domingo, 19 de setembro de 2010

Não é, com certeza, o meu país



Ser apartidário é como um espírito o qual apenas alguns que têm sensibilidade podem enxergar. Procuro, ler e ver e escutar todos os lados de um fato. Tento escolher o veículo de comunicação para me informar com critérios, avaliando inclusive o seu passado, seus proprietários, editores e repórteres. Procuro até me lembrar de situações duvidosas que envolveram outros partidos e a posição do veículo diante do episódio. O interessante é que tudo isto é automático e não sigo nenhum roteiro. A sensibilidade comanda o meu julgamento, mas a minha sentença é interna, pois, novas situações podem aparecer. 

No entanto, as notícias em relação às últimas trambicagens nas babas do Planalto saíram em TODAS as mídias, com os mesmos fatos, as mesmas primeiras negações, as mesmas posteriores confirmações e as mesmas desculpas esfarrapadas. Sou apartidário, mas não sou idiota e nenhuma criancinha para acreditar nessa história de "Unânime Revolta da Imprensa" ou nessa besteira alegada de perseguição com cara de "Teoria da Conspiração". Nem coisa de psicótico é. É um total menosprezo à média inteligência do povo.

Há um misto de indignação e revolta. Minha vontade é de voltar aos tempos de estudante. Na minha época os estudantes eram despojados e idealistas. Não trocavam suas convicções por nada deste mundo e não tinham medo. A adrenalina era droga permitida, sua produção era interna e não precisava de receita. Estudantes não se vendiam e se indignavam com roubos e com a desigualdade social. Sabiam se organizar e tinham sensibilidade para distinguir uma voz sincera de comando em meio à multidão. E quando o coração batia alto, era como se as palavras de Mahatma Gandhi ecoassem em seus ouvidos: "Quando a verdade fala em mim, sou invencível". Cassetetes e bombas de gás pareciam não fazer efeito.  Eles não queriam doações, propinas, empregos ou quaisquer tipos de vantagens para suas entidades representativas. Queriam justiça social, seus direitos de cidadania e poder falar... apenas e tão somente isto. Não consideravam ter algo a perder porque a época era de SER e não de TER. Um ideal valia mais que computadores, carros e roupa de grife. A amizade entre eles era sincera e trair a confiança era pior que a morte. Eram seres mirrados e sem corpos "malhados". Não treinavam jiu-jitsu, caratê e nem frequentavam academias. Eram aquilo ali que todos viam, seja por dentro ou por fora, sem embrulho pra presente. Cabeludos, calças justas e camisetas pra fora. Era pegar ou largar, mas quem pegava sabia o que estava levando.

Ta certo! Vocês, estudantes de hoje, podem me chamar de velho nostálgico e até aceito o rótulo. Mas vocês não fazem a mínima idéia de como é bom recordar a alegria de ter feito a diferença com uma causa nobre na cabeça. Espero, sinceramente, que ainda experimentem esse gostinho de participar das mudanças de uma nova geração. Que um dia possam sentir o doce sabor e o orgulho de fazer história no lugar desse gosto amargo da indiferença.

Os artistas daquela época? Sei lá...devem estar por aí, curtindo suas bonanças de idealistas broxados. Alguns mamando nas tetas e outros escondidos como avestruzes. Os que gritam são poucos. Nos tempos que lhes impunham mordaças os gritos eram bem mais altos. É assim mesmo... bolsos mais fortes, pulmões mais fracos. Na verdade, hoje eles nos forçam a entender que não gritavam por todos, mas por eles mesmos. Músicas bonitas e letras com forte conteúdo ideológico. Salvaram a sua parte desse triste latifúndio, mas como já foi dada, não se abre mais a boca.
 
Aos governantes e políticos, meus desejos sinceros e apartidários de que se contentem com o que já conquistaram ou roubaram. Que não se escondam atrás de suas causas nobres e mintam menos, pois, deixar de mentir sei que é pedir demais. Que ao chegarem em suas casas CONSIGAM olhar SINCERAMENTE de frente e com dignidade para seus cônjuges e filhos, sem precisar imaginar que o dinheiro foi ROUBADO em nome do bem deles mesmos. Que desejem o poder, mas que de vez em quando não cedam à tentação de se eternizarem nele, aceitando perdê-lo em troca de ser povo, de novo, ao menos por algum tempo.

Não se esqueçam de que a maioria escolhe, mas são as minorias conscientes que destronam e ajudam a renascer a esperança de uma nação já habituada à liberdade. A fase é crítica e os acontecimentos já ultrapassaram o nível do suportável há muito tempo. E o pior... vocês fazem isso em nome da igualdade. Da igualdade de vocês mesmos.

Frase tirada da própria bíblia dos políticos: "Nas repúblicas há mais vitalidade, o que não permitirá que os seus cidadãos apaguem a liberdade da memória."  - Niccolo Maquiavel


E não existe liberdade sem um mínimo de dignidade. Nós somos tudo e gente assim, não é nada. Gente? Que gente?

-o-

3 comentários:

Silvia Palma disse...

Tive hoje a grata surpresa de conhecer o seu Blog. Parabéns! As suas palavras são um alimento para a alma. Estarei acompanhando. Abs

vivi lima disse...

muito bem escrito,expressado e assinado !!!! O PENSAMENTO RETRÓGRADO NA ÉTICA E IDEOLOGIA DA ATUALIDADE É ASSUSTADOR, SINTO-ME NA ERA DAS CAVERNAS QUANDO PENSO SOBRE A REAÇÃO POPULAR AS AÇÕES DE TANTA CORRUPÇÃO DA ATUALIDADE. CRUZAR AS MÃOS E PIOR , REFORÇAR TAIS AÇÕES, SÓ PERMITE VISLUMBRAR AOS MESMOS, UMA ÉPOCA AINDA MAIOR D SERVIDÃO E PASTO!

Marly Molina - Psicologia e Ciência disse...

Quando crescer quero escrever como vc! Tuas reflexões me comovem. Te parabenizo pela belas e emocionantes palavras! Obrigada, é inspirador!

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