sexta-feira, 25 de maio de 2012

Perdoa-se na medida que se ama

Existe uma expressão popular que diz "teatro da vida". Essa expressão foi criada para explicar certas coisas que acontecem conosco e que nos consolemos diante de fatos aparentemente inesperados. Foi criada também para quando precisamos justificar nossas próprias ações e evitar sermos torturados pelos conceitos de certo e errado que desenvolvemos durante a nossa vida. Como bem disse Nietzsche "Quando adestramos a nossa consciência, ela beija-nos ao mesmo tempo que nos morde."

Na verdade não há fatos inesperados quando procuramos entender os sinais que a vida nos dá, mas nossa percepção desses sinais está mais ligada ao fato de não conseguirmos ou até de não querermos vê-las do que à sutileza com que eles se manifestam. Quando existe paixão, sentimento que não passa de um desequilíbrio das nossas emoções, raramente percebemos esses sinais, pois, nada mais forte que o ego para sufocar nossa sensibilidade e nossa razão. E esta paixão a qual me refiro, não se refere unicamente ao amor carnal, mas a qualquer tipo de obstinação.

A vida não é um teatro, mas permite que nela representemos papéis. Alguns espiritualistas dizem que este mundo é fenomênico ou simplesmente um mundo de ilusões. Embora exista uma certa razão nessas palavras, isto não significa que, diante dessa realidade, poderíamos abandonar a busca por nossas verdades ou, simplesmente não sentirmos as "mordidas" da nossa consciência, mas apenas nos deleitarmos com seus "beijos" (Nietzsche).

Alguns terapeutas- sejam eles psicólogos, psiquiatras, espiritualistas ou os que escrevem livros de auto-ajuda - costumam usar argumentos assertivos para atenuar as fases negativas (mágoas e arrependimentos) de seus pacientes ou leitores para que estes resgatem sua auto-estima. No entanto, não promovem uma análise assistida do contraponto que originou o negativismo, ou seja, o arrependimento foi neutralizado, mas por que ele existia? Será mesmo que ele não existe mais ou foi encoberto pelo argumento assertivo que "compramos" para podermos sair do buraco? Esses terapeutas colocam apenas esparadrapos na alma!

Cansei de ver terapeutas e espiritualistas pobres que passaram a defender o direito à riqueza, mas apenas depois que ficaram ricos. Cansei de ver também religiões que pregam o desprendimento material, mas mantém seus cofres cheios às custas do desprendimento induzido de suas ovelhas.

Não... a vida não é um teatro, embora sejamos atores e ela nos permita representar nossos papéis. Ela não escreve roteiros, mas registra todas as histórias enquanto se desenrolam e as vai arquivando no "akasha". Não se maltrate, mas também não deixe nada por muito tempo debaixo do tapete porque uma hora você vai tropeçar. Duvide, mas busque a sua verdade; odeie, mas entenda o seu ódio; tenha mágoa, mas entenda a sua mágoa; ame, mas sinta o verdadeiro amor; perdoe, mas só depois que aprender a amar. Amar os outros e a si mesmo.

Como escreveu La Rochefoucauld: "Perdoa-se na medida que se ama."

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