quinta-feira, 25 de julho de 2013

A inequação da felicidade

Após algumas tentativas infrutíferas, algumas pessoas desistem da felicidade, passando a admiti-la apenas como um evento isolado, não esperado ou aleatório, que dependeria mais de circunstâncias do que de vontade própria. Eu me refiro à felicidade não pontual e não àquela do bem ou do objetivo conquistado que chamamos de alegria. Quando o poeta Carlos Drummond de Andrade disse que "Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade", certamente não quis dizer que só um bobo pode ser feliz, mas que a felicidade é um sentimento que envolve tantas variáveis de plenitude que é impossível relacioná-las e atingi-las uma a uma para só depois então ser feliz. Em resumo a felicidade não permite engenharia reversa ou análise inversa. Felicidade sente-se no momento.

Quem é mais vivido pode perceber isto mais claramente ao rever o seu passado. Notará que em seus melhores momentos de felicidade, certos quesitos que um dia estabeleceu ainda não haviam sido conquistados e, mesmo assim, sentia-se feliz. Por mais que tentasse não conseguiria montar algum tipo de equação com as variáveis daqueles momentos, pois, além daquele emprego ou atividade, além da vida a dois, além do lugar, das pessoas e dos amigos, haviam elementos imponderáveis do sentimento, como as intensidades do desejo, da vontade e da esperança. A felicidade só pode ser maior, menor ou igual à minha própria felicidade.

Na verdade, além de desejarmos muito, não nos preparamos adequadamente nem para o mínimo que desejamos. Não somos vítimas de nada além dos nossos próprios desejos e dos nossos conceitos de felicidade. Vítimas das nossas maiores e menores expectativas. Vitimas de nós mesmos.

"Se analisares a ti mesmo sem parcialidade, serás forçado a admitir que aqueles bens que tens por desejáveis e preciosos te serão inúteis se previamente não te preparares e não isolares o condicionalismo que o acompanha." (Sêneca)

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