sábado, 11 de setembro de 2010

Amor e afetividade, religião interior - Carl Jung

Atitudes que muitas vezes tomamos para compensar a falta de amor por nós mesmos. O desejo de perdão que nos impomos em relação ao próximo, nada mais é do que um mecanismo racional que visa resgatar a nossa paz interior. O mal que eu interpreto como injustiça é, realmente, injustiça ou incompreensão da realidade em relação aos meus conceitos e aos meus sentimentos?

O dominiio racional sobre os nossos instintos (natureza - erotismo), a massificação do comportamento social/político/religioso e a percepção do que parece para nós em relação ao que é para os outros, são algumas das abordagens de Carl Jung que selecionei para postar aqui.

Boa reflexão!


"Que eu faça um mendigo sentar-se à minha mesa, que eu perdoe aquele que me ofende e me esforce por amar - inclusive o meu inimigo - em nome de Cristo, tudo isto, naturalmente, não deixa de ser uma grande virtude. O que faço ao menor dos meus irmãos é ao próprio Cristo que faço. Mas, o que acontecerá, se descubro, porventura, que o menor, o mais miserável de todos, o mais pobre dos mendigos, o mais insolente dos meus caluniadores, o meu inimigo, reside dentro de mim, sou eu mesmo, e precisa da esmola da minha bondade, e que eu mesmo sou o inimigo que é necessário amar?"

"A base essencial de nossa personalidade é a afetividade. Pensar e agir são, por assim dizer, meros sintomas da afetividade. Os elementos da vida psíquica, sentimentos, idéias e sensações apresentam-se à consciência sob a forma de certas unidades que, numa analogia à química, poderiam ser comparadas às moléculas."

"As pessoas, quando educadas para enxergarem claramente o lado sombrio de sua própria natureza, aprendem ao mesmo tempo a compreender e amar seus semelhantes."

"Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro."

"Ninguém que haja passado pelo processo de assimilação do inconsciente poderá negar o fato de ter-se emocionado profundamente e de ter-se transformado."

"Não há transformação de escuridão em luz, nem de inércia em movimento, sem emoção."

"O erotismo constitui um problema controvertido e sempre o será, independentemente de qualquer legislação futura a respeito. Por um lado, pertence à natureza primitiva e animal do homem e existirá enquanto o homem tiver um corpo animal. Por outro lado, está ligado às mais altas formas do espírito. Só floresce quando espírito e instinto estão em perfeita harmonia. Faltando-lhe um dos dois aspectos, já se produz um dano ou, pelo menos, um desequilíbrio, devido à unilateralidade, podendo resvalar facilmente para o doentio. O excesso de animalidade deforma o homem cultural; o excesso de cultura cria animais doentes. Este dilema mostra toda a insegurança que o erotismo traz ao homem. No fundo, é algo muito poderoso que, como a natureza, pode ser dominado e usado como se fosse impotente. Mas o triunfo sobre a natureza se paga muito caro. A natureza dispensa quaisquer declarações de princípios, contenta-se com tolerância e sábias medidas."

"A partir do momento em que, no processo de massificação, o indivíduo se transforma em unidade social, em um x ou y, e o Estado em princípio superior, a função religiosa do homem, conseqüentemente, é arrastada por esse mesmo turbilhão. A religião, no sentido da observação cuidadosa e consideração de certos fatores invisíveis e incontroláveis, constitui um comportamento instintivo característico do homem, cujas manifestações podem ser observadas ao longo de toda a história da cultura. Sua finalidade explícita é preservar o equilíbrio psíquico do homem, pois ele sabe de maneira espontânea que sua função consciente pode ser perturbada, de uma hora para outra, por fatores incontroláveis, tanto de natureza exterior como interior. Dessa maneira, o homem sempre cuidou para que toda decisão grave fosse, de certo modo, sustentada por medidas religiosas. Nascem, assim, os sacrifícios para honrar as forças invisíveis, as bênçãos e demais gestos rituais. Sempre, e em toda parte, existiram "rites d’entrée et de sortie" (ritos de entrada e de saída) que, para os racionalistas distantes da psicologia, não passam de superstição e magia. No entanto, a magia é, em seu fundamento, um efeito psicológico que não deve ser subestimado. A realização de um ato "mágico" proporciona ao homem uma sensação de segurança, e decisões e resoluções necessitam dessa segurança, pois elas sempre pressupõem uma certa exposição unilateral. O próprio ditador, para executar seus atos, não pode se valer apenas das ameaças, precisando encenar o poder com grande pompa. Nesse sentido, as marchas militares, as bandeiras, faixas, paradas e comícios não diferem muito das procissões, tiros e fogos de artifício usados para expulsar demônios. A diferença entre essas representações religiosas e os aparatos do Estado reside no fato de que a sugestiva encenação do poder estatal cria uma sensação de segurança coletiva que, no entanto, não oferece ao indivíduo nenhum tipo de proteção contra os demônios internos. Quanto mais o indivíduo se enfraquece, mais se agarra ao poder estatal, isto é, mais se entrega espiritualmente à massa. E, do mesmo modo que a Igreja, o Estado ditatorial exige entusiasmo, abnegação e amor, cultivando o necessário terror à semelhança do temor de Deus que as religiões exigem ou pressupõem."

