sábado, 8 de janeiro de 2011

E a natureza avança e responde

Chuvas! Voltam todos os anos e voltarão sempre. Não existem desastres mais previsíveis que os provocados por elas. Áreas de risco, avisos da Defesa Civil, enfim, as chuvas trazem também uma pergunta com elas. Quais são os verdadeiros responsáveis pelas tragédias que acontecem? No caso de enchentes em cidades como São Paulo, é certo que existe o lado da consciência de não jogar lixo nas ruas ou deixá-lo acumulado, mas, em última análise, quais os responsáveis pela fiscalização, limpeza e de promover conscientização?

Na verdade não se pode culpar especificamente ninguém, mas se houver culpados, certamente serão os homens e jamais a Mãe Natureza. Não pelas chuvas em si, mas pela força cada vez destruidora com que elas atuam, amparadas pela lei maior: a Lei do Retorno. E enquanto os cientistas se dividem em suas teorias explicativas, a natureza avança e responde, completamente indiferente a todas as hipóteses levantadas pela ciência.

Mas como o ser (des)humano é mestre em procurar culpados, começa culpando os ingleses do século XVIII pela invenção da primeira máquina a vapor. E descobrem então que tudo começou na Inglaterra com a Revolução Industrial que fortaleceu o capitalismo. Mas a natureza avança e responde, indiferente ao local e a época em que tudo começou.

E assim caminha a humanidade, com os homens apontando seus dedos uns para os outros, correndo atrás do que chamam de progresso e rastejando-se no que antes chamavam de consciência. E enquanto o homem aponta, corre e rasteja, a natureza avança e responde, completamente indiferente aos dedos dos homens e aos culpados que eles apontam.

As chamadas potências mundiais, cada vez mais cegas, armadas e ricas, contratam cientistas do mal para tentar provar o improvável e teimar em negar o inegável: de que o planeta caminha irresponsavelmente para o caos. E enquanto essas potências potencializam a irracionalidade, a natureza avança e responde, indiferente ao poder econômico e ao poderio militar que eles tanto valorizam.

E por fim, os governos. Todos, em todos os níveis, permanecem passivos diante das probabilidades de trajédias nas áreas de risco que estão sob a sua responsabilidade e, diante também do fato consumado, responsabilizam o volume das chuvas pelas mortes que não assumiram a responsabilidade de tentar evitar. Limitam-se a dizer que a Defesa Civil alertou, mas os moradores se recusaram a sair, numa tentativa maldosa de se esquivarem das suas responsabilidades e protegerem a imagem ameaçada. Para eles, esses pobres coitados que moram pendurados nos morros, nos três anos não-eleitorais de tragédias pontuais, não passam de cidadãos teimosos que insistem em colocar suas vidas em risco. Já nos períodos eleitorais, ganham dos políticos oposicionistas o status de vítimas da iresponsabilidade do executivo insensível, mas o que acontecerá se a oposição se tornar governo? E em meio a esse moto perpétuo da disputa eleitoral sem limites, a natureza avança e responde, indiferente a todo esse empurra-empurra de responsabilidades e brigas pelo poder.

Sim, junto com o capitalismo selvagem, os governos são os maiores responsáveis por essas essas tragédias. Moro numa região que se chama Serra da Mantiqueira, forrada de favelas penduradas nos morros, na cidade de Campos do Jordão que é chamada de "A Suiça Brasileira" pelos turistas. Uma Suiça que, como seu consagrado queijo, não consegue esconder os buracos reais e potenciais que permeiam as encostas dos seus morros; das favelas neles encrustradas e que começam a ser vistas logo ao se passar pelo portal da cidade e permanecem por quilometros acompanhando sua avenida principal. Favelas que, ao contrário dos grandes centros, não podem ser escondidas por muros, por mais altos que a engenharia tente construir com a sua tecnologia; à revelia dos políticos que administraram e administram a cidade; à revelia de todos os outros da região, do estado e do Brasil que passam e que gostariam de escondê-las de suas vistas como conseguem fazer nos condomínios fechados de suas metrópoles.

Em 2000, perto de dez pessoas morreram em Campos e mais de cem ficaram desabrigadas com deslizamentos nos morros. Dez anos se passaram e quase nada foi feito em termos de investimentos para a construção de casas populares em locais mais seguros e relocar os que ainda se encontram em áreas consideradas de risco. Locais estes apontados pelo relatório que foi apresentado pelo setor de geologia e sensoriamento remoto do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) em 2005, cinco anos após a tragédia. Dez anos se passaram e praticamente nada foi feito. Começaram as chuvas e junto com elas, as nossas orações.

Há uma verba de aproximadamente 500 milhões do governo federal para a prevenção de desastres que precisa apenas de um projeto para ser requisitada e nenhum governo municipal de Campos do Jordão até agora se dignou a fazer um só projeto para utilizá-la. Não há desculpa de falta de verbas, pois ela não é municipal nem estadual.

É insensibilidade e incompetência mesmo.










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