quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Vencer o Medo

Este pequeno texto de Henry Miller é profundo. O medo, quando natural, nos protege; o medo, quando indiscriminado ou pontual, nos destrói, tentando deter ilusoriamente o fluxo da vida, como escreveu Miller. O medo está a ligado à ordem de valores porque nasce, muitas vezes, do instinto de proteção dos desejos do ego. Proteger o ego é tentar estancar o processo evolutivo quando, na verdade, ampliará a sensação de sofrimento no momento (inegociável) do aprendizado ilusoriamente eliminado. Trocar a coragem pelo prazer doentio da ilusão é o pior de todos os medos e omissões.

Complementa o filósofo Sêneca: "[...] nunca ninguém se atreveu a aproximar-se do que lhe perturba o espírito e a averiguar a natureza real e fundamentada do seu medo. Daqui resulta o crédito que se dá a um perigo inexistente, que mantém a sua aparência porque ninguém o contesta a sério. Basta que nos decidamos a abrir bem os olhos para verificarmos como é diminuto, incerto e inofensivo aquilo que receamos. A confusão dos nossos espíritos corresponde perfeitamente à descrição de Lucrécio: «tal como as crianças no meio da escuridão tremem com medo de tudo, assim nós tememos a plena luz!»"


Vencer o Medo

"Parecemos estar hoje animados quase exclusivamente pelo medo. Receamos até aquilo que é bom, aquilo que é saudável, aquilo que é alegre. E o que é o herói? Antes de mais nada, alguém que venceu os seus medos. É possível ser-se herói em qualquer campo; nunca deixamos de reconhecer um herói quando este aparece. A sua virtude singular é o fato de ele ser um só com a vida, um só consigo mesmo. Tendo deixado de duvidar e de interrogar, acelera o curso e o ritmo da vida."


"O covarde, ao contrário, procura deter o fluxo da vida. E claro que não detém nada, a menos que detenha a si mesmo. A vida continua sempre a avançar, quer nos portemos como covardes, quer nos portemos como heróis. A vida não impõe outra disciplina - se ao menos o soubéssemos compreender! - para além de a aceitarmos tal como é."


"Tudo aquilo a que fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos, acaba por contribuir para nos derrotar. O que nos parece sórdido, doloroso, mau, poderá tornar-se numa fonte de beleza, alegria e força, se o enfrentarmos com largueza de espírito. Todos os momentos são momentos de ouro para os que têm a capacidade de os ver como tais. A vida é agora, são todos os momentos, mesmo que o mundo esteja cheio de morte. A morte só triunfa ao serviço da vida."

Henry Miller
(Romancista - EUA)
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3 comentários:

Nana Ervilha disse...

belo texto de henry miller você resgatou, zé. o medo emperra, e a alma emperrada tem medo - da derrota, do fracasso, da loucura. quem tem medo fica agressivo ante a potencial ameaça que pode vir de qualquer um. fica intolerante, porque teme a liberdade que a diversidade traz. fica amargo, porque não consegue vencer o medo. boa reflexão você provocou. :)

Rafaela Andrade disse...

Precisamos vencer o medo para que ele não nos vença. É por isso que hoje tem tanta gente vitoriosa profissionalmente e infeliz no amor e vice versa, foge do que não domina( ou acha que não domina) e vai deixando a vida passar...

Adorei o texto.
Obrigada!
Rafaela

Pura Reflexão disse...

Nana... é verdade que o medo emperra a nossa vida e boicota a busca pela felicidade, mesmo sabendo que ela (a felicidade) não é plena, mas feita de momentos. Pessoas com medo deixam de viver e perdem oportunidades... aquelas do cavalo selado que só passa uma vez. Gosto de ver seus comentários aqui, concordando ou não (risos). :o)

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Rafaela... grande verdade. Mais estranho ainda é quando essas pessoas fogem, não por falta de capacidade, mas porque perseguem inconscientemente o padrão de infelicidade para não perderem o status de vítimas do destino. Obrigado por comentar. :o)

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