segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

FEB - direitos humanos seletivos

Tenho um tio e padrinho, Flávio Villaça, que foi da Força Expedicionária Brasiliera, a FEB. Ouvi muito suas histórias e ninguém, por mais que tente, pode imaginar com realismo o que muitos dos mais de 25 mil homens passaram na Itália ou ser empático com suas famílias (467 morreram). Heróis que desembarcaram no Porto de Nápolis desarmados e apenas com um saco às costas.

Meu tio, hoje muito doente, não fosse seu esforço pessoal e amparo da família quando retornou da Itália, poderia ser um dos inúmeros idosos que se encontram desamparados pelo exército e pelo governo, muitos brigando na justiça por receberem aposentadorias miseráveis. Quando voltou da guerra, meu tio ficou trancado durante meses em seu quarto, não saindo nem para refeições e descontrolando-se emocionalmente todas as vezes que ouvia gritos ou pessoas falando alto. Imagino as 467 famílias que perderam seus filhos e as dos que retornaram com sequelas físicas e emocionais irreversíveis.

A consideração do Brasil pelos seus Pracinhas é tanta, que existem restos mortais de um ex-combatente não identificado na Itália desde 1963 e que hoje aguarda a boa vontade governo brasileiro para testes de DNA, mas o Itamaraty não tem tempo e nem idéia de quando isso será feito. Existem ainda histórias tristes e horripilantes de expedicionários enterrados como indigentes e outros mutilados que ficaram sem amparo governamental. Vocês poderão ver essas tristes realidades no site:"Ecos da Segunda Guerra"

O governo (com razão) preocupa-se com torturados e mortos na época da ditadura militar, mas também sem muita seletividade nas pensões e benefícios. Já esses heróis brasileiros que ajudaram a eliminar da face da terra aquele louco nazista (nem ouso contaminar meu blog com seu nome) são simplesmente ignorados, pois, o crime político tem a preferência dos políticos. Seria algum tipo de ranço generalizado contra o militarismo? O Presidente João Goulart bem que tentou fazer alguma coisa para os ex-combatentes da FEB, mas não deu tempo em virtude do golpe militar de 64. E os que ainda estão vivos, certamente não terão tempo de ver a justiça acontecer.

Este é um pequeno protesto para ficar gravado no ciberespaço e aproveito para postar uma breve história para os mais jovens de como tudo começou e a Canção do Expedicionário, com letra do poeta Guilherme de Almeida e música de Spartaco Rossi. E no final, o primeiro de uma série de 4 vídeos com depoimentos de ex-combatentes brasileiros.

