário.

Um aprendizado que me serve até hoje nos momentos difíceis da vida. Moro em Campos do Jordão e quando cheguei ouvia pássaros mesmo sem querer e via o verde sem precisar buscar. Hoje, depois dez anos morando aqui, muitas vezes me pego ouvindo apenas o som dos caminhões, ônibus e automóveis que passam, misturados ao barulho às vezes ensurdecedor das preocupações e tristezas. É quando eu me lembro do amigo-mestre Jonathan e imediatamente saio no terraço e me integro no mundo seletivo dos pássaros e do verde, me esquecendo de tudo!

Há uma grande diferença entre a cidade de São Paulo e Campos do Jordão, mas a surdez e a cegueira vêm de dentro de nós e nos acompanham em qualquer cidade do Planeta, esteja ela cercada de concreto ou de árvores.


“O homem bom tira coisas boas do seu tesouro.
O homem mau tira coisas más do seu tesouro.“


É uma história que vale também para pessoas! Devemos às vezes parar um pouco e sermos seletivos, ouvindo e vendo apenas o que existe nelas de belo. É uma forma de cultivar o verde e os pássaros da alma.

Abaixo, uma gravação simplezinha do som dos pássaros, hoje, ao nascer do sol em Campos.








sexta-feira, 4 de novembro de 2011

VIOLINOS VELHOS TOCAM MÚSICA - Rubem Alves

VIOLINO VELHOS TOCAM MÚSICA
Rubem Alves

Jesus era sábio. Conhecia os segredos do coração humano. Psicanalista insuperável. Disse: “O homem bom tira coisas boas do seu tesouro. O homem mau tira coisas más do seu tesouro.“ Ou seja: a gente sempre encontra aquilo que está procurando. Isso se aplica à leitura que se faz das Sagradas Escrituras. Pessoas que estão cheias de medo, de sentimentos de vingança, de autoritarismo, encontrarão na Bíblia ameaças, castigos, infernos, um Deus cruel e vingativo: parecido com eles. Cada Deus é um retrato de quem acredita nele. É possível fazer uma psicanálise de uma pessoa analisando os seus pensamentos e sentimentos religiosos. Aqueles, entretanto, que estão cheios de sentimentos ternos e que, portanto, não são movidos pelo medo (“O amor lança fora o medo“, diz o apóstolo João) vão tirar daquele tesouro idéias de beleza, bondade e perdão. Seu Deus muito se parece com uma criança: não há vinganças, castigos ou inferno.

Digo isso a propósito do que as pessoas tiram das Escrituras Sagradas, quando pensam sobre o sexo. Veio-me à memória um texto, inspirado como todos os outros, em que se descreve os últimos momentos do rei Davi. Esse incidente, relatado nos primeiros versos do livro de Reis, e sobre o qual nunca ouvi sermão, conta que, sendo Davi já velho, todos os cobertores sendo inúteis para aquecê-lo, seus servos tiveram uma idéia terapêutica: “Procure-se para o senhor nosso rei uma jovem virgem que assista o rei e cuide dele: ela dormirá sobre o seu seio e o senhor nosso rei se aquecerá.“ Assim se fez. Mas foi inútil. Foi inútil que o rei dormisse ao lado da mais bela jovem do reino. Seu corpo, outrora corpo de homem viril – lembram-se de Betsebá? – permaneceu inerte. As esperanças de que ele fosse trazido de novo à vida pelas delícias do corpo de uma mulher não se realizaram. Ele não fez amor com ela. Que decepção! E morreu. O que esse texto sagrado diz é que havia a convicção, partilhada por todos, de que o amor sexual tem o poder de realizar o milagre de curar o corpo. O sexo aquece a vida fria. Sexo é remédio. Sexo é alegria. (Os que só tiram coisas más do tesouro concluíram, ao contrário, que sexo é veneno...)

