domingo, 31 de março de 2013

A essência das festas religiosas

A Páscoa sempre representou a passagem de um tempo de trevas para outro de luzes, isto muito antes de ser considerada uma das principais festas da cristandade. A palavra “páscoa” – do hebreu “peschad” – significa “passagem”. Notem que normalmente as festas religiosas têm seu foco na MUDANÇA. Não da mudança de emprego, de novos amores ou de posturas morais. As mudanças que as escrituras sugerem são de olhares mais profundos sobre os reais valores da vida. Infelizmente, o hermetismo natural dessas mensagens (elaboradas em tempos de escrita extremamente limitada) representa um campo fértil para hipócritas e interesseiros, sem contar as interferências e limitações dos próprios autores dessas escrituras.

Nos "Manuscritos do Mar Morto", por exemplo, não há como negar a ligação de Jesus com os essênios (viveram entre 150 a.C e 70 d.C). Como rabi e judeu, seria natural que Jesus tivesse até participado de reuniões em mosteiros essênios, onde os hábitos coincidem com as suas pregações. Historiadores chegam a afirmar que essenismo e cristianismo são uma coisa só. Dizem que mais do que Belém e Jerusalém, o Qumran com seu mosteiro e seus manuscritos, é o berço da revelação cristã. Outro fato interessante sobre a vida dos essênios é que eles eram verdadeiros revolucionários. A Bíblia tenta disfarçar o lado humano de Jesus em muitas de suas passagens. O machismo da época, por exemplo - e que perdura nos dogmas até hoje -, omitiu a proximidade de Jesus com Madalena para esconder seu lado de ser humano. Não entendem que não há característica terrena que possa tirar a excepcionalidade de seus pensamentos e ações. Mas não pretendo discutir aqui esses detalhes que dariam para escrever outra Bíblia. Quem estiver interessado no assunto pode beber direto da fonte nos sites "The Dead Sea Scrolls", "Digital Dead Sea Scrolls". Veja também no Youtube:
  1. Os Manuscritos do Mar Morto - Parte 01
  2. Os Manuscritos do Mar Morto - Parte 02
  3. Os Manuscritos do Mar Morto - Parte 03
E também:
  1. O Sepulcro Esquecido de Jesus - Parte 01
  2. O Sepulcro Esquecido de Jesus - Parte 02
  3. O Sepulcro Esquecido de Jesus - Parte 03
  4. O Sepulcro Esquecido de Jesus - Parte 04
  5. O Sepulcro Esquecido de Jesus - Parte 05
  6. O Sepulcro Esquecido de Jesus - Parte 06
  7. O Sepulcro Esquecido de Jesus - Parte 07
  8. O Sepulcro Esquecido de Jesus - Parte 08
  9. O Sepulcro Esquecido de Jesus - Parte 09
  10. O Sepulcro Esquecido de Jesus - Parte 10
Minha intenção não é desqualificar o Novo Testamento ou quaisquer escrituras, mas tentar buscar a essência dos verdadeiros valores desses ensinamentos, valores estes que não podem ser apropriados por dogmas de nenhuma religião e muito menos por essas que existem apenas há dois mil anos. Afinal, o Budismo já transmitia esses valores espirituais de forma estruturada no século IV antes de Cristo. O problema está na interpretação e na forma de absorver os valores transmitidos.

Existe uma grande diferença entre exigir que você "seja assim" e de dizer que ao mudar naturalmente sua ordem de valores "se tornará assim". Exigir que você "não acumule bens" ou dizer que ao mudar naturalmente sua ordem de valores "não sentirá falta de alguns bens". O problema é que a religião induz seu seguidor a adotar comportamentos por temor a Deus, mesmo que se sinta desconfortável. E o resultado é a criação de "cascas" que apenas disfarçam seus verdadeiros valores. Mantém boa imagem na religião e na sociedade, mas guarda um imenso conflito consigo mesmo.

Não é errado não conseguir sentir, assim como não é errado sentir o que se sente. Errado mesmo, é achar errado o que se sente. Nossos valores são constantemente reavaliados durante a vida e as mudanças ocorrem com o viver, principalmente com as esperanças, frustrações, ilusões e desilusões.

As religiões e suas festas religiosas são apenas parâmetros históricos que nos remetem às reflexões mais profundas sobre valores essenciais da vida em determinados dias do ano. As sementes são plantadas e cada uma fica ali, quietinha, em algum canto da nossa essência, até receber o fluído específico que a fará germinar. Os valores essenciais da vida nasceram com você e não a partir do momento que lhe disseram que existiam. São as inúmeras mudanças que ocorrem em nossas vidas. As passagens das trevas para as luzes.

Para religiosos, ateus ou agnósticos, não importa, termino com um texto de Antonio Lobo Antunes:

"Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos."

