segunda-feira, 11 de julho de 2016

Quando as teses ideológicas se perdem na razão

Vou começar este post resumindo alguns pensamentos sobre ideologia e política para poder chegar ao ponto que justifica seu título. São dois os pensamentos que escolhi para ilustrar minhas reflexões. Um é de José Adelino Maltez que é filosófico e sociológico, e o outro é de Rubem Alves, mais poético, vamos dizer assim.

No artigo "Homem, o animal político", Maltez inicia dizendo:
"Quando Aristóteles proclama que o homem é por natureza um animal político (anthropos physei politikon zoon), diz que a exigência da perfeição, a procura do bem melhor, a tendência para a realização daquilo que é o seu bem o impelem para a polis. Não diz que o homem se une na polis por um bem menor, como aquele que o leva à constituição da família, em nome da satisfação das necessidades vitais. Não diz apenas que o homem é um animal social, um animal que tende para a constituição de comunidades em geral, porque nem todas as comunidades são políticas. Diz que um determinado bem, o impele para uma certa espécie de comunidade, a polis. E que esse determinado bem é, precisamente, o bem melhor."
E Rubem Alves em sua crônica "Sobre Política e Jardinagem":
"De todas as vocações, a política é a mais nobre. Vocação, do latim vocare, quer dizer 'chamado'. Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um 'fazer'. No lugar desse 'fazer' o vocacionado quer 'fazer amor' com o mundo. Psicologia de amante: faria, mesmo que não ganhasse nada. 'Política' vem de polis, cidade. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos moradores da cidade."
Podemos notar que tanto na definição clássica quanto na romântica, a finalidade de se constituir uma "polis" é a mesma: unir pessoas pensando na "felicidade" de seus integrantes ou moradores. Vejam que eles falam apenas de objetivos e intenções, não sobre os meios de se atingir esse tal de "bem melhor".

Por maiores que sejam as diferenças conceituais de bem e de mal entre os que trabalham (políticos) e os que se beneficiam (cidadãos), é certo que o desejo de se ter uma vida minimamente digna é comum aos dois. Independentemente de qual seja esse "mínimo", é possível se "ter" alguma coisa sem "conceder" outra de igual valia? Possível é! Impossível é manter o que se ganhou por muito tempo.

Há limites para os sonhos e para a esperança de quem produz riquezas, e um dos limites mais terríveis e avassaladores é o do escárnio. E quando descobrimos que estão zombando desses nossos sonhos e se aproveitando dessa nossa esperança, a civilidade perde para o atavismo. Despertam nossos instintos de sobrevivência e a vontade de se fazer justiça pelas próprias mãos. Assim começaram as grandes revoluções e guerras civis da história.

Ideologia é esperança até que os sonhos se corroam na acidez da realidade. A militância que permanece insistindo a despeito dessa realidade, perde-se em meio aos paradoxos do fanatismo e seus argumentos passam das tentativas de convencimento ao ridículo de suas incoerências gritantes. Em resumo, degenera a própria ideologia que defende. O fanatismo ideológico extrapola os limites do patriotismo inofensivo que tenta apenas proteger as raízes e conquistas de seu povo, enveredando-se no campo do nacionalismo inconsequente, chegando ao cúmulo de extrapolar fronteiras para dissolver outras individualidades. Como normalmente se faz muita confusão entre patriotismo e nacionalismo, cabe esclarecer a diferença:

NACIONALISMO E PATRIOTISMO
"Por 'nacionalismo' quero referir, em primeiro lugar, ao hábito de pressupor que os seres humanos podem ser classificados como insetos, e que porções inteiras de milhões ou dezenas de milhão de pessoas podem ser tabeladas de "boas" ou "más" com toda a convicção. Em segundo lugar - e isto é mais importante - refiro o hábito de alguém se auto-identificar com uma nação ou outra unidade singular, colocando-a para além do bem e do mal, e não reconhecendo outro dever senão a defesa dos seus interesses. O nacionalismo não deve ser confundido com o patriotismo. Ambas as palavras são usadas de uma forma tão vaga, que qualquer definição pode ser questionada; no entanto, devemos estabelecer as diferenças entre as duas palavras, uma vez que estamos perante duas ideias diversas e mesmo opostas. Por "patriotismo", entendo a devoção a um local e a um modo de vida particulares, que acreditamos ser o melhor do mundo, sem que isso nos leve a querer impô-lo a outros. O patriotismo é por natureza defensivo, tanto militar como culturalmente. O nacionalismo, pelo contrário, é inseparável do desejo pelo poder. O propósito regulador de cada nacionalista é conseguir mais poder e mais prestígio, não para si próprio, mas para a sua nação ou outra unidade na qual escolheu dissolver a sua individualidade." (Reflexões de Leonidas Donskis sobre George Orwell em "Notes on Nationalism")
Submeter um povo à uma ideologia (ou a partidos políticos) sem sequer questionar os meios que utiliza para implantá-la e o sofrimento que causará a esse povo nessa sua trajetória alucinada, é caminho certo para o fascismo ou nazismo. No caso do comunismo (hoje travestido de socialismo), a história mostra seus contínuos fracassos e as milhões de vidas que foram perdidas.

Esta é a grande incoerência desses militantes, falsos humanistas da esquerda impensante que insistem em defender seus espertos heróis em detrimento daquele "bem melhor" de José Adelino Maltez ou da felicidade de Rubem Alves. Oras... se a felicidade plena não existe e vivemos dos nossos momentos de felicidade, por quanto tempo poderíamos suportar essas injustiças do presente em nome de uma ideologia de teorias e promessas futuras comandadas por esses políticos profissionais? Políticos que não têm pressa nenhuma, pois, afinal, somos nós que sustentaremos a felicidade deles enquanto a nossa não acontecer.

Esses maus carácteres da política continuarão existindo enquanto esses militantes fanáticos de todos os partidos políticos não perceberem o quanto estão sendo ridículos teimando em defender o indefensável. Enquanto não se conscientizarem que não passam de comparsas desses criminosos que ajudam bandidos a matar pessoas inocentes nas ruas e doentes nas portas dos hospitais. Enquanto não pararem com essa história de que "o seu também rouba". Os ladrões são vários, mas o dinheiro dos impostos é um só. Meu, seu, dele, dela... nosso!
"Fanático é o sujeito que não muda de ideia e não pode mudar de assunto." (Winston Churchill)
"A mente de um fanático é como a pupila do olho: quanto mais luz incide sobre ela, mais se irá contrair." (Oliver Holmes)
"A loucura é um fenômeno raro em indivíduos - em grupos, partidos, povos e eras, é a regra." (Nietzsche)

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