quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Fé é coisa de religiosos?

O excesso de dogmas, religiões e da auto-ajuda baseada em processos automáticos e repetitivos transformaram o ser humano num animal racional cético em relação ao seu próprio potencial mental mais sutil. Segundo esses céticos, admitir a a existência de uma força maior que extrapola o seu raciocínio lógico é sinal de fraqueza, pois, apenas o cognoscível pode ser chamado de real.

Não vou ficar relacionando fatos que não podem ser comprovados pela falta de um ou mais elementos do processo cognitivo (atenção, percepção, memória, raciocínio, juízo, imaginação, pensamento e linguagem), pois, só o fato desse processo considerar elementos complexamente relativos como percepção e imaginação, já fariam com que as provas da existência desses fatos (ou realidades) fossem tão relativas quanto as suas contra-argumentações.

O filósofo Nietzsche, por exemplo, relativiza a realidade e a verdade na pergunta: "A linguagem é a expressão adequada de todas as realidades?" e em outro momento afirma que  "(...) quando os instintos vitais não podem agir no mundo exterior, quer dizer, quando são reprimidos, sua direção é invertida, voltando-se para dentro: cria-se a interioridade, crescendo no homem o que depois será chamado de alma"

Como tudo depende de interpretação, o fato do ser humano buscar o seu interior quando não consegue uma explicação lógica para as realidades que constata - não consegue exprimi-la ou as questiona buscando uma resposta - não significa que elas não possam ser aceitas como realidades simplesmente porque a resposta veio de seu interior. Oras... se a percepção da verdade promoveu a aquietação do seu sentimento de dúvida, não será a subjetividade vista por uma outra pessoa ou definida por conceito externo que destruirá esta sua realidade sentida.

Já as realidades sociais ou exteriores, podem ser refletidas com a afirmação de Marx/Engels:

Desde o início pesa sobre o ‘espírito’ a maldição de estar ‘contaminado’ pela matéria, que se apresenta sob a forma de camadas de ar em movimento, de sons, em suma, de linguagem. A linguagem é tão antiga quanto a consciência – a linguagem é a consciência real, prática, que existe para os outros homens e, portanto, existe também para mim mesmo; e a linguagem nasce, como a consciência, da carência, da necessidade de intercâmbio com outros homens.

Com esses dois conceitos distintos (de Nietzsche e Karl Marx/Friedrich Engels) a realidade ganha aspectos diferentes que não se anulam, mas apenas se relativizam nos conceitos de REALIDADE INTERIOR (pessoal e individual, baseada nos próprios sentimentos) e de REALIDADE SOCIAL (exterior, baseada em necessidades sociais de senso comum), sendo esta última, auto-explicativa.

A REALIDADE INTERIOR sentida (mais conhecida como fé) pode ser também dividida em outras duas que se diferenciam pelo tipo de convencimento ao qual sujeitamos a aceitação da realidade questionada: à existência de um ser morfologicamente definido (1 - objeto, pessoa, santo, guru, Deus ou deidade) ou à uma força/energia superior amórfica (2 - aceitação da existência de uma força única "creadora"). Ambas têm seus reforços internos das verdades baseados em resultados obtidos, pois, são eles que realimentam e fortalecem essas verdades sentidas (fé).

O maior problema da primeira fé (imagem de um objeto ou ser morfológicamente definido) está no fato de incentivar o culto à imagem ou personalidade além de tender ao fanatismo. Faz com que o indivíduo dependa única e exclusivamente de uma visualização bem definida, seja por meio de frases proferidas e/ou de imagens físicas criadas/reproduzidas. Essa dependência de estímulos auditivos e visuais, acaba inibindo os que não os aceitam, impedindo-os de explorar suas forças mentais mais sutis, que são reais e existem, independentemente do tipo de fé que que será utilizada para os desenvolver. Pior do que não aceitar a existência dessas forças é negá-las, resumindo o ser humano num animal pensante de pernas, pés, braços, mãos, tronco, pescoço e cérebro somados aos bens que possui, à sua família e seu status social.

Se esse ser generalista cético parar de recusar o não experimentado e resolver interiorizar-se tentando vivenciar algo mais profundo por meio da meditação não-contemplativa (transcendental) ou de outros recursos técnicos (yoga ou relaxamento), certamente conseguirá notar resultados palpáveis em sua vida e que lhe abrirão portas nunca antes abertas. O sentimento de paz interior e bem-estar serão os primeiros de inúmeros outros que se sucederão.

Para estimular o início de uma nova etapa na sua vida, comece fazendo duas perguntas para você mesmo: "O que este meu ceticismo me proporcionou de benefícios reais até agora? Se proporcionou, o que a ausência dele me proporcionaria a mais?

Pense bem... negar sem primeiro experimentar é permanecer sendo o que você é. Se hoje você acha está bom do jeito que está, significa que ainda não é o momento. O "não estar satisfeito" é apenas uma questão de tempo e circunstâncias. Não necessariamente de problemas.

3 comentários:

Madame Brazil disse...

Nem a fé é coisa de religioso e nem a física coisa de ateu. Estou gostando de ler "O Tao da Física" de Fritjof Capra. Um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental.

PaulinhaDeiró

Pura Reflexão disse...

Capra é uma boa leitura, Paulinha. Leia também se puder "Einstein, o Enigma da Matamática", de Huberto Rohden". Abraços e obrigado por comentar.

Sofisticado disse...

Olá, por acaso em mais uma navegação despretenciosa encontrei seu blog. Fiquei feliz por achar alguem com grande similaridade de pensamento.
A meu ver a fé é mais um produtodo homem feito para o homem. Mas é uma teoria apenas. Preciso de mais dados para evidenciar meu pensameto.
Muito bom seu blog. Parabens.

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