sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Preconceito, vingança e consciência

No dia 20 de novembro, dia este em que se comemora o "Dia da Consciência Negra", aproveito para induzir todos à reflexão sobre os temas preconceito e vingança, sejam eles provocados por ações inconscientes, conscientes, implícitas ou explícitas, motivadas ou motivando ações fundamentadas em qualquer natureza ou propósito.

É difícil perceber o quanto é estreita a ligação entre o preconceito e a vingança porque a reação sempre foi considerada mais justa e, consequentemente, mais tolerável do que a ação. É difícil perceber que também existe ação dentro da re-ação e agir em resposta a um estímulo não define a razão e muito menos encerra a necessidade de reflexão.

Ao invés de simplesmente calcular a (des)proporção entre as forças de ação e re-ação e aumentar a mais fraca para atingir o equilíbrio entre elas, é preciso entender que, em se tratando de razões humanas, será muito mais fácil reduzi-las fazendo com que tendam a zero, número que representa a igualdade absoluta. Forças baseadas em razões e princípios subjetivos podem sempre ser aumentadas, mas, igualadas, somente se reduzidas a zero. Independentemente de ser ou não possível atingir a igualdade perfeita, só caminhando para esse objetivo poderemos colher frutos, mesmo sem atingi-la em sua plenitude.

E só existem três formas para iniciar a desaceleração dessas duas forças: a lei, o perdão e a consciência. A lei inibirá a impulsividade; o perdão, a reação. A consciência virá com a paz, que nos concederá a tranquilidade necessária para aceitar o convite à séria reflexão de que somos todos seres humanos irmãos reais e naturais, independentemente de dogmas, filosofias e religiões.

Abaixo, um texto do escritor e ensaísta francês, Marquês de Vauvenargues para refletir sobre o tema vingança.



"Das Leis do Espírito"

O duelo nasceu da convicção natural de que um homem não suportaria injúrias de outro homem a não ser por fraqueza. Porque a força do corpo podia dar às almas tímidas uma vantagem considerável sobre as almas fortes, introduzindo igualdade nos combates e dando-lhes mais decência. Utilizar num combate, armas mais mortíferas e iguais do que as que tinham recebido da natureza e que poderiam tirar a vida em um só golpe, teria certamente mais nobreza do que uma briga vil em que, no máximo, se poderia arranhar a cara do adversário ou arrancar-lhe os cabelos com as mãos.

Assim, nossos pais se vangloriaram de ter colocado mais elevação e mais elegância na vingança que os romanos e gregos, que se batiam com os seus escravos. Achavam que aquele que não se vinga de uma afronta não tem coragem nem brio; não atinavam que a natureza, que nos inspira a vingança, poderia se elevar ainda mais, inspirando-nos o perdão.

Esqueceram-se de que os homens são obrigados muitas vezes a sacrificar as suas paixões à razão. A natureza dizia às almas corajosas de que era preciso vingar-se, mas nunca disse que seria preciso lavar as menores ofensas no sangue humano, ou levar a vingança para além mesmo do seu sentimento.

Mas daquilo que a natureza não lhes diz, a opinião os persuadiu; a opinião ligou a desonra às mais frívolas injúrias, a uma palavra, a um gesto, sofridos sem revide. Assim, o sentimento de vingança era-lhes inspirado pela natureza; mas o excesso de vingança e a necessidade absoluta de vingar-se foram obra da reflexão.

Ora, quantos usos da vingança não existem ainda hoje aos quais honramos com o nome de polidez e que não passam de sentimentos da natureza levados pela opinião para além dos seus limites, contra todas as luzes da razão!

Luc de Clapiers Vauvenargues (Wikipedia)



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