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sexta-feira, 22 de março de 2013

Arrependimentos e frustrações

"É possível repousar sobre qualquer dor de qualquer desventura, menos sobre o arrependimento. No arrependimento não há descanso nem paz, e por isso é a maior ou a mais amarga de todas as desgraças." (Giacomo Leopardi)

Se você se arrependeu coisas que fez ou deixou de fazer na vida, não adianta vir com aquela historinha de tentar apagar apenas porque as frases de autoajuda mandam a gente fazer. Você não vai conseguir! A memória é como um disco rígido de computador: você pensa que apagou, mas sempre aparece alguém com um programinha que restaura o que foi apagado e a recuperação do arquivo pode ser mais dura que o próprio momento que o gerou. E se formatar o HD, vai também apagar o bom que poderia ser resgatado. O descarte seletivo ainda é a melhor forma de evitar o duplo arrependimento.

Pode haver arrependimento de se ter escolhido ou de não se ter escolhido. É importante saber diferenciar o tipo de frustração. A frustração por não ter escolhido é a mais irreal e ilusória de todas, pois, jamais saberemos o que teria acontecido se tivéssemos feito a escolha e se a fizermos num segundo momento, ela poderá ser ainda mais frustrante que a primeira com o agravante do fator "tempo", caso a decisão não permita uma terceira escolha ou retorno à primeira.

Já a frustração pós-escolha está ligada mais fortemente às nossas expectativas e a fatos REAIS já experimentados, portanto, mais fácil de ser reavaliada por meio de perguntas bem objetivas: "será que eu estava sendo realista com aquilo que esperava?"; "se esperassem o mesmo de mim, será que eu conseguiria preencher as expectativas da(s) outra(s) parte(s)?"; "já que não posso os reajustar valores da outra parte, se eu reajustar os meus à ela, sentirei-me agredido(a)?"

Fácil? Não... não é nada fácil nem simples, mas uma coisa é certa: deixar rolar não ajudará nada. Como disse Confúcio: "Ser ofendido não tem importância nenhuma, a não ser que nos continuemos a lembrar disso."






terça-feira, 19 de março de 2013

Seja diferente. Seja honesto!

Esta campanha é nacional. É para você que deixa as coisas rolarem se a sua vida pessoal está boa. É para você que defende seu partido ou seu político do coração, independentemente dos escândalos em que ele está envolvido. Você não se sente responsável pelo que acontece em seu país? Ou pra você o que importa é estar vivendo bem dentro de seu mundo egoísta? Não se importa com os jovens que se matam nas drogas, com doentes e idosos morrendo nas filas dos hospitais, com a seca fabricada e mantida no nordeste para eleger bandidos a troco de água? Não se importa com os quase 70 bilhões de impostos que são desviados anualmente para criar e alimentar alguns poucos ladrões bilionários? Dinheiro este que poderia dar uma vida mais digna para você, sua família e para seus irmãos brasileiros? Que permitiria vivermos sem muros altos e fora dos condomínios com segurança privada? Que não nos deixaria angustiados esperando nossos filhos voltarem em segurança para seus lares à noite?

Honestidade virou caretice, coisa de babacas. Mas no fundo, quem é o babaca dessa história? Quem é o trouxa e quem é o esperto? Vai deixar pra se arrepender quando estiver no fim da vida, ou acha que ainda pode mudar sua história e o destino de milhões de brasileiros?


SEJA DIFERENTE. SEJA HONESTO!
(Enquanto ainda é tempo!)













(Clique)

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Felicidade verdadeira sem humanismo? Impossível!


Viver requer doses de amor, poesia e realidade. Como poderemos ser felizes vivendo apenas de amor e poesia? A realidade incomoda você? Ver pessoas amontoadas em macas pelos corredores dos hospitais, jovens drogados nas ruas, pessoas implorando por comida e um copo d'água são cenas que fazem você infeliz? Melhor permanecer em seu condomínio de muros altos ouvindo Bach? Para você é possível ser feliz fechando os olhos para a realidade?

Não... não estou pedindo para que não sejam positivos e não tenham esperanças de um mundo melhor. Não estou pedindo para que deixem de ler poesia, escutem boa música, curtam frases bonitas, que amem seus amores e seus entes queridos. Não estou pedindo para que não digam boas palavras para os que precisam ouvi-las. Só não podemos deixar que a natureza assuma nossas responsabilidades de cidadãos do mundo. Ela nem pode fazer isto porque ela apenas responde aos estímulos do ser humano incentivado pelo seu livre-arbítrio.

Sim, você é responsável. Responsável por suas escolhas. Não somos responsáveis apenas por aqueles que cativamos. "Todos somos responsáveis de tudo, perante todos", como escreveu Dostoievski.

"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar dos teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano, e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti." (John Donne)



sexta-feira, 15 de março de 2013

Tênis X Frescobol - Rubem Alves


Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele:

Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: "Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?". Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo, eu te amo...". Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada". É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma".

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:

Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: "Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo". A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: "Tens razão, minha querida". A situação está salva e o ódio vai aumentando.

