domingo, 30 de setembro de 2012

O aparente paradoxo do amor racional

Alguém já viu Deus? Ele é bonito, inteligente, tem voz, semblante e sorriso suaves? Nunca viu? Ah, pra você Ele é despersonalizado, representado por uma energia amórfica da qual emana a paz e o amor incondicional?  E como consegue amá-lo pelo que dizem que Ele é e pelo que você acredita que Ele seja? Fundamentado apenas na sua fé? E por que só para esse casos você privilegia sentimentos mais nobres e mais sutis?

Certamente vocês me dirão que o amor por Deus é um amor diferente dos outros e eu perguntarei: por que então, tanto o incondicional de Deus quanto o carnal da paixão têm o mesmo nome? Não acham que deveriam então dar um diferente para um desses dois sentimentos definidos pela mesma palavra? E se dessem outro nome a um deles, qual dos dois mereceria permanecer como AMOR... pura e simplesmente AMOR? O amor por uma pessoa ou o amor incondicional?

É lógico que o verdadeiro amor não é só o incondicional. O amor terreno também pode existir por toda a vida, desde que tenha valores mais nobres e menos frágeis como sexo, status e dinheiro. Os que confundem amor com tesão, normalmente vinculam a eternidade desse amor com a libido ou desejo sexual eterno. Pessoas que mantém o mesmo desejo com a(o) mesmo(a) parceiro(a) até o fim da vida são pontos fora da curva e os primeiros eliminados nos cálculos estatísticos que avaliam os hábitos da média do ser humano. Manter o mesmo apetite sexual é particularidade genética ou mental atípica e só quando duas pessoas com esses mesmos desvios se encontram é possível viver um caso de amor carnal por toda a vida. E este é um dos motivos pelo qual muitas pessoas pulam de galho em galho buscando a paixão eterna, frustrando pessoas e colecionando mágoas. Ainda acreditam em romeus e julietas; em príncipes e belas adormecidas; em contos de fadas; em amor perfeito. Disse o escritor russo Lev Tosltoi sobre o amor carnal: "Dizer que se vai amar uma pessoa a vida toda é como dizer que uma vela continuará a queimar enquanto vivermos."

Nenhum amor suporta constantes necessidades de provas; nenhum amor sobrevive a um sonho idealizado em conto de fadas; nenhum amor se conserva por meio dos instintos sexuais do casal, assim como da admiração pelo status e pela saúde da conta bancária. Sim, esses valores compõem a química da aproximação e são importantes, mas certamente balançarão com o tempo. Por isso é imprescindível usar a razão para escolher, assim como a empatia e a tolerância para manter o amor sólido. O amor não sobrevive a duas ordens de valores distintas em seus pontos fundamentais e não é difícil perceber esta diferença logo após a aproximação, mesmo impulsionada pelos instintos de perpetuação da espécie identificados por Freud.

O amor duradouro, por mais paradoxal que pareça, é o amor racional.


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