quarta-feira, 13 de julho de 2011

Os antiéticos e os aéticos - Mario Sergio Cortella

Quem tem princípios e valores para decidir, avaliar e julgar está submetido ao campo da ética.

Existe alguém sem ética, posso falar que alguém não tem ética? Ou eu devo dizer que aquilo é antiético? Aquele que frauda o imposto, aquele que pratica corrupção, aquele que pára o carro em fila dupla praticou um ato não ético ou antiético? Posso eu dizer que alguém não tem ética? Não. Por quê? Porque, se você tem princípios e valores para decidir, avaliar e julgar, então você está submetido ao campo da ética.

Não existe "falta de ética". Essa expressão é equivocada, talvez o que se queira dizer é: "Isto é antiético", algo contrário a uma ética que esse grupo compartilha e aceita. Posso dizer que um bandido tem ética? Posso. Ele tem princípios e valores para decidir, avaliar, julgar. O que eu posso dizer é que a ética que ele tem é contrária à minha e à sua. Então, é antiético. Não confunda aético - isto é, aquele a quem não se aplica a questão da ética - com antiético.

As situações em que você tem de decidir “sim ou não" o colocam num conflito. Uma palavra que designa conflito ético é, como falamos antes, “dilema”. Dilema é quando você quer os dois, por isso é que seu prefixo é "di". Os dois podem ser escolhidos, mas apenas um é eticamente correto. Se você tem autonomia e liberdade, vive dilemas éticos. Não tem como não vivê-los. E você a eles vai sobreviver melhor quanto mais tiver claro quais são seus princípios e valores.

Existe algum tipo de ser humano que eu posso dizer que é aético? Sim, aquele que não puder decidir, avaliar, julgar. Por exemplo, o Imposto de Renda tem uma legislação que permite que seja seu dependente quem for incapaz: o menor até determinada idade, uma pessoa com muita idade, pessoas com algum tipo de deficiência.

A ética é o conjunto dos seus princípios e valores. Portanto, é muito mais do campo teórico. A moral é a prática, é o exercício das suas condutas. Eu tenho uma conduta no dia-a-dia, chama-se conduta moral. A ética são os princípios que orientam a minha conduta. Do ponto de vista teórico, ética e moral não são a mesma coisa. Estão conexas. Eu posso dizer que algo é imoral, mas não posso dizer que é aético. É imoral quando colide com determinados princípios que uma sociedade tem.

Um deputado que frauda o orçamento tem ética? Tem. Tanto ele tem uma ética, que, aquilo que a ele não pertence, pode ser tirado para ele. Aí, ele tem uma conduta moral, que é fraudar o orçamento. Um policial que aceita propina para não multar você, tem ética? Tem. E aquele que oferece a propina? Também tem. Toca o seu celular, é a sua esposa ou o seu esposo que está no consultório médico e precisa fazer uma pequena intervenção cirúrgica. A enfermeira acabou de fazer a ela a seguinte pergunta: “Com recibo ou sem recibo?" E ela está o consultando sobre a sua resposta. Você responderá a isso de acordo com os seus princípios e valores. Portanto, existem morais particulares, mas a ética é sempre de um grupo, sempre de uma estrutura maior, porque não existe razão para você ter princípios de conduta e valores se você vive só.

Eu, Cortella, fui criado em Londrina, no Paraná, até os 13 anos de idade, e meu pai, Antonio, era gerente de banco. Houve uma época em que o gerente morava na agência. Eu morei muitas vezes na agência do banco em Londrina, em Maringá, em Marialva. Até certa idade, meu lugar de brincar no banco era dentro do cofre. E houve uma época em que não havia transferência eletrônica e era tudo dinheiro vivo, portanto, o cofre era grande. Eu nunca esqueço a primeira vez em que eu entrei no cofre da agência, com seis anos de idade. Na hora em que eu fui entrar, meu pai chegou por trás de mim, pôs a mão no meu ombro e disse: "Filho, o que não é teu não é teu". Esse princípio ético orienta a minha existência.

Aliás, eu fui Secretário de Educação da cidade de São Paulo, movimentava um orçamento de quase três bilhões de reais anuais e, a cada passo que eu ia dar, a voz que ecoava: "O que não é teu não é teu". Quer ver um exemplo? Durante a minha gestão na secretaria, Pedro, o meu filho mais novo, tinha quatro, cinco anos de idade. Todos os dias, às sete da manhã, estava na porta do prédio onde residíamos o carro oficial me aguardando. Assim que eu saísse rua a fora, o carro, por segurança, mesmo comigo fora dele, tinha que me acompanhar. Às vezes eu saía com o Pedro, e o levava a pé para a escola, ele entrava às 7h15. E 15 minutos era o tempo que eu levava para subir os quatro quarteirões até a escola dele. E eu subia a avenida segurando o Pedro pela mão e o carro ia nos acompanhando bem devagarinho. A hora em que eu entregava o Pedro na escola, eu entrava dentro do carro.

Podia eu usar o carro oficial com o Pedro? Podia. Devia? Não. Por que não? Porque não era meu. E se não era meu, porque eu iria usar? Porque eu estava no serviço. Ah, mas o carro não estava subindo mesmo a avenida? Se ele já estava subindo, já estava gastando tempo, gastando a segurança, gastando o combustível, o que custava botar o Pedro dentro e subir? Não era ridículo eu andar a pé e aquele Opala de oito cilindros ir ao lado devagarzinho? Queria eu entrar? Às vezes. Às vezes, estava chovendo, frio. Queria, mas não devia, embora eu pudesse. Eu vivi ali um dilema ético.

Mas somente de acordo com os princípios e valores que eu tivesse para decidir, julgar e avaliar, iria conseguir com que a minha consciência ficasse em paz.

Do livro: "Qual a tua Obra?" de Mario Sergio Cortella












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