quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Do Homo neanderthalensis ao Homo condominius do século XXI

No início da vida inteligente, o ser humano preocupava-se com alimentação, abrigo e preservação da espécie. Dando prioridade aos seus instintos e sem calendário, seu grande desafio era sobreviver mais um período entre o nascer e o por-do-sol. A fome, a sede e o cansaço eram as frações do relógio biológico que o comandava. Tinha relações sexuais para preservar a espécie sem a necessidade de expressar amor em poesia; predominava o ato carnal e o instinto de posse do macho. O homem primitivo tirava conclusões baseadas nas experiências que vivenciava, criando fantasias boas e más, dentro dos limites dos seus olhos e da sua capacidade de pensar.

Avancemos o relógio da evolução para o século XV do Humanismo, passemos pelo XVI da poesia de Shakespeare, XVII da ciência de Isaac Newton, XIII da Era da Razão de Descartes e do Iluminismo, XIX da Espiritualidade Humanista de Comte e, finalmente, XX e XXI da tecnologia. Notem que sempre existiram movimentos históricos visando resgatar a espiritualidade e o sentimento humanista nos séculos que antecederam aos nossos, mas hoje a tecnologia e o capitalismo estão ganhando de lavada.

As religiões levam uma boa parte dessa culpa por terem promovido muita confusão entre os elementos básicos da espiritualidade durante muitos séculos: misturaram fraternidade com dó, humanismo com dar esmolas e condicionaram o desenvolvimento espiritual à aceitação tácita de seus dogmas. Tudo para manter seus rebanhos, tornando-os dependentes e temerários de um deus pelo qual sempre lutaram pela posse exclusiva., ou seja, Deus é um só, mas nossa religião é a única autorizada a falar em nome dele.

Em virtude das incoerências de suas pregações com o real comportamento de seus representantes, a ficha caiu para muitas ovelhas, que aos poucos foram abandonando suas religiões. E o principal estrago disso tudo, longe de ser o de esvaziá-las,  foi o de fazer com que um grande número de dissidentes abandonasse de vez o sentimento humanista e interrompesse o desenvolvimento de sua espiritualidade pra gozar a vida e aproveitar tudo aquilo que antes era proibido fazer. E assim nasceu a geração do "viva eu e o resto que se dane". Nesse mundo egoísta que criaram, políticos ladrões ganham status de espertos; miseráveis são aqueles que não gostam de trabalhar; desigualdade social é culpa do governo e a violência é problema da polícia e da justiça.

Essa geração que hoje domina o mundo, necessita que o dia tenha mais de 24 horas para que possa absorver tudo o que a tecnologia da informação tenta despejar em seus cérebros. Precisa ganhar dinheiro suficiente para consumir tudo aquilo que o capitalismo produz e poder construir aqui na Terra seu paraíso particular, sem precisar ascender ao Reino dos Céus. Mora em condomínios de muros eletrificados para afastar os amigos do alheio, e altos o suficiente para esconder de suas vistas a miséria que os rodeia. Seu vizinho é um ser de outro planeta e uma ameaça à sua privacidade. Se cumprimentá-lo com um bom dia efusivo ele poderá estar transmitindo que é muito feliz com sua família e que tem muito dinheiro. Melhor fingir que não vê.

Isolado em sua tribo de muros altos, essa nova espécie de quase humano - o "Homo Condominius" - volta 50 mil anos no tempo para privilegiar seus instintos como fazia seu ancestral das cavernas, adaptando seu modo de vida ao que ele chama de sobrevivência no século XXI. Acorda cedo para abater a caça antes de ser abatido por ela, que nesse caso é o seu semelhante. Semelhante este que, tal como ele, também almeja o cargo de chefia que está vago, ou é seu concorrente que briga pela mesma fatia de mercado. E enquanto o homem das cavernas fazia sexo para satisfazer seus instintos e preservar a espécie, o da tribo dos condomínios faz sexo para se divertir e se afirmar, evitando a união estável e a procriação. E assim, de sol a sol, os dias, as semanas e os 11 primeiros meses do ano passam como um raio.

Chega dezembro... ah, dezembro! O "Homo Condominius" sabe que chegou dezembro porque a Apple vai lançar um novo IPhone e as propagandas anunciam o seu nascimento com aquelas belas músicas de Natal que fizeram pra um tal de Menino Jesus. Chegou a hora de parar e se dedicar um pouco mais à família, dar e receber presentes. Depois vem o réveillon, hora de desejar sucesso no trabalho e muito dinheiro no ano novo que começa.

Sei que abusei um pouco do sarcasmo e das figuras de linguagem, mas as pessoas precisam parar um pouco pra pensar e refazer seus conceitos de humanismo e espiritualidade. Entender que essas duas coisas não dependem de religiões. Ser humanista é reconhecer o direito de todo ser humano a uma vida digna. Pra que a gente não seja obrigado a desviar o olhar evitando ver crianças inocentes morrendo de fome e idosos abandonados nos corredores dos hospitais. Ser espiritualista é acreditar que nem tudo é matéria e crer na sutileza da essência humana. Que o tempo passa e, mesmo não acreditando na vida após a morte, compreender que é importante contribuir para que todos possam ter um mundo melhor e não apenas nossos filhos e netos. E até - por que não? - pra que a gente morra melhor e com a dignidade de um ser humanizado.

Por enquanto ainda estamos parando em dezembro, mas do jeito que as coisas andam, vai chegar o momento em que só pararemos pra pensar quando estivermos próximos do fim, quando poderemos apenas lamentar não ter feito mais. Que poderíamos ao menos ter sido mais independentes em nossos pensamentos e desenvolvido nossos próprios valores, desvinculados daqueles que o inconsciente coletivo nos metia goela abaixo. Que não deveríamos ter empunhado falsas bandeiras e protegido heróis de mentira apenas por fanatismo, teimosia ou vergonha de voltar atrás.

Encerro com um trecho do famoso texto "Meditação XVII" do poeta inglês John Donne que representa a essência do sentimento humanista:

“Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

Feliz ano novo! Feliz novo jeito de pensar na vida!
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