quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O STF e sua percepção infra-sensorial

"O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello disse ao iG que mereceria ganhar um pouco mais que os R$ 26,7 mil que recebe mensalmente. E não só ele, mas todos os servidores públicos. Ele usa com principal argumento a Constituição. 'O que nos vem da Constituição? Que os servidores têm direito ao reajuste dos vencimentos uma vez por ano, visando repor o poder aquisitivo da moeda', diz."

"'Temos uma inflação; pequena mas temos. Eu hoje, por exemplo, que estou sem reajuste há vários anos, já não percebo o que eu percebia cinco, seis anos atrás. E continuo prestando os mesmos serviços. Há um desequilíbrio na equação e, portanto, um enriquecimento ilícito do próprio Estado', completa." (Fonte IG)

Não há como deixar passar esse duplo sentido da palavra PERCEBER que o ministro utilizou para se referir ao recebimento de seus vencimentos: "... já não percebo o que eu percebia cinco, seis anos atrás."

O senhor não está sozinho, ministro. Com algumas raras exceções, todos os outros ministros também não estão PERCEBENDO e vou mais longe ainda... não "percebiam", não "percebem" e dificilmente "perceberão", pois, vivem num país completamente diferente daquele dos brasileiros, cidadãos comuns.

Não percebem que até hoje não condenaram políticos corruptos, mas apenas laranjas e ladrões de galinha que devem ter percebido alguma coisa dos verdadeiros culpados para livrar a cara deles;

Não percebem que estamos cansados de ver tantas decisões injustas respaldadas pelo frágil e etéreo argumento da inconstitucionalidade que nem mesmo entre vocês é consensual;

Não percebem que moramos em um país onde idosos, mulheres grávidas e crianças doentes esperam para serem tratados nos chãos dos corredores dos hospitais públicos. Já os senhores se internam no Albert Einstein às nossas custas, mesmo quando acometidos por leve constipação;

Não percebem a violência nas ruas, pois, os senhores e seus parentes andam em carros blindados e moram em mansões protegidas por empresas de segurança... e tudo pago, de uma forma ou de outra, por nós contribuintes;

Não percebem que aos poucos, mesmo lenta e deficientemente pela qualidade de ensino e pelo salário miserável que os professores recebem, o povo já não é mais o mesmo e está mais informado do que antes sobre as falcatruas e roubos do erário, seja pela internet ou pela imprensa;

Não percebem que estamos cansados de ler notícias como:
  • STJ gasta R$ 39,4 mil em novas televisões;
  • STF gasta R$ 53 mil com aluguel de um carro;
  • Obras no Judiciário custarão quase meio bilhão em 2012;
  • STF gasta R$ 38 mil na compra de dois fornos de cozinha;
  • STF gasta R$ 107,7 mil na compra de poltronas;
  • Supremo encomenda R$ 56,7 mil em frutas;
  • STF vai pagar R$ 16,8 mil em calendários para 2011;
  • STF reserva R$ 4,5 mil para compra de 20 umidificadores;
  • STF vai gastar R$ 35 mil para alugar carros blindados;
  • ... e muitas outras mais.
Ninguém está dizendo que esses gastos não foram previstos ou são irregulares, mas numa conta rápida, podemos afirmar que só eles representam R$ 850 mil, equivalentes a 45 casas populares. Sem contar os míseros 3,5 milhões por ano que os 11 ministros recebem (menos benefícios), equivalentes a outras 180 casas.

Vossas Excelências não percebem, mas nós percebemos. Percebemos que ganham mais do que têm feito por merecer, julgando liminares em causa própria e impedindo o trabalho da corregedoria; obstruindo o Ficha Limpa, permitindo prescrições de penas e deixando ladrões do erário impunes e à solta, absolvidos por argumentos tecnicistas de inconstitucionalidade.

Sinceramente... lendo abaixo o preâmbulo da Constituição, será que conseguem perceber as injustiças e desigualdades que existem ainda neste nosso Brasil de povo servil?
"Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte, para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil".
É, eu sei... não conseguem perceber mesmo. Só percebem o salário que percebem.


Leia Também:
  1. A Justiça é cega, mas a injustiça pode ser vista.
  2. Se cair a ficha, que seja a do Supremo.


2 comentários:

regina helena disse...

Comentário excelente, verdadeiro, é a nossa realidade. A justiça não funciona, pessoas que deveriam estar presas há muito tempo estão livres, leves e soltas aprontando as mesmas coisas, sem medo da punição. Os acusados com dinheiro ou com advogados caros ou corruptos ou amigos dos juízes se aproveitam das várias oportunidades de apelação e levam o processo por anos a fio e acabam se livrando das penas. Isso é uma vergonha, como o caso do mensalão que segundo um dos ministros do STF pode ser julgado somente no ano que vem com o risco do processo caducar e dessa quadrilha se ver livre de todas as acusações.

Pura Reflexão disse...

Obrigado pelo comentário, Regina Helena. Os deuses vivem em Pasárgada. São amigos do Rei e sabem...

Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive.

(...)

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização

Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

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