"Dei a este ponto central o nome de si-mesmo (Selbst, no original alemão, ou Self, do inglês). Intelectualmente, ele não passa de um conceito psicológico, de uma construção que serve para exprimir o incognoscível que, obviamente, ultrapassa os limites da nossa capacidade de compreender. O Self também pode ser chamado "o Deus em nós". Os primórdios de toda nossa vida psíquica parecem surgir inextricavelmente deste ponto e as metas mais altas e derradeiras parecem dirigir-se para ele. Tal paradoxo é inevitável como sempre que tentamos definir o que ultrapassa os limites de nossa compreensão."

"O processo de individuação tem dois aspectos fundamentais: por um lado, é um processo interior e subjetivo de integração, por outro, é um processo objetivo de relação com o outro, tão indispensável quanto o primeiro. Um não pode existir sem o outro, muito embora seja ora um, ora o outro desses aspectos que prevaleça. Há dois perigos típicos inerentes a esse duplo aspecto: um, é que o sujeito se sirva das possibilidades de desenvolvimento espiritual oferecidas pelo confronto com o inconsciente, para esquivar-se de certos compromissos humanos mais profundos e afetar uma "espiritualidade" que não resiste à crítica moral; o outro, consiste na preponderância excessiva das tendências atávicas, rebaixando a relação a um nível primitivo. O caminho estreito entre "Scila e Caribdis", para cujo conhecimento a mística cristã medieval e a alquimia tanto contribuíram, passa por aí."

"Eu gostaria de deixar bem claro que, como o termo "religião", não me refiro a uma determinada profissão de fé religiosa. A verdade, porém, é que toda confissão religiosa, por um lado, se funda originalmente na experiência do numinoso, e, por outro, na pistis (fé), na fidelidade (lealdade), na confiança em relação a uma determinada experiência de caráter numinoso e na mudança de consciência que daí resulta. Um dos exemplos mais frisantes, neste sentido, é a conversão de Paulo. Poderíamos, portanto, dizer que o termo "religião" designa a atitude particular de uma consciência transformada pela experiência do numinoso."

"As religiões, porém, ensinam uma outra autoridade oposta à do "mundo". A doutrina que ensina que o indivíduo depende de Deus representa uma exigência tão grande sobre ele quanto a do mundo. Pode até acontecer que o homem acate essa exigência de maneira tão absoluta a ponto de se alienar do mundo da mesma forma que o indivíduo se aliena de si mesmo quanto sucumbe à mentalidade coletiva. Tanto num caso quanto no outro, o indivíduo pode perder sua capacidade de julgar e decidir-se livremente. A isto tendem as religiões, quando não se comprometem com o Estado. Neste caso, prefiro falar, de acordo com o uso corrente, de "confissão" e não de "religião". A confissão admite uma certa convicção coletiva, ao passo que religião exprime uma relação subjetiva com fatores metafísicos, ou seja, extramundanos. A confissão compreende, sobretudo, um credo voltado para o mundo em geral, constituindo, assim, uma questão intramundana. Já o sentido e a finalidade da religião consistem na relação do indivíduo com Deus (cristianismo, judaísmo, islamismo) ou no caminho da redenção (budismo). Esta é a base fundamental de suas respectivas éticas que, sem a responsabilidade individual perante Deus, não passariam de moral e convenção."

"É importante para a meta da Individuação, isto é, da realização do Self, que o indivíduo aprenda a distinguir entre o que parece ser para si mesmo e o que é para os outros. É igualmente necessário que conscientize seu invisível sistema de relações com o inconsciente, ou seja, com a Anima, a fim de poder diferenciar-se dela. No entanto, é impossível que alguém se diferencie de algo que não conheça. No que concerne à questão da persona, é fácil explicar ao indivíduo que ele e seu cargo são duas coisas diferentes. Mas, no que se refere à Anima, a diferenciação é mais difícil pelo fato desta ser invisível. Em primeiro lugar devemos lembrar-nos do preconceito de que tudo o que vem de dentro brota do fundamento essencial da pessoa. O "homem forte" concordará talvez com a acusação de que é indisciplinado na "vida particular", alegando ser esse o seu fraco, e com o qual, de certa forma, se faz solidário. Tal tendência revela um legado cultural, que não deve ser negligenciado. Como ele mesmo reconhece, sua Persona ideal é responsável por sua Anima não menos ideal; desse modo, seus ideais são abalados: o mundo torna-se ambíguo e ele mesmo torna-se ambíguo. Começa a duvidar do bem e, o que é pior, começa a duvidar de sua própria boa intenção. Se pensarmos como são poderosos os pressupostos históricos a que se prende nossa idéia particular do que vem a ser uma boa intenção, compreenderemos que, em beneficio de nossa concepção atual do mundo, é mais agradável acusarmo-nos de fraqueza pessoal do que duvidar da força dos ideais."

Carl Gustav Jung


Obrigado, minha espanholita, Marcia Avila, pela inspiração. :o)
 


-o-

Um comentário:

Thunai Melo disse...

Belo texto. Um abraço.

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