domingo, 5 de fevereiro de 2012

A História não questionada

Hoje eu estava lendo uma interessante matéria do jornalista Lorenzo Aldé na edição de 2008 da revista História da Biblioteca Nacional com o título "Cadê a História que estava aqui?". Considero o senso crítico uma prática fundamental em qualquer leitura. Infelizmente a palavra "crítica" assumiu diversos significados que desencorajam as pessoas de questionar o que lêem, receosos de serem chamados de "hereges" e esse medo infundado as fazem engolir muitas coisas sem digerir.

O problema já começa com a história contada nas escolas, quando somos forçados a ler ou a decorar verdades para irmos bem nas provas. Nessa idade o nosso senso crítico ainda em desenvolvimento é sufocado pelos certos e errados que nos são impostos. E assim vamos crescendo com nossas mentes limitadas por padrões de comportamento e pelo dualismo, muitas vezes nos impedindo de experimentar o saudável exercício de tirar nossas próprias conclusões. O pior de tudo é ainda defender o que nos foi imposto sem admitir a possibilidade de rever nossos conceitos.

Num trecho dessa matéria de Lorenzo Aldé, ele faz uma abordagem sobre a figura de Getúlio Vargas e a história:


(...) Mitos, lendas e incorreções sobre a formação e a identidade nacionais povoam o imaginário coletivo. Muitas vezes a versão se sobrepõe ao fato, seja pela disseminação de interpretações equivocadas, seja pela dificuldade de se definir, preto no branco, o que é a verdade neste país de memórias “mestiças”.


Bom exemplo é a figura de Getúlio Vargas. Ditador simpatizante dos ideais fascistas ou defensor dos trabalhadores? Entre os dois extremos do mesmo personagem, é difícil equilibrar-se numa visão isenta. “É quase uma ofensa falar mal de Vargas”. Comenta a professora Mariana de Melo, baseada em sua experiência com turmas de um curso noturno em uma escola estadual do Rio de Janeiro. Não adianta descrever em detalhes as arbitrariedades do Estado Novo (1937-1945), a censura, a perseguição política. “Mas, professora, ele criou as leis trabalhistas”, retrucam os alunos. Para ela, uma postura compreensível: “Dentro da perspectiva dessa camada social, isso é o mais importante”, pondera a professora, dizendo ser espinhosa também a missão de mostrar aos alunos que as benesses sociais trazidas por Vargas não foram fruto de sua generosidade pessoal, mas resultado de um processo histórico inevitável.


Se entre adultos é complicado esclarecer contradições desse tipo, que dirá entre as crianças e adolescentes. Este público está habituado a interpretar histórias que tenham vilões de um lado e heróis de outro. “Tem que ter uma definição: é bom ou é mau?”, sintetiza a professora Joana Ferraz de Abreu, que leciona em escolas particulares do Rio. Por isso, ensinar Getúlio também dá trabalho, assim como os episódios da História Mundial. A Alemanha é a vilã da guerra, mas a Inglaterra também tinha campos de concentração. Claro que tudo depende de que lado do front o país esteve e de quem saiu vitorioso. “As crianças americanas, por exemplo, dificilmente aprendem muito sobre a bomba atômica”, compara.


No Brasil, o ato bárbaro cometido pelos Estados Unidos contra Hiroshima e Nagasaki no fim da Segunda Guerra Mundial tem espaço na sala de aula. E repercute até demais, pois o antiamericanismo anda em voga entre os mais jovens. É um dos preconceitos que prejudicam uma compreensão imparcial dos acontecimentos. (...)

Já vimos políticos brigando entre si pela posse de Vargas para seus partidos (PDT e PTB), mas será que é um bom negócio ter Getúlio como patrono?

As pessoas PRECISAM DE HERÓIS porque não conseguem enxergar o herói que existe dentro delas, já dizia Nietzsche. Além do mais, não se consegue ir a fundo nas reais intenções do herói construído, principalmente após a sua morte. Há um misto de medo e respeito em contestar a vida de celebridades porque a morte santifica a sua imagem, ficando a história contada pelos que lhes foram próximos. E Nietzsche ia mais longe em "Para além do bem e do mal" (1) e "A Vontade de Poder"(2):

  1. "Como? Um grande homem? Eu apenas vejo o ator representando o seu próprio ideal"
  2. "Todo o grande homem é, necessariamente, cético, ainda que possa não o mostrar: pelo menos se a grandeza dele consistir em querer uma coisa grande e grandes meios para realizá-la. A liberdade em relação a todas as convicções faz parte da sua vontade: o que está em conformidade com o "despotismo esclarecido" que todas as grandes paixões exercem."
E assim a história formal vai sendo contada e escrita por "caronas", normalmente sucessores desses santos-heróis, protegidos pela heresia da contestação. Assim fizeram com Getúlio e Juscelino; assim farão com Fernando Henrique e Lula; assim fizeram, fazem e farão algumas nações, vendendo suas imagens de salvadoras do mundo... anjos da morte de roupas camufladas.

Mesmo que reconheçamos a singularidade de alguns, se tivéssemos de reconhecer grandes homens, restariam poucos privilegiados como Gandhi e Mandela que, ao contrário desses heróis moldados pelo poder, lutaram em meio às minorias, sem exércitos e sem se transformarem em déspotas. Não criaram sucessores políticos.

"Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis." (Berthold Friedrich Brecht)

Separemos o joio do trigo. Não precisamos de heróis... precisamos hoje de senso crítico para contestar o presente e a própria história.




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