sexta-feira, 10 de maio de 2013

Igual e desigual

Outro dia uma amiga, complementando uma conversa profunda que estávamos tendo (e seria irrelevante dizer qual era o assunto), perguntou: "Mas se aconteceu isto, porque então você sempre está com esse semblante alegre e brincalhão?"

Alguns ouvem músicas tristes e ficam chorando, outros se afundam no vício da bebida ou das drogas, convertem-se a outras religiões, fazem orações ou vão viver em alguma comunidade. Tem também os que procuram ambientes movimentados, vão atrás de amigos e colegas, frequentam baladas, viajam, enfim, cada um tem a sua própria maneira de superar seus problemas e até o direito de se enterrar neles ou ser enterrado com eles. Não é possível estabelecer um método único que sirva para todas as pessoas e muito menos julgá-las dependendo dos métodos que escolheram. Como escreveu Carlos Drummond de Andrade:

Igual-Desigual 
"Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinhos são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são
iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todas as experiências de sexo
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho
ímpar."
Eu sou alegre porque sou, mesmo tendo momentos tristes como todo ser encarnado. Quando, mesmo com a tristeza no peito, estou alegre e brincalhão, na verdade estou desprezando a tristeza e nada melhor que o desprezo para vingar-me e fazê-la ir embora. Puro desdém!

Ninguém é igual a ninguém e tudo que está dentro dele também não é. Nenhuma tristeza é igual à outra e nenhuma alegria também. Amor ou ódio, alegria ou tristeza, assim como as suas exaltações e soluções também são ímpares.

E o ser humano, além de ímpar pode também ser primo: divisível por um e por ele mesmo.

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