Um dos meus textos favoritos se chama Desiderata. “Desiderata” quer dizer “conjunto de coisas que se desejam.“ (Vou pedir que o Caderno C abra um espaço para que ele seja publicado. Os que o lerem ficarão mais sábios, se souberem tirar coisas boas do tesouro...) Pois lá está dito, como um desejo: “Aceite com elegância o conselho dos anos, deixando graciosamente para trás os prazeres da juventude.“ O sentido não está explícito. O que eu tirei foi o seguinte: sendo os prazeres sexuais prazeres que o senso comum toma como prazeres da juventude, é preciso que os velhos aceitem com elegância as limitações da velhice, para não se tornarem ridículos: na velhice os prazeres do sexo vão também envelhecendo. Que ridículo Davi, indiferente, nos braços de uma linda jovem...

De fato, os prazeres da velhice não são iguais aos prazeres da juventude. Escrevi, faz muito tempo, sobre um casal de velhos que havia esperado mais de 50 anos para se casar. Morta a mulher do homem, morto o marido da mulher, os viúvos se encontraram para viver, no pouco tempo que lhes restava, o amor que ficara estrangulado. O velho, 79 anos, ressuscitou. A primeira mulher odiava violino. Ele amava violino. Resultado: para evitar ruídos vocais, ele deixou seu violino sobre o guarda-roupas, por mais de cinqüenta anos. Largado, as cordas do violino arrebentaram e arrebentadas ficaram... Ah! Que triste metáfora para a alma daquele homem, violino impedido de fazer música... Tomado pelo novo-velhíssimo amor, as cordas da alma se afinaram, o violinista ressuscitou do ataúde em que se encontrava preso, e tratou de reformar o violino que estava em cima do guarda-roupa. (Por vezes um violino é mais potente, sexualmente, que o corpo de uma donzela...) E o violino velho, esquecido dos prazeres da juventude, começou a tocar de novo. Essa metáfora me faz rir de alegria. Será isso? O corpo será um violino e a alma será uma música? Há, nos anais da psicanálise, o relato de uma pessoa que sonhava tocar violino em público – e o sentido do sonho era “masturbar-se em público“. Estou meio esquecido. Se não foi bem assim, peço que meus colegas me corrijam, para benefício dos leitores. O que nos interessa é essa deliciosa relação metafórica entre o instrumento musical e os instrumentos sexuais. Afinal de contas, fazer amor é sempre tocar um dueto. É preciso que os dois toquem para que o dueto soe como deve. E o amor foi enorme, no curto espaço em que durou. O violino não agüentou a intensidade da sonata: despedaçou-se antes que ela chegasse ao fim. O velhinho morreu aos 80 anos. Escrevi uma crônica sobre o acontecido. Pois algum tempo depois, recebo um telefonema de uma mulher desconhecida. Era ela! Por quarenta minutos me relatou com detalhes a alegria do amor que ela e o seu amado haviam vivido. E, ao término da conversa, me disse essa coisa linda que, toda vez que conto, choro de emoção: “Pois é, professor. Na idade da gente não se mexe muito (por favor! Observem o muito!) com as coisas do sexo. A gente vivia de ternura!“

De fato, sexo na velhice é muito diferente do sexo na adolescência. O adolescente, no seu estado normal, é um drogado. Não me entendam mal. Não estou dizendo que eles cheiram cocaína. Estou dizendo que eles são, repentinamente, invadidos por um vulcão de hormônios que não conheciam, demônios incontroláveis que deles se apossam, alojando-se preferencialmente em certas partes do corpo que se põem a mover dolorosamente, independentemente da sua vontade. Agostinho, no seu livro De Civitate Dei, já havia observado essa autonomia dos órgãos sexuais, que se movem sem permissão da razão, criando situações embaraçosíssimas, razão por que o Criador, compadecido da vergonha do homem, providenciou aventais que escondessem os seus genitais descontrolados. Vira um inferno. Não sei sobre as mulheres. Sei que, para os homens, o desejo sexual na adolescência é um sofrimento. Não dá sossego. O curioso é que ele irrompe gratuitamente, sem necessitar de nenhuma provocação. Não é preciso que o adolescente veja mulheres nuas, filmes pornô ou simplesmente tenha pensamentos libidinosos. O desejo sexual, na adolescência, independe de um objeto. É um desejo puro, bruto, irracional. Para quem não entende o que estou dizendo vou me valer de uma comparação: parece-se, em tudo, com o desejo de fazer xixi. A bexiga vai inchando, inchando, começa a doer, a dor vai crescendo, torna-se insuportável. Não há alternativa: é preciso esvaziar a bexiga. E aí é aquele prazer, aquela felicidade... O ato de fazer xixi, quando a bexiga está cheia, em tudo é comparável ao tesão e ao orgasmo, na adolescência. Creio, inclusive, que a análise que Freud faz do prazer sexual toma o ato de fazer xixi como modelo: o objetivo do prazer não é o prazer; é livrar-se da dor, voltar ao equilíbrio, à experiência budista de não desejar nada: nirvana...

