sexta-feira, 29 de abril de 2011

Súditos, plebeus e vassalos do século XXI

Algumas pessoas ficam bravas comigo quando desmancho a fantasia do casamento do príncipe William e da plebéia Kate Middleton. É que para mim, mesmo achando tudo muito bonito, é um filme de ficção como qualquer outro de final feliz, pois, a realidade do mundo tem um enredo bem menos fantasioso. E quando falo em realidade, não me refiro só ao negativo da miséria e da desigualdade social, mas à mais pura e simples realidade da vida. Nossas melhores reflexões são as que praticamos quando nos "desplugamos" do inconsciente coletivo e nos conectamos ao livre pensar, alheios às emoções e comoções induzidas, principalmente as promovidas pela imprensa.

E qual é essa realidade da vida?

A realidade de que vivemos para nós mesmos e para o mundo, e não para um país e suas tradições. Uma realidade que precisa do nosso trabalho, da nossa compaixão e do nosso sentimento de justiça para com todos. Uma justiça que, para ser fraterna e humana, exigiria que o buquê de flores da princesa Kate em homenagem as vítimas da guerra, não homenageasse apenas os "mortos deles", mas todos aqueles que deram suas vidas por causas emprestadas e que lhes foram impostas sob a máscara do patriotismo. Contaminados pelo sarampo nacionalista - doença infantil como Einsten qualificava esse sentimento - lutaram para enriquecer os senhores feudais e a realeza.

Essa desigualdade de quinhentos milhões da família real britânica foi construída às custas de muitas mortes, da exploração de suas ex-colônias e de seus súditos. Tudo bem, foi num passado em que todos os povos eram  assim, mas por que cultuar e manter as tradições oligárquicas desse triste e atrasado período da história?

Súditos? Plebeus? Oras... essas palavras ofendem qualquer ser humano que tenha o mínimo de auto-estima, pelos seus próprios significados:
Súdito: adj (lat subditu) 1 Que está sujeito à jurisdição ou às ordens de um superior (autoridade eclesiástica, príncipe, soberano de um Estado etc.). 2 Que está dependente da vontade de outrem; sujeito; submetido. 
Plebeu: adj (lat plebeiu) 1 Pertencente ou relativo à plebe. 2 Que não faz parte da nobreza. 3 Destituído de distinção; ordinário, vulgar. sm Indivíduo da plebe. Fem: plebéia.
Você se classificaria racionalmente nessas duas classes de seres inumanos? Aceitaria ser um "submetido" (submisso) e um "ordinário" conforme os significados "reais" dessas palavras? Oras... às favas essas tradições num mundo já (quase) convencido de que todos somos merecedores de dignidade e dos mesmos direitos! Que espécie de tradição estúpida é essa que mantém viva na memória a oligarquia dos tempos do barbarismo e das injustiças? Reparem que esses dois termos (súditos e plebeus) são utilizados apenas pela família real e por nós, "os outros" de outras nações quando nos referimos ao "resto" do povo britânico.

Então, não fiquem chateados comigo quando desprezo toda essa pompa hipócrita. Não se trata de discurso comunista, iluminista ou socialista, mas sim, humanista. O ser humano não pode ser classificado e muito menos subjugado por sua condição sócio-econômica, sua árvore genealógica ou traços de hereditariedade. Quando aceitamos essas diferenças, estamos aceitando papéis secundários e utilizando mal a nossa empatia, colocando-nos no lugar de pessoas que nunca chegaremos a ser, apenas para podermos sonhar um sonho impossível e fomentar o sentimento de extrema desigualdade que a tradição e o interesse de poucos nos impõem. Oitenta milhões de dólares numa cerimônia paga com impostos de seus vassalos. Bem que poderiam passar a lua de mel em Serra Leoa, antiga colônia britânica e que, hoje, é o país mais pobre do mundo. Seria um "belo" contraste.

Que o príncipe e a princesa sejam felizes... afinal, são frutos dessa tradição que ainda resistirá por algum tempo, até que um herdeiro do trono se humanize ou a própria plebe britânica se revolte. Vale também para os regimes presidencialistas com reis, rainhas e câmaras de lordes tupiniquins.

O importante no mundo de hoje é que TODOS de sangue vermelho tenham o direito de viver felizes para sempre!






3 comentários:

Cláudio Ferigoli disse...

Sabe Xará, compartilho boa parte de seu texto de hoje. Também eu fiquei a parte de toda a festa, imaginando como se pode gastar uma fortuna dessas quando tantos ainda passam fome pelo mundo... Vivemos mesmo num mundo desigual que, como vc. mesmo disse, levará muito tempo para ser modificado... A mídia adora isso tudo e faz parte de sua missão perpetuar esse tipo de conto de fadas... Intrinsicamente não tenho nada contra a NOBREZA, quando esta palavra tinha realmente um sentido "nobre", mas isso se desvirtuou ao longo dos séculos. Porque o nobre deveria ser um grande espelho para o resto da nação... Mas os gestos nobres hoje estão dissiminados por outras categorias de pessoas, que não necessariamente nas casas reais... Mas como ainda vivemos na barbárie, só nos resta mesmo lamentar toda pompa e circusntância...

Rafaela Andrade disse...

Olá! Sua análise social está em conformidade com a realidade, são muitos os aspectos a ser considerados. Eu destacaria um ponto diferente: o sonho e o bonito. Concordo que pra uma minoria que se engrandece as custas dos outros, mas um casamento, uma cerimonia diferente... O noticiário só divulga desgraça e coisa ruim. Hoje eu acordei e vi uma cerimonia e não o bebe que foi abandonado, o fulano assassinado, é preciso falar de outras coisas também.
Um abraço
Rafaela

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Pura Reflexão disse...

Cláudio, xará... é verdade sobre o significado da palavra "nobre" que não deveria estar apenas ligado à classe social, mas à nobreza de atitudes. Naquele tempo reduziam os homens à insignificância de um plebeu porque não lhes davam acesso à cultura e poucos sabiam ler e escrever. Era interessante os manter longe da educação para conservar a oligarquia. Abraços e obrigado por comentar!

Rafaela... sem dúvida, a beleza do ouro, das vestimentas bonitas e da pompa alegram os nossos olhos e não há como negar. Se compararmos às notícias que exploram a miséria humana, aí não há comparação mesmo! No entanto eu tentei abordar um aspecto pouco comentado, que é a origem dessa riqueza toda, a forma como valorizam o superficial e o desprezo à desigualdade humana. A imprensa não analisa os fatos de uma forma realista. Eles dizem que o jornalismo deve mostrar apenas os fatos, o que eu concordo, mas o interessante é que quando pisam em seus calos ou se trata de assunto do seu próprio interesse, esquecem-se rapidamente do aspecto jornalístico e partem para as suas análises e defesas. Acho que a imprensa deve ajudar as pessoas a refletir e tirar as suas próprias conclusões, sem omitir parte da história. Obrigado por comentar! Abraços.

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