segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Crítica, julgamento e veredicto - Ensaio II

Vivemos das nossas ilusões. Não enxergamos o que vemos, mas o que desejamos ver. E dessa visão seletiva nasce e borbulha a fonte do nosso julgamento. Ninguém consegue viver sem julgar; ninguém julga sem morrer um pouco.

O que nos incomoda é o julgamento ou a condenação? Alguém reclama quando é absolvido, seja por um tribunal, pela sociedade ou por uma só pessoa? Não... ninguém reclama dizendo: Você me absolveu! Julgamento é um processo que avalia os prós e contras para determinar uma escolha. No entanto, como o ser humano é especialista em unificar significados para defender seu ego, unificou as palavras CONDENAÇÃO e JULGAMENTO, sendo que uma (Julgamento) é um processo e outra (condenação), o veredicto. Quando se diz, “você me julgou”, na verdade se quis dizer "você me condenou".

O julgamento faz parte do ser humano e não há nada de errado em julgar, desde que seja um processo interno; desde que não se rotule o objeto do julgamento; que não nos fechemos para uma reavaliação constante. Um processo sem veredicto, dinâmico e inconclusivo, utilizado apenas para escolhas momentâneas e não definitivas.

A verdade, a mentira; o bem, o mal; o certo e o errado fazem parte do dualismo móvel que modela a nossa essência. Nas religiões e nos dogmas, por exemplo, o dualismo é estático porque necessita impor verdades, pois, aceitar o dinamismo da evolução e mudar seria transformar verdades-leis em contradições diante de seus seguidores. As religiões com as suas verdades transformaram a humanidade numa confraria de seres inflexíveis e intolerantes.

O problema não está em julgar, mas em declarar publicamente o veredicto, seja ele de absolvição ou condenação. O problema está em rotular e influenciar pessoas. O problema está em não julgar a si mesmo com a mesma assertividade e eficácia com que se julga o outro.

O filósofo Arthur Schopenhauer em "Aforismos para a Sabedoria de Vida", faz uma reflexão sobre a crítica e a auto-crítica, comparando o crítico com um cão que late na frente do espelho, sem entender que aquilo que vê é um reflexo da sua própria imagem.

Por outro lado, quase que inconscientemente, quem critica trabalha para sua própria melhoria, submetendo secretamente suas próprias omissões e ações aos parâmetros da sua consciência, embora motivado pela observação do comportamento alheio.

Este processo de crítica e auto-crítica, mesmo não sendo público, é a base evolutiva do ser humano. Latindo para a imagem do espelho, essa variação pensante de cão acaba guardando suas incoerências num determinado cantinho do inconsciente e, mais cedo ou mais tarde, as encontrará nas faxinas dos porões da alma.

Tarde demais?

Não! Só se faz faxina no momento certo. Depende da tolerância de cada um à poeira acumulada com o tempo.






Julgar não é condenar e absolver não é perdoar. Julgamos quando precisamos decidir; perdoamos quando compreendemos.

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