Isso passa. Esse estado de perturbação hormonal é de curta duração. É como um cavalo selvagem, sem controle, desembestado, arrebentando cerca, pulando ribeirão, se atolando em charco... Depois o cavalo selvagem, poder puro, explosão atômica, destruição, vai ganhando forma. Da Vinci achava que os cavalos eram os animais mais belos, depois dos seres humanos... O poder selvagem ganha forma, descobre os limites. Poder bruto é feio. Como disse Nietzsche: “Quando o poder se torna gracioso, então a beleza acontece.” Surge então o sexo sob uma outra forma: a ternura. Aí os ditos órgãos descontrolados deixam de se movimentar por conta própria. Só se movimentam quando comovidos pela ternura da beleza... Sem a ternura da beleza eles ficam inertes. Os tolos acham que é impotência. Ou frigidez. É nada.

Depois a gente conversa mais...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Quintana comentado - Expectativa, fidelidade e (auto) traição

Sobre Mário Quintana

Eu adorava esse velhinho, mesmo sabendo que ele não foi velhinho a vida inteira. É assim... a gente mantém a imagem das pessoas naquele período que mais marcou nossas vidas, embora seja uma espécie de injustiça... egoísmo. Mas poetas e filósofos são públicos por opção e sabem que estão sujeitos aos surtos de possessividade de seus leitores.

Gostamos dessa imagem do velhinho sábio ou simplesmente do "nós amanhã". Estamos a todo tempo querendo pular etapas, por mais que esses sábios nos avisem em seus "conselhos" reflexivos de que experiências pessoais são intransferíveis. Bem... intransferíveis em termos, pois, plantam sementes nos jardins das nossas vidas, sem tempo certo para germinar, com a grande vantagem de nunca dizerem "não lhes avisei?". Afinal, quem avisa, inimigo é. Poetas e filósofos são amigos, principalmente no contraditório.

Os dois textos que escolhi de Quintana, mostram que passamos a vida inteira criando dependências e expectativas, depositando no(a) outro(a) a responsabilidade sobre a nossa felicidade. Isso acontece porque o ser humano é constituído de ego que, como um lobo insaciavelmente faminto, precisa ser constantemente alimentado. Faminto e exigente, pois, não é qualquer carne de cordeiro que pode saciar a sua fome. É um lobo seletivo que só busca iguarias e alimentos não indigestos, como a concordância, a fidelidade, a cumplicidade e o amor. Este último, bem mais complexo, envolve conceitos próprios e transitórios com percentuais variáveis dos três anteriores. A equação definitiva resulta num quarto conceito que é o da traição.

Quando desejamos nos livrar das pessoas que, de alguma forma a usamos e hoje nos incomodam, alteramos imediatamente a equação anterior. Isto acontece com amigo(a)s e amado(a)s, pois, poetas e filósofos não são afetados pelos nossos julgamentos situacionais. É quando normalmente traímos e somos traídos. Traímos a confiança e a nós mesmos. E como dói a traição! Às vezes, mesmo sem traí-las, tentarmos delicadamente devolvê-las para seus habitats, seja após uma crise de arrependimento, por estarmos cansados delas, por havermos encontrado um(a) substituto(a), sem notarmos que durante muito tempo as forçamos a respirar e viverem como nós.

O importante então é nos bastarmos, mesmo sabendo que, se nos "bastamos" somos egoístas; se nos entregamos somos fracos. E na aceitação ou negação dessas avaliações que a sociedade nos impõe, moldamos o nosso caráter; moldamos a nossa personalidade; moldamos as nossas vidas. E a melhor maneira de moldar as nossas vidas, faz-se pela forma - e não pela "fôrma" - como escreveu Mário Quintana:

"Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de fármacia durante 5 anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Veríssimo – que bem sabem (ou souberam), o que é a luta amorosa com as palavras."