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

(Texto de Rubem Alves)

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quinta-feira, 14 de março de 2013

O Apanhador no Campo de Centeio

"Descobrirás que não és a primeira pessoa a quem o comportamento humano alguma vez perturbou, assustou ou mesmo enojou. Não estás de modo nenhum sozinho nesse ponto, e isso deve servir-te de incitamento e de estímulo. Muitos, muitos homens se sentiram tão perturbados, moralmente e espiritualmente, como tu estás agora. Felizmente, alguns deles deixaram memórias dessa perturbação. Hás-de aprender com eles... se quiseres aprender. Tal como um dia, se tiveres alguma coisa para dar, alguém há-de aprender contigo. É um belo tratado de reciprocidade. E isto não é instrução. É história. É poesia." (Jerome David Salinger em "O Apanhador no Campo de Centeio")

Só poderemos deixar algo para alguém ou para o mundo se abrimos nossas almas. Quem ler, não agirá necessariamente da mesma forma que aquele que deixou seu legado, em prosa ou poesia, não importa. Já disse o poeta Carlos Drummond de Andrade que "ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar." E todas as vidas também são ímpares.

Quem escreve entende; quem lê com humildade e isenção, aprende. Seja com os erros ou com os acertos, não importa... o que importa é o coração aberto. Haverá um momento na vida em que o coração não poderá mais abrir, e se abrir faltará tempo para escrever ou para aprender.


segunda-feira, 11 de março de 2013

Sobre Política e Jardinagem (Rubem Alves)


De todas as vocações, a política é a mais nobre. Vocação, do latim vocare, quer dizer "chamado". Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um "fazer". No lugar desse "fazer" o vocacionado quer "fazer amor" com o mundo. Psicologia de amante: faria, mesmo que não ganhasse nada.
"Política" vem de polis, cidade. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos moradores da cidade.

Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades: sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oases. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu "o que é política?", ele nos responderia, "a arte da jardinagem aplicada às coisas públicas".

O político por vocação é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se à sua volta está o deserto? É preciso que o deserto inteiro se transforme em jardim.

Amo a minha vocação, que é escrever. Literatura é uma vocação bela e fraca. O escritor tem amor mas não tem poder. Mas o político tem. Um político por vocação é um poeta forte: ele tem o poder de transformar poemas sobre jardins em jardins de verdade. A vocação política é transformar sonhos em realidade. É uma vocação tão feliz que Platão sugeriu que os políticos não precisam possuir nada: bastar-lhes-ia o grande jardim para todos. Seria indigno que o jardineiro tivesse um espaço privilegiado, melhor e diferente do espaço ocupado por todos. Conheci e conheço muitos políticos por vocação. Sua vida foi e continua a ser um motivo de esperança.

Vocação é diferente de profissão. Na vocação a pessoa encontra a felicidade na própria ação. Na profissão o prazer se encontra não na ação. O prazer está no ganho que dela se deriva. O homem movido pela vocação é um amante. Faz amor com a amada pela alegria de fazer amor. O profissional não ama a mulher. Ele ama o dinheiro que recebe dela. É um gigolô.

Todas as vocações podem ser transformadas em profissões O jardineiro por vocação ama o jardim de todos. O jardineiro por profissão usa o jardim de todos para construir seu jardim privado, ainda que, para que isso aconteça, ao seu redor aumente o deserto e o sofrimento.

Assim é a política. São muitos os políticos profissionais. Posso, então, enunciar minha segunda tese: de todas as profissões, a profissão política é a mais vil. O que explica o desencanto total do povo, em relação à política. Guimarães Rosa, perguntado por Günter Lorenz se ele se considerava político, respondeu: "Eu jamais poderia ser político com toda essa charlatanice da realidade... Ao contrário dos 'legítimos' políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem." Quem pensa em minutos não tem paciência para plantar árvores. Uma árvore leva muitos anos para crescer. É mais lucrativo cortá-las.

Nosso futuro depende dessa luta entre políticos por vocação e políticos por profissão. O triste é que muitos que sentem o chamado da política não têm coragem de atendê-lo, por medo da vergonha de serem confundidos com gigolôs e de terem de conviver com gigolôs.

Escrevo para vocês, jovens, para seduzi-los à vocação política. Talvez haja jardineiros adormecidos dentro de vocês. A escuta da vocação é difícil, porque ela é perturbada pela gritaria das escolhas esperadas, normais, medicina, engenharia, computação, direito, ciência. Todas elas, legítimas, se forem vocação. Mas todas elas afunilantes: vão colocá-los num pequeno canto do jardim, muito distante do lugar onde o destino do jardim é decidido. Não seria muito mais fascinante participar dos destinos do jardim?

Acabamos de celebrar os 500 anos do descobrimento do Brasil. Os descobridores, ao chegar, não encontraram um jardim. Encontraram uma selva. Selva não é jardim. Selvas são cruéis e insensíveis, indiferentes ao sofrimento e à morte. Uma selva é uma parte da natureza ainda não tocada pela mão do homem. Aquela selva poderia ter sido transformada num jardim. Não foi. Os que sobre ela agiram não eram jardineiros. Eram lenhadores e madeireiros. E foi assim que a selva, que poderia ter se tornado jardim para a felicidade de todos, foi sendo transformada em desertos salpicados de luxuriantes jardins privados onde uns poucos encontram vida e prazer.

Há descobrimentos de origens. Mais belos são os descobrimentos de destinos. Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, ao invés de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores à cuja sombra nunca se assentariam.

(Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 19/05/2000.)

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