terça-feira, 25 de setembro de 2012

Protecionismo só existe o econômico?

Dilma hoje no discurso de abertura tomou posições coerentes em relação aos conflitos da Síria e Palestina, defendendo a diplomacia e diálogo ao invés de intervenção militar, apoiada ou não pela ONU. Se o intervencionismo militar resolvesse alguma coisa, os problemas do Iraque estariam resolvidos há muito tempo, mas o que vimos foi um número de mortos superior ou, na melhor das hipóteses, igual ao de uma guerra civil. Sem contar as confusões políticas e religiosas que provocaram sentimento de revolta do povo diante da quebra de sua soberania. A cultura de cada povo tem seus aspectos próprios e por mais que sejamos empáticos jamais conseguiremos nos colocar no lugar deles e muito menos entender sua ordem de valores. Sem considerar que os interesses dessas intervenções geralmente nunca são os sentimentos humanistas alegados. Esses sentimentos nobres apenas camuflam interesses político-econômicos e sentimentos de vingança de alguns países que gozam de direito de veto na ONU.

No aspecto econômico, acho que Dilma também se posicionou corretamente sobre o alegado protecionismo reclamado pelos americanos quando no aumento das taxas de importação para alguns produtos com o objetivo de segurar a supervalorização do dólar. Essa supervalorização prejudicaria ainda nossos exportadores, aumentando o déficit brasileiro nesse fluxo comercial com os EUA. Exceto em alguns curtos períodos, a balança sempre pendeu mais para o lado americano. As decisões tomadas em relação ao aumento das taxas em 100 produtos importados dos EUA (provavelmente também em mais outros 100) provocaram a ira diplomática dos americanos, mas bem que eles fazem o mesmo e muitas vezes pior em suas práticas de mercantilismo, já tendo sido repreendidos e condenados pela OMC em várias ocasiões por prática de subsídios (álcool, laranja, empresa Boeing, entre outros), práticas essas muito piores do que aumentar impostos pontualmente, pois, aumenta artificialmente sua capacidade de concorrência no mercado internacional, independentemente da produtividade  do setor.

Mas vamos agora às incoerências do discurso da presidente Dilma (é... presidentE mesmo - clique e leia "Presidente ou Presidenta?"). Só existe protecionismo econômico no mundo? E o protecionismo político ideológico? Por que a presidente, tão preocupada com direitos humanos e de soberania de países do hemisfério norte, esconde ou pior, considera normais os problemas das eleições do Paraguai, regimes ditatoriais na Venezuela, Bolívia e Cuba e falta de liberdade de imprensa na Argentina? Oras... cumplicidade entre países para defender interesses próprios só existe no hemisfério norte? E a cumplicidade comuno-bolivivariana da América Latina? Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço? Cadê a arauto da justiça, mas que só reclama da injustiça dos outros?

Dessa forma, os argumentos da presidente em seu discurso na ONU podem ter sido 70% certos e os outros 30% poderiam até conter omissões, mas jamais conflitantes com a igualdade cobrada na primeira parte de sua fala. Liberdades de mercado e de expressão andam juntas. Além do mais, enquanto o Brasil continuar deixando impunes políticos corruptos e pior, os tribunais estiverem sofrendo influência do legislativo e executivo para garantir a continuidade da impunidade, todo discurso bonito será considerado hipócrita. Por mais coerente que pareça ser.

Justiça parcial, é injustiça. E não podemos ser justos se não formos integralmente humanos.

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