Que o seu jardim seja de flores verdadeiras para que as borboletas polinizem e as abelhas não voltem sem o mel!

Que o seu peixinho machucado seja jogado de volta, logo depois de pescado. O rio e o mar cuidarão das feridas melhor que você e o seu remorso!


Boa leitura!


BORBOLETAS (Mário Quintana)

Quando depositamos muita confiança ou expectativas em uma pessoa, o risco de se decepcionar é grande.

As pessoas não estão neste mundo para satisfazer as nossas expectativas, assim como não estamos aqui, para satisfazer as dela.

Temos que nos bastar... nos bastar sempre e quando procuramos estar com alguém, temos que nos conscientizar de que estamos juntos porque gostamos, porque queremos e nos sentimos bem, nunca por precisar de alguém.

As pessoas não se precisam, elas se completam... não por serem metades, mas por serem inteiras, dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida.

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com a outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela. Percebe também que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem ou a mulher de sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você, e principalmente a gostar de quem gosta de você.

O segredo é não cuidar das borboletas e sim cuidar do jardim para que elas venham até você.

No final das contas, você vai achar, não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!


VELHA HISTÓRIA (Mário Quintana)

Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente.

E desde então, ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelo café. Como era tocante vê-los no "17"! o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial...

Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: "Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!..."

Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando... até que o peixinho morreu afogado... 


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Vencer o Medo

Este pequeno texto de Henry Miller é profundo. O medo, quando natural, nos protege; o medo, quando indiscriminado ou pontual, nos destrói, tentando deter ilusoriamente o fluxo da vida, como escreveu Miller. O medo está a ligado à ordem de valores porque nasce, muitas vezes, do instinto de proteção dos desejos do ego. Proteger o ego é tentar estancar o processo evolutivo quando, na verdade, ampliará a sensação de sofrimento no momento (inegociável) do aprendizado ilusoriamente eliminado. Trocar a coragem pelo prazer doentio da ilusão é o pior de todos os medos e omissões.

Complementa o filósofo Sêneca: "[...] nunca ninguém se atreveu a aproximar-se do que lhe perturba o espírito e a averiguar a natureza real e fundamentada do seu medo. Daqui resulta o crédito que se dá a um perigo inexistente, que mantém a sua aparência porque ninguém o contesta a sério. Basta que nos decidamos a abrir bem os olhos para verificarmos como é diminuto, incerto e inofensivo aquilo que receamos. A confusão dos nossos espíritos corresponde perfeitamente à descrição de Lucrécio: «tal como as crianças no meio da escuridão tremem com medo de tudo, assim nós tememos a plena luz!»"


Vencer o Medo

"Parecemos estar hoje animados quase exclusivamente pelo medo. Receamos até aquilo que é bom, aquilo que é saudável, aquilo que é alegre. E o que é o herói? Antes de mais nada, alguém que venceu os seus medos. É possível ser-se herói em qualquer campo; nunca deixamos de reconhecer um herói quando este aparece. A sua virtude singular é o fato de ele ser um só com a vida, um só consigo mesmo. Tendo deixado de duvidar e de interrogar, acelera o curso e o ritmo da vida."


"O covarde, ao contrário, procura deter o fluxo da vida. E claro que não detém nada, a menos que detenha a si mesmo. A vida continua sempre a avançar, quer nos portemos como covardes, quer nos portemos como heróis. A vida não impõe outra disciplina - se ao menos o soubéssemos compreender! - para além de a aceitarmos tal como é."


"Tudo aquilo a que fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos, acaba por contribuir para nos derrotar. O que nos parece sórdido, doloroso, mau, poderá tornar-se numa fonte de beleza, alegria e força, se o enfrentarmos com largueza de espírito. Todos os momentos são momentos de ouro para os que têm a capacidade de os ver como tais. A vida é agora, são todos os momentos, mesmo que o mundo esteja cheio de morte. A morte só triunfa ao serviço da vida."

Henry Miller
(Romancista - EUA)
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