Narrativa de meu tio, Flávio Villaça Guimarães sobre Patrulha Brasileira em Torre di Nerone - Arquivo Diana Oliveira Maciel:
"Todos os febianos que participaram ativamente da Campanha da Itália, durante a 2ª Guerra Mundial, têm em suas memórias este ou aquele episódio que exigiu de cada qual o máximo de suas energias, de cautela, de ponderação, discernimento e sacrifício. A coragem de todos foi posta à prova desde o instante em que se iniciou a travessia do Atlântico e do Mediterrâneo, pois os alemães haviam esparramado uma quantidade acima do normal de minas submarinas em uma grande extensão daquelas águas, expondo o majestoso "General Mann" a enorme perigo durante os quinze dias de viagem que empreendeu do Rio de Janeiro até Nápoles. 
Vencidos todos aqueles riscos, primeira etapa do compromisso assumido pelo Exército Brasileiro para com as tropas aliadas, agora já em solo italiano, chegou a prova de fogo – o combate ao experiente e resoluto inimigo. O preparo físico, tático e psicológico durou aproximadamente dois meses e, a 15 de setembro de 1944, o 1º Escalão deslocou-se de Hospedaleto para o "front", nas proximidades de Pisa, a fim de substituir o 2º Batalhão do 370º Regimento de Infantaria americano. Durante o trajeto, a travessia do rio Arno foi feita por meio de balsas, pois suas pontes haviam sido danificadas pelos alemães.  Em princípio de novembro (1944), o II Batalhão do 6º Regimento de Infantaria (II/6º RI), da Força Expedicionária Brasileira (FEB), deslocou-se para a região de Porreta Terme e, na noite de 3 para 4, ocupou as posições localizadas nas proximidades da Torre de Nerone, passando o posto de observação (PO) a funcionar precariamente junto ao comando do batalhão em Costa de Áfrico. 
De imediato foram "agraciados" com rudes bombardeios da artilharia alemã, provavelmente localizada na região de Castelnuovo.  Em meados de dezembro, ainda sob impiedoso frio acompanhado de fortes chuvas, o pelotão de observadores rumou para a Torre de Nerone, localizada na cota 670, um local importantíssimo e sumamente estratégico, mas de enorme perigo por estar completamente desprotegido, exposto aos certeiros tiros dos alemães com fuzis munidos de lunetas. O posto de observação localizava-se num buraco (subsolo) da Torre, escavado durante a noite, com área de mais ou menos quatro metros quadrados, com pouco mais de um metro de altura, mal dando para se mexer em seu interior. As observações eram diuturnas, sem a menor trégua. Durante quase todo o implacável inverno o pelotão permaneceu na Torre de Nerone e, devido às dificuldades de acesso àquele local, de lá deslocava-se apenas uma vez por semana até o posto de comando (PC) do major comandante do Batalhão a fim de suprir-se de ração e água. A água que levava era distribuída para cada um dos companheiros e o conteúdo de um cantil tinha que ser rigorosamente dosado. Do local onde se encontrava o PC (Costa de Áfrico) até a Torre, era mais de uma hora de caminhada devido ao terreno ser escarpado e com um declive de mais ou menos 400 metros. A descida somente era possível depois das 21 horas, quando a escuridão era completa. 
Nossas patrulhas, morteiros, nossa artilharia pesada e até mesmo nossos valorosos irmãos da Força Aérea Brasileira tiveram um insano trabalho para rechaçar as investidas do inimigo e pressioná-lo para evacuar suas posições no imenso arco montanhoso por ele ocupado: montes Belvedere, Della Torracia, Castelnuovo di Garfagnana e Soprassasso. Do PO da Torre de Nerone mantinha-se constante comunicação com todas as companhias do II Batalhão, que eram rudemente atingidas pela artilharia alemã e que necessitavam saber a procedência daqueles disparos para responderem de imediato com contra-ataques. A vigilância se intensificava a cada chamado com angustiantes súplicas e alucinantes apelos para tentar descobrir a localização dos canhões, bem como das posições das metralhadoras – as célebres "lurdinhas"– dos alemães, metralhadoras estas que tinham condições de disparar mais de 1.200 tiros por minuto! Felizmente, dada a privilegiada localização do PO da Torre de Nerone, conseguiu-se identificar muitas das posições da artilharia inimiga e bloquear suas investidas. A Torre de Nerone foi para o pelotão que durante todo o rigoroso inverno ali permaneceu uma posição das mais perigosas. Mas de lá foi possível controlar a movimentação do inimigo e dos locais onde se encontravam seus canhões. Torre de Nerone foi uma perfeita cobertura para a Divisão Expedicionária Brasileira nos campos da Itália."

Dr. Flávio Villaça Guimarães, ex-combatente

Revista "O Expedicionário"


Pequena história:
Em 1939, com o início da 2ª Guerra Mundial, o Brasil manteve-se neutro, numa continuação da política do Presidente Getúlio Vargas de não se definir por nenhuma das grandes potências, somente se aproveitando das vantagens oferecidas por elas.
Em vista da série de torpedeamentos de navios mercantes brasileiros, em nossa costa litorânea, o Brasil reconheceu o estado de beligerância com os países do eixo. Pensou-se então no envio à Europa de uma Força Expedicionária, como contribuição à causa dos aliados.
O primeiro semestre de 1944 foi de intensos preparativos e, a 2 de julho de 1944, teve início o transporte do 1º Escalão da Força Expedicionária Brasileira - FEB com destino à Nápoles. Em 22 de setembro de 1944, seguiram o 2º e 3º Escalão, em 23 de novembro de 1944, o 4º Escalão e finalmente, em 08 de fevereiro de 1945, o 5º Escalão, completando a 1ª D.I.E. (Divisão de Infantaria Expedicionária) constituida de 25.334 homens, sob o comando do General João Baptista Mascarenhas de Moraes. 
Incorporada ao V Exército aliado, a FEB entrou em combate em 15 de setembro de 1944, participando de várias batalhas no Vale do Rio do Pó, na Itália. Destacaram-se: a Tomada de Monte Castelo, a conquista de Montese e a Batalha de Collecchio. Os brasileiros perderam durante a campanha, 467 elementos, além de 8 oficiais da Força Aérea Brasileira.
Em 6 de Junho de 1945, devido à vitória final na Europa com a capitulação total das tropas nazistas, o Ministério da Guerra do Brasil ordenou que as unidades da FEB se subordinassem ao comandante da Primeira Região Militar (1ª RM) sediada na cidade do Rio de Janeiro, o que, em última análise, significava a dissolução do contingente.
As cinzas dos corpos de nossos heróis mortos no conflito foram transladadas de Pistóia para o Brasil e, hoje, repousam no Monumento aos Mortos que foi erguido no Aterro do Flamengo, zona sul da cidade do Rio de Janeiro para materializar o heroísmo, a coragem e a bravura de nossos homens.

Fonte: www.anvfeb.com.br



CANÇÃO DO EXPEDICIONÁRIO

Letra de Guilherme de Almeida
Música de Spartaco Rossi



Para ouvi-la enquanto lê:







I

Você sabe de onde eu venho?
Venho do morro, do engenho,
Das selvas, dos cafezais,
Da boa terra do coco,
Da choupana onde um é pouco,
Dois é bom, três é demais.
Venho das praias sedosas, 
Das montanhas alterosas,
Do pampa, do seringal,
Das margens crespas dos rios,
Dos verdes mares bravios,
Da minha terra natal.

[Estribilho]
Por mais terra que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse “V” que simboliza
A vitória que virá;
Nossa Vitória final.
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

II

Eu venho da minha terra,
Da casa branca da serra
E do luar do meu sertão;
Venho da minha Maria
Cujo nome principia
Na palma da minha mão,
Braços mornos de Moema.
Lábios de mel de Iracema
Estendidas p’ra mim.
Ó minha terra querida
Da senhora Aparecida
E do Senhor do Bonfim!

[Estribilho]

III

Você sabe de onde eu venho?
É de uma Pátria que eu tenho
No bojo do meu violão;
Que de viver em meu peito
Foi até tomando jeito
De um enorme coração.
Deixei lá atrás meu terreno,
Meu limão, meu limoeiro
Meu pé de jacarandá.
Minha casa pequenina
Lá no alto da colina,
Onde canta o sabiá.

[Estribilho]

Venho do além desse monte
Que ainda azula o horizonte,
Onde o nosso amor nasceu;
Do rancho que tinha ao lado
Um coqueiro que, coitado,
De saudade já morreu.
Venho do verde mais belo,
Do mais dourado amarelo,
Do azul mais cheio de luz,
Cheio de estrelas prateadas
Que se ajoelham deslumbradas,
Fazendo o sinal da Cruz!

[Estribilho]



Depoimentos dos Pracinhas (Parte I)



Assista as outras partes no Youtube
Parte 2 - Parte 3 - Parte 4

-O-

Um comentário:

Cláudio Ferigoli disse...

Querido amigo, louvo sua persistência em manter um blog, com assuntos sempre interessantes... Esse nosso país não dá mesmo valor a nossa memória... e os políticos, sempre imediatistas, não têm a mínima noção de prioridade... como iriam se preocupar com fatos de tantos anos atrás... Mas é isso... mantenha sua luta (aproveito para lhe sugerir um nome para suas pesquisas: Gene Sharp... e também divulgação... veja lá no meu perfil do face)... grande abraço